domingo, 8 de abril de 2018




LULA DA SILVA


LULA DA SILVA pode ter errado - o que não foi provado judicialmente! - mas foi condenado por gente incomensuravelmente desonesta e hipócrita que não suporta os pobres e detesta a sua melhoria de vida.
O "crime" de Lula foi ascender de modesto operário a homem poderoso que até vivia acima das suas expectativas sociais... Isso é que era incómodo para a oligarquia brasileira, mimada desde há séculos com doses absurdas de mordomias e intocável apesar dos seus crimes, que abarcam tudo, desde o roubo descarado dos bens do Estado e a corrupção permanente, pura e dura, ao genocídio de populações e a destruição do ambiente a favor dos seus egoístas interesses de classe.
Mas este ódio desmedido nasceu principalmente de sua acção política, que estava a combater a pobreza com êxito e a dar a palavra e o poder ao Povo, crime dos crimes. Lula é uma grande figura histórica desse Brasil desgraçado. Corruptos e assassinos não têm autoridade moral para o condenar. Espero que o povo que ele defendeu o liberte e corra com a chusma de bandidos que agora desgoverna o país.
Mesmo a manter-se a sua situação, Lula da Silva pode estar preso, mas ninguém apagará o seu papel libertador. Ninguém apagará o seu nome! Ele ficará nos livros de História do Brasil, mas também na História Mundial. Temer, os seus juízes de serviço e todos os outros da sua igualha serão apenas alguns nomes desprezíveis numa longa lista de criminosos cujos próprios nomes acabarão varridos pelos ventos da História! Serão, simplesmente, os Malditos!

sexta-feira, 6 de abril de 2018



EDIFÍCIOS CIVIS MANUELINOS 

DE TOMAR

Carlos Rodarte Veloso

“O Templário”, 5 de Abril de 2018

                    "Continua-se hoje a publicação de excertos do meu trabalho “Urbanismo e Arquitectura Civil de Tomar na Época da Expansão”

               As importantes mutações sociais verificadas no tempo de D. Manuel I teriam que se reflectir sobre a forma de viver e, portanto, sobre as construções.
               Vários edifícios públicos prestavam diversos serviços administrativos e sociais. É o caso dos Paços do Concelho, nascidos de um “assento de casas” mandadas fazer pelo rei, no lugar onde havia umas boticas do Infante D. Henrique. O edifício que chegou aos nossos dias não ostenta já características “manuelinas” pois sofreu uma série de transformações e obras em diferentes épocas, o que explica a sua feição maneirista. A galilé da frontaria e as arcadas das traseiras conferem ao conjunto uma dignidade muito consentânea com as suas funções cívicas.
               Também importante foi a criação da Misericórdia de Tomar, em 1510, com base no Hospital de Santa Maria da Graça, obra, como vimos, do Infante D. Henrique. Verificava-se então, neste caso graças à acção da rainha D. Leonor, uma crescente tomada de consciência dos governantes acerca das responsabilidades sociais do Estado.
               Mas é na casa particular e, muito especificamente, na casa nobre, que o surto económico nascido da expansão marítima, vai ter maior incidência.
               Na verdade, o que é válido para a arquitectura religiosa, em que se multiplicam os melhoramentos nas velhas igrejas, as mais das vezes através do abobadamento das capelas-mores ou colaterais ou da reconstrução dos portais ao gosto manuelino, é-o também para a arquitectura doméstica. Se são raros ainda, na província, os palácios de grande aparato, multiplicam-se os sinais exteriores de riqueza através da decoração de portas e janelas. Vergas recortadas, polilobadas, contracurvadas ou, simplesmente, adornadas com os motivos naturais manuelinos, dão carácter às primeiras fachadas quinhentistas. É tão forte a penetração deste gosto, que estas formas de natureza tardo-gótica se vão manter por mais de um século, apesar do mais erudito surto renascentista e sua consequência, o Maneirismo.



               Na antiga Judiaria, depois Rua Nova e hoje Rua Dr. Joaquim Jacinto, marcadamente burguesa, diversas janelas manuelinas ostentam as suas vergas recortadas. É assim a casa nº 40, com porta bem simples e janela de peitoril no 1º andar, com verga trabalhada e avental (Fig.1). Na mesma rua, a casa nº 63 ostenta, na verga da porta, dois compassos ladeando um círculo, símbolo decerto da profissão do proprietário, talvez um pedreiro.
               Na antiga Levada, hoje Rua Everard, já desapareceu a janela manuelina — e, decerto, a casa a que pertencia… — representada em desenho no Inventário de Matos Sequeira, editado em 1949.
               De uma outra janela de feitura mais elaborada, também manuelina e igualmente proveniente de um prédio da Levada, segundo Vieira Guimarães “ligado aos Cubos da Ordem de Cristo”, e desenhada por Albrecht Haupt, em 1888, nos dá conta o mesmo Vieira Guimarães que, para evitar que ela fosse “enriquecer o palácio do Marquês da Foz, em Torres Novas”, assim “desaparecendo de Thomar”,  a  mandou instalar na sua quinta de Marmelais de Baixo. Depois da sua morte, ruiu a casa da dita quinta e, com ela, a janela, desde 1961 arrecadada, como tantas outras cantarias, no Museu do U.A.M.O.C. (União dos Amigos dos Monumentos da Ordem de Cristo), no Claustro da Lavagem do Convento de Cristo ).
               Outras janelas quinhentistas, quer ao gosto manuelino, quer ao renascentista, muitas delas publicadas já por António Carlos Godinho, se podem admirar, em diversas ruas de Tomar, avulsas ou integradas ainda em boas casas do Centro Histórico. Também os revivalismos neo-manuelino e neo-renascença, prolongados muito para além do seu tempo próprio, ampliam a sugestão de intemporalidade que tantas vezes nos assalta ao percorrer as velhas ruas, não se distinguindo, por vezes, o antigo do “moderno”.


               Exemplo do Neo-Manuelino é a Casa Vieira Guimarães (Fig.2), construída entre 1920 e 1922 defronte da entrada leste da Ponte Velha. A sua torre octogonal parece ser réplica da torre manuelina da Igreja de S. João Baptista, como esta parece ser inspirada na Charola do Convento de Cristo.

Nota: Fotos de C. Veloso

terça-feira, 3 de abril de 2018




REFLEXÃO E PROPOSTA PARA O DIA 1 DE ABRIL DE 2018

E SE, PARA VARIAR, NUM TEMPO EM QUE TODOS OS DIAS SÃO DA MENTIRA, O DIA 1 DE ABRIL PASSASSE A SER O DIA DA VERDADE?

domingo, 1 de abril de 2018



FLUVIÁRIO E MUSEU DO 

MEGALITISMO DE MORA

Carlos Rodarte Veloso

“Correio Transmontano”, 31 de Março de 2018

            Situada no Alto Alentejo, a vila de Mora revela surpreendentes motivos de interesse para além da sua tão alentejana quanto encantadora disposição urbana, as cores e o contraste mediterrâneos entre a terra e o céu, entre o branco das fachadas caiadas e o azul forte das ombreiras, tudo isto preguiçando na ampla paisagem envolvente.
Mora também tem zonas e construções modernas, casando o antigo e tradicional com edifícios de linhas ousadas, como as do Museu Interactivo do Megalitismo e, a poucos quilómetros da Vila, do Fluviário, ambos iniciativa da Câmara Municipal.
O Museu aproveita o edifício da antiga estação da CP desactivada para criar um largo espaço de exposição que combina a museologia tradicional com o uso da tecnologia informática, possuindo igualmente um espaço interactivo dedicado aos mais novos, com jogos destinados a sensibilizá-los para a defesa do património e a compreensão da civilização megalítica que tão importante foi no Alentejo da época neolítica.


Aqui pode admirar-se maquetes pormenorizadas da vida naquela época assim como os artefactos usados por esses nossos longínquos antepassados, tudo complementado com imagens virtuais de grande precisão e muito atractivas, e um espaço de projecção de um pequeno filme didáctico produzido pela instituição. O manequim bem realista de um homem neolítico em actividade é o ícone mais popular desta Museu. O próprio espaço de exposição, moderno pela concepção, revela-se extremamente atraente pela original utilização da madeira e esteticamente irrepreensível.
O Museu é também um poderoso meio de divulgação dos dólmens e menhires e também dois cromeleques e um alinhamento existentes no concelho.
O Fluviário de Mora, integrado no Parque Ecológico do Gameiro banhado pela Ribeira do Raia, está focado na defesa do património natural no que se refere aos ecossistemas de água doce, maioritariamente à fauna piscícola que os povoa. Em algumas dezenas de aquários, podemos visualizar ao vivo cerca de 600 exemplares das 69 espécies que povoam os rios portugueses, da nascente à foz.



Além dos peixes e répteis nativos aqui representados, alguns exóticos, e uma anaconda, a atracção mais popular do Fluviário é um simpático bando de lontras que aqui exibem as suas acrobacias aquáticas, com grande êxito tanto junto de adultos como de crianças.


Neste Alentejo tão habitualmente caracterizado pela secura, Mora, quase vizinha da grande barragem de Montargil, consegue refrescar um pouco a grandiosa paisagem em que está integrada.

Fotos: 1-3 de C. Veloso, 4 www.fluviariomora.pt









quinta-feira, 29 de março de 2018



EDIFÍCIOS CIVIS DE TOMAR DO TEMPO DO 

INFANTE D. HENRIQUE


Carlos Rodarte Veloso

“O Templário”, 29 de Março de 2018


           "Continua-se hoje a publicação de excertos do meu trabalho “Urbanismo e Arquitectura Civil de Tomar na Época da Expansão”

               Ainda em tempo do Infante D. Henrique, começava a desenvolver-se a “baixa” tomarense, ao mesmo tempo que eram construídos os edifícios destinados a abrigar as infra-estruturas económicas e administrativas indispensáveis a esse desenvolvimento. Teria sido no “Chão do Pombal” — hoje Praceta Alves Redol —, onde Gualdim Pais entregou o primeiro foral a Tomar e onde, em 1326, D. Afonso IV teria reunido o povo junto a um alpendre, o local escolhido para esses edifícios.
               As construções sucessivamente edificadas nesse espaço tiveram diversa denominação e diferentes funções e evolução: até à morte do Infante, foram os Paços da Ribeira ou da Várzea Grande, os mais antigos. No reinado de D. Manuel, o pelourinho da Vila, aí implantado, foi mudado para a actual Praça da República. Desde aí fala-se em Celeiro e Cubos, tratando-se, apesar da menor nobreza das funções, de casa sobradadas e com elementos arquitectónicos e decorativos de qualidade: um belo portal rematado pela Cruz de Cristo e datado de 1537, servia de entrada à loja do azeite do D. Prior, sendo hoje a porta principal do edifício do Turismo. Também um portal maneirista, de 1618, que era a entrada principal para os Cubos, se manteve no local até 1965, quando a construção da Ponte Nova demoliu quanto restava daquele complexo económico que também ficou conhecido como Paço dos Cubos, equívoco evidente já que não se tratava de um espaço áulico, mas produtivo. Parece que esta confusão se deve à vizinhança dos Estaus, par de edifícios mandados construir pelo Infante D. Henrique, onde teria falecido, vitimado pela peste, o rei D. Duarte no ano de 1438, referidos como “Paços”. As condições da sua morte são desconhecidas, bem como o motivo da sua associação a edifícios que dificilmente seriam considerados dignos de um rei quando, como vimos, eram os Paços do Infante, no Convento, o local adequado à permanência das altas individualidades, maioritariamente o monarca.
               Os Estaus, ladeando a actual Rua dos Arcos (Fig. 1 – Reconstituição pelo arquitecto João Pedro de Figueiredo  Mota Lima, 1960, in Figueiredo e Silva, União dos Amigos dos Monumentos da Ordem de Cristo, vol. IV, Tomar, 1960), “teriam sido criados com o intuito de proporcionar poiso aos feirantes e aos que à feira – pouco antes criada – ocorriam, a outros forasteiros e ainda à criadagem dos Mestres de Cristo e dos seus freires que viviam então pela cidade para evitar as reclamações da população contra os direitos de aposentadoria que se conhecem da época”, segundo Fernandes Sanchez Salvador e Tatiana Sousa Coelho no artigo de 2012 Os Estaus da Cidade de Tomar, publicado em  http//disegnarecon.unibo.it).
               Da construção, inacabada,  de que apenas sobrevivem duas arcadas libertas de outras construções, encontram-se as restantes, que não foram demolidas, integradas no complexo edifício, sujeitas que foram a modificações e adições devidas ao novo uso habitacional que sofreram ao longo dos tempos.
               Estas construções, atribuídas por Costa Rosa aos artífices do Claustro da Lavagem, devido a semelhanças formais e à identidade das siglas verificada nos dois monumentos, teriam sido edificadas depois de 1438, decerto devido aos protestos do povo, nas Cortes de Lisboa desse ano, precisamente contra os inumeráveis abusos cometidos pela nobreza ao usar do “direito de aposentadoria”.
               Obra igualmente de grande valor social foi a criação do Hospital de Santa Maria da Graça, mandado construir pelo Infante que, para isso, juntou os catorze hospitais e hospícios medievais, então espalhados pela Vila. O único desses edifícios que ainda resta sob uma forma bastante próxima das origens é o humilde Hospital de S. Brás, junto à entrada da Mata dos Sete Montes, a área florestal pertencente à Cerca do Convento de Cristo.
               Com a morte do Infante D. Henrique, em 1460, Tomar finaliza um ciclo decisivo da sua evolução. Mesmo que ele não tenha responsabilidades na organização do seu traçado viário, a sua administração preparou a Vila para os desafios de um tempo que ele próprio preparou, quando enviou as primeiras barcas ao encontro do desconhecido…

sexta-feira, 23 de março de 2018



OS “PAÇOS DO INFANTE” E O 

ESPAÇO CONVENTUAL

Carlos Rodarte Veloso

“O Templário”, 22 de Março de 2018

                    "Continua-se hoje a publicação de excertos do meu trabalho “Urbanismo e Arquitectura Civil de Tomar na Época da Expansão”

               Muitos dos edifícios que hoje podemos admirar no Centro Histórico de Tomar, apesar de numerosas “reabilitações” os terem desfigurado, mantêm ainda grande número de elementos que sobrevivem desde os séculos XV e XVI: janelas, portas, elementos decorativos… Destaca-se especialmente a moradia nobre, o palácio, por muito relativa que essa designação possa ser , especialmente numa vila de média dimensão como é o caso de Tomar. No entanto, muitos dos palácios aqui existentes foram de tal forma adulterados que pouco conservam da traça original, tendo alguns desaparecido de todo, hoje substituídos por edifícios com diferentes funções mas, sobretudo, muito mais pobres do ponto de vista estético.
               Até à nomeação do Infante D. Henrique, em 1420, como governador e administrador apostólico da Ordem de Cristo, toda a vida social de Tomar se concentra em torno e, principalmente, dentro das muralhas do Castelo Templário que, até 1499, continuam a dar abrigo a moradores laicos. Com a administração do Infante assistimos a uma gradual deslocação do centro social da Vila para a margem do Nabão, enquanto se acentua a separação física entre os dois núcleos: o Convento e a Vila de baixo, cindidos mas interdependentes.


               A construção dos “paços velhos”, primeira fase construtiva do chamados Paços do Infante, tem lugar entre 1425 e 1435, na sequência da edificação dos  claustros góticos do  Cemitério e da Lavagem, como eles riscados por Fernão Gonçalves. Esta obra destinava-se a acomodar D. Henrique num espaço digno da sua elevada posição e da imagem que pretendia preservar, o Castelo. A sua contiguidade com a parede do Claustro da Lavagem parece dar continuidade, no espaço e no tempo, a uma expansão na direcção da Alcáçova medieval, ou seja, de poente para nascente. A construção do “Paço da Rainha” ou “paços novos” manuelinos, obra confiada a João de Castilho cerca de 1515, deu-lhes um novo impulso nessa direcção, que viria a ser atingida, já sob formas renascentistas, durante a regência de D. Catarina, entre 1557 e 1562.
               O conhecimento destes paços chega-nos, pela via documental, através do inventário do desembargador Pedro Álvares Sêco que, entre outras valiosas informações, refere grandes modificações estruturais, espaciais e, decerto, funcionais, a que foram sujeitas estas edificações.
               A fachada, hoje muito modificada quanto às aberturas, pode ser admirada na iluminura da portada do Livro IV da Estremadura, da Leitura Nova de D. Manuel I, de 1509. Nela se pode ver a “Porta dos Arcos”, na base da escadaria manuelina e as janelas dispostas aos pares, talvez geminadas, com uma sequência rítmica e uniforme entre as do Claustro da Lavagem e as dos paços. As amplas e sóbrias janelas que hoje as substituem, têm interiormente adossados, pequenos bancos laterais, as chamadas “conversadeiras”
               Uma sondagem arqueológica efectuada em 1985, sob a direcção de Salete da Ponte, no espaço interior destes paços, rectangular e dividido em dois tramos de arcos quebrados, pôs a descoberto uma calçada “em espinha”, possivelmente moçárabe, anterior à construção dos “paços velhos”, bem como as fundações de um muro com meio metro de espessura e vários pavimentos sobrepostos. Um deles, em tijoleira, parece ser contemporâneo da remodelação dos mesmos paços.
               A contribuição moçárabe detectada no espaço civil do Monumento, adequa-se perfeitamente à recusa da tese do ermamento, antes identificando mais uma das sucessivas ocupações do território de Tomar, neste caso islâmica, pois só essa contribuição explica a existência de moçárabes, isto é, cristãos vivendo sob o domínio muçulmano e influenciados pela respectiva cultura.
               Essa diversidade cultural parece-me ser a chave do período áureo da tolerância religiosa em Portugal e, especialmente, nesta Cidade, que se pode honestamente considerar como “das três religiões monoteístas”. Aliás, a construção da Sinagoga, sob o governo e a égide do Infante D. Henrique, completa esse quadro excepcional de inclusão, uma palavra hoje tão corrompida pelo (mau) uso, que quase perdeu o significado.


MAIS UMA ENORMIDADE DE TRUMP, ESTA CONTRA OS ELEFANTES!

Carlos Rodarte Veloso

Todos os animais merecem e exigem protecção por parte dos seres humanos. E amor também, porque parte da beleza do mundo reside na sua existência. Deixar que monstros que se divertem a maltratar, abandonar ou massacrar os animais tenham o apoio de poderes instituídos, neste caso a presidência dos EUA, é uma aberração e um crime! Esta porta aberta ao assassínio do mais magnífico dos mamíferos terrestres e um dos mais inteligentes, é mais um gravíssimo atentado contra a Natureza. Juntemo-nos a nível mundial para condenar todos os governantes que, como Trump, manifestam o mais abjecto desprezo pelos mais elementares valores humanos.

MANUTENÇÃO DAS GARRAIADAS NA QUEIMA DAS FITAS PELO "CONSELHO DE VETERANOS" CONTRA O VOTO DE MAIS DE 70% DOS ESTUDANTES DE COIMBRA

Carlos Rodarte Veloso

Os "veteranos" sempre foram a nódoa da Universidade de Coimbra. Falhados como alunos, falhados como colegas, falhados como cidadãos, falhados como seres humanos! Agora querem assinar a própria sentença de morte como académicos...
Esta atitude antidemocrática e estupidamente anti-estudantil de não acatar o voto da maioria que quer acabar com as garraiadas, tira-vos última oportunidade de sobreviver no século XXI ! Vão parar ao Museu das velharias como múmias adiadas, que sempre foram!

quinta-feira, 15 de março de 2018



URBANISMO DE TOMAR DA ANTIGUIDADE À IDADE MÉDIA
Carlos Rodarte Veloso
“O Templário”, 15 de Março de 2018

Dou aqui início à publicação de excertos escolhidos, corrigidos e actualizados do meu trabalho apresentado em Dezembro de 1997 ao concurso para professor coordenador do Instituto Politécnico de Tomar, com o título “Urbanismo e Arquitectura Civil de Tomar na Época da Expansão”, na sequência e desenvolvimento de nove artigos denominados “Velhas Pedras de Tomar”, publicados no boletim cultural  “Tomar à Letra,”  de Setembro de 1995 a Outubro de 1997. Carlos Trincão, no seu blogue JÁTENHOUMBLOGUE.BLOGSPOT.PE, apresentou um resumo desses artigos em 3 de Fevereiro de 2018.

            É um dado universalmente reconhecido a singularidade do traçado urbano de Tomar que, desde os tempos medievais, corresponde, muito ao contrário do que era uso nessa época, a uma regularidade e harmonia que apenas encontra paralelo na malha urbana das antigas cidades provinciais fundadas pelos Romanos.
            Se é difícil encontrar  ainda plantas seguindo o modelo do "tabuleiro de xadrez", com as suas ruas principais — o cardo e decumano máximos — cruzando-se perpendicularmente no Forum, e todas as outras paralelas a estas, a verdade é que não precisamos de sair do território da Península Ibérica para encontrarmos exemplos dessa extraordinária regularidade e planeamento urbanos, tradicionalmente atribuídos a Hipódamo de Mileto, mas mais provavelmente inspirados na disciplina militar do acampamento romano. Bom exemplo é Emerita Augusta, actual cidade espanhola de Mérida, capital da Lusitânia Romana, fundada por Augusto em 25 a.C, cujo traçado viário, deduzido da sua rede de esgotos da época romana, revela a indesmentível influência de toda a teorização hipodâmica e, também, vitruviana.
            No actual território português, a cidade romana mais famosa e também a mais escavada, é Conimbriga. Nas traseiras do Forum de Augusto foram identificadas algumas casas modestas que os urbanistas romanos pouparam da demolição efectuada para a edificação do monumento. O que resta desse bairro pré-imperial permite pensar num plano regular das ruas cruzando-se quase perpendicularmente.
            Os vestígios de outras cidades romanas em território português, não permitem tirar grandes conclusões quanto ao seu tecido urbano, no entanto o urbanismo de Aquae Flaviae, actual Chaves, parece ter marcado profundamente o traçado da zona central da cidade dos nossos dias a qual, longe de exibir o anárquico urbanismo medieval comum no centro da maioria das nossas cidades antigas, faz pensar numa continuidade entre a Antiguidade e os tempos actuais.
            Esse mesmo tipo de raciocínio ocorre facilmente em relação a Tomar e à sua antecessora, Sellium. Apesar de ser ainda limitada a área escavada, a verdade é que a localização do Forum, bem como a sua relação com as "insulae" e os vestígios de cardos menores, tudo na margem esquerda do Nabão, aponta para a "orientação e projecção ortogonal da cidade".
Lamentável é que os vestígios do forum visíveis nas traseiras do edifício dos Bombeiros, escavados há cerca de trinta anos por Salete da Ponte, se encontrem num estado de abandono tal que todo o terreno escavado está totalmente coberto de vegetação e irreconhecível como vestígio arqueológico. No entanto, o trabalho arqueológico relativo à ocupação romana e medieval obteve um razoável conhecimento da malha urbana de Tomar. A hipótese da sua eventual transposição para a margem direita através da ponte romana então existente e muito próxima da chamada “Ponte Velha” ou Ponte D. Manuel, parecia igualmente de ser tomada em consideração, o que foi corroborado por Carlos Batata, em “Origens de Tomar - Carta Arqueológica do Concelho”, Tomar, 1997,  tanto no que diz respeito à ponte como ao traçado viário da referida margem direita do rio.
            Na verdade, um simples olhar sobre a planta actual de Tomar, e muito especialmente sobre a margem "medieval", logo chama a atenção pela regularidade do seu traçado, tendencialmente hipodâmico, nada “medieval”, portanto.   A tradição de ser o planeamento urbanístico obra do Infante D. Henrique, Governador e Administrador da Ordem de Cristo desde 1420, por muito sedutora que pareça, é hoje totalmente indefensável . No entanto, não repugnaria enquadrar esse hipotético ordenamento numa realidade local dominada pelo poder político e económico de uma alta personagem como é o caso do Infante, já que se verifica uma atitude mecenática da sua parte em relação à organização da Vila medieval. Chamar-lhe plano renascentista é que não convence, já que a introdução de uma estética classicista em Portugal apenas se inicia, timidamente, no reinado de D. Manuel I, encontrando o seu pleno apenas com D. João III.  A haver "plano quatrocentista", deve ter-se adaptado às vias preexistentes, romanas evidentemente, como provavelmente aconteceu em Chaves e noutros locais.
            Se Sellium era, como se depreende da ausência de vestígios de muralhas, uma cidade aberta, segura pela Pax Romana, nada obsta a que o seu traçado se alargasse, naturalmente, à outra margem do rio. A insegurança dos últimos tempos do Império, marcados pelo temor colectivo e invasões várias, teria assim conduzido ao relativo despovoamento do primeiro núcleo urbano, demasiado exposto militarmente — embora em zona mais salubre — e à preferência pela proximidade do monte, decerto fortificado.
            Terá havido, assim, uma continuidade entre o povoamento romano e o medieval. O recurso à etnografia local permite também tirar algumas conclusões interessantes: o crescimento e irradiação do culto de Santa Iria contradiz as teses do “ermamento”, tão em voga desde Alexandre Herculano, segundo a qual desde o domínio muçulmano no século VIII, à fundação do castelo templário, em 1160, a região de Tomar se teria tornado um autêntico deserto, assombrado apenas pelas ruínas dos velhos edifícios. As recentes declarações de Cláudio Torres, na sua entrevista à revista “Sábado”, acerca da ocupação árabe de parte do território peninsular, obrigam a uma grande cautela em relação às ideias tradicionais sobre o assunto.
            De facto, como explicar a continuidade verificada na agricultura local, especialmente ao nível de sistemas hidráulicos de regadio, muito provavelmente introduzidos pelos Árabes? Como explicar as muitas lápides pré-românicas  e tantos topónimos de origem árabe, o desenvolvimento de culturas mediterrânicas ou as novas árvores de fruto introduzidas?
            Considero muito provável uma ocupação contínua desta região desde o período romano aos nossos dias, certamente com períodos de decréscimo demográfico, mas com um certo número de edifícios e instituições, principalmente religiosas, a manter acesa a chama cultural, reavivada após a Reconquista cristã e a reactivação da Vila. O historiador José Mattoso acentua precisamente o papel dos moçárabes na manutenção do culto de diversos santos nacionais, levantando a hipótese de terem sido os mesmos moçárabes agentes do crescimento de outros cultos nacionais, como o de Santa Iria. De que outros moçárabes se trataria, neste caso, senão dos cristãos nabantinos sob o domínio árabe?
            Mas a Reconquista e o repovoamento consequente vão possibilitar um aumento da população e fundação, em 1160, do Castelo Templário, guarda avançada dos Cristãos próximo da linha do Tejo.
            Na verdade não vejo outra forma de explicar a notável regularidade e a excepcional ortogonalidade viária da margem “medieval” do Nabão, o “paradoxo” de Tomar.