sábado, 28 de dezembro de 2019



DOIS RETRATOS DE ABEL MANTA

Carlos Rodarte Veloso

Publicado em Artison, Nº 9, 2019, Revista online do 
Instituto de História da Arte da Universidade de Lisboa



Abel Manta, pintor modernista, aproximou-se do cézannismo, tendo sido “um dos melhores retratistas da sua geração, género em que conseguiu aliar a interpretação psicológica com o registo do visível”.[1]
Apresenta-se aqui dois retratos de sua autoria, até agora ausentes de referência em qualquer texto de História da Arte, um de 1931, representando a jovem “Mizette” (Maria Julieta de Freitas Gomes Rodarte de Almeida Veloso), minha Mãe, outro de 1936, o seu Pai e meu Avô, o Engenheiro Celestino Germano Rodarte de Almeida (este, no entanto, tendo figurado em catálogo de Cabral Moncada Leilões).
O Engº. Celestino Rodarte de Almeida (Ferreira do Zêzere,1890- Sesimbra,1964) foi director da Escola Industrial Machado de Castro entre 1930 e 1957 e ganhou notoriedade devido à sua colaboração na reforma do ensino técnico em 1948.
Amigo pessoal de Abel Manta e de Fernando Pessoa, frequentou o meio intelectual e artístico de Lisboa e exerceu funções na comissão administrativa do plano de obras da Praça do Império e da zona marginal de Belém, sendo-lhe apontada, na tradição familiar, a autoria (ou co-autoria?) nos projectos de engenharia de vários edifícios conhecidos nomeadamente da torre-mirante de Santa Cruz no concelho de Torres Vedras, a estação de caminho-de-ferro de Tomar, o Liceu D. Filipa de Lencastre e o Instituto do Cancro. Infelizmente não obtive comprovativo documental destas autorias.

       
Fotografias de Carlos Rodarte Veloso e de Jaime Martins Veloso

BIBLIOGRAFIA

FRANÇA, José-Augusto – 100 Quadros Portugueses do século XX. Lisboa: Quetzal Editores, 2000, pp. 58-59, 70-71.
GONÇALVES, Rui Mário – Pioneiros da Modernidade. Lisboa: Publicações Alfa, 1986.
MENDES, Manuel – Abel Manta. Lisboa: Artis, 1958.


[1] GONÇALVES, 1986: pp. 120.

sábado, 21 de dezembro de 2019



REDES MUITO POUCO SOCIAIS

Carlos Rodarte Veloso

“Templário”, 19 de Dezembro de 2019


Desde que as chamadas redes sociais conquistaram a Internet, subiu em flecha a expectativa de que a abertura desse gigantesco fórum da opinião viria a unir as pessoas de todos os continentes e, assim, garantir um diálogo democrático a nível global, eliminando de vez a prepotência de todas as ditaduras.
Ingenuidade pura! A invasão da Internet não só foi rapidamente apropriada pelos poderes autocráticos que, onde estavam estabelecidos, sabiamente limitaram os seus poderes mediáticos através de formas mais ou menos habilidosas de censura e vigilância das opiniões “contra”, como se serviram da exposição a que se sujeitaram voluntária e gostosamente os seus actores, para interferir, anonimamente por vezes, mas também com o crescente “contributo” de muito público e dos próprios media, para intervir politicamente, não de acordo com as maiorias que teoricamente controlariam a opinião, mas frequentemente contra essas mesmas maiorias.
O semianonimato que os mecanismos da Net permitem, introduziram aos milhões – e o número cresce diariamente! – anónimos manipuladores cujo papel político se sobrepõe à lógica das maiorias reais, que já não há já forma de avaliar.
É assim fácil, mesmo nos países mais democráticos, que ideias que num diálogo aberto e face a face, dificilmente encontrariam apoiantes na sociedade no seu conjunto, são sentidas como tendencialmente maioritárias.
São assim fáceis as generalizações, quer para atacar determinado status quo, quer para promover outro, porventura abominável em termos históricos – caso do nazi-fascismo e das diversas formas de totalitarismo – ficando a população usuária completamente desinformada da ordem de grandeza da adesão a essa tendência.
Essa manipulação é agora um facto bem conhecido, apesar da extraordinária dificuldade em denunciá-la factualmente, como tem acontecido com a sua interferência nos actos eleitorais de um número crescente de países – ainda – democráticos, como os Estados Unidos, o Reino Unido, a Espanha, o Brasil…
É evidente a interferência do grande capital internacional nesta manipulação, capaz de deturpar a própria autoridade da Ciência no que toca, muito especialmente, às alterações climáticas, cuja evidência continua a ser negada pelas “autoridades” políticas e religiosas de um número inacreditável de países.
Por outro lado e não desprezivelmente, os próprios utentes a nível individual – falo das pessoas singulares e não ligadas necessariamente a lobbies – servem-se deste mecanismo para se libertarem da opressão social, inevitável nas relações humanas, mas também face ao poder instituído, muitas vezes corrupto mas na maioria das vezes inevitavelmente errado nas suas opções, a mais das vezes devido às naturais limitações materiais, mais sentidas nos países mais pobres, mas também nos mais poderosos.
Não são assim apenas manipulados os dados reconhecidos sobre as opiniões dominantes, mas as próprias opiniões acabam por ser modificadas, muitas vezes radicalmente, dando origem a autênticas inversões de tendências tidas até então como a norma.
A toda esta triste situação se acrescenta a contaminação das relações interpessoais, o recurso crescente ao insulto, a exposição da intimidade da família assim prejudicando a sua própria segurança, a abertura ao discurso do ódio, da inveja e da maledicência…
Por vezes tenho sido tentado a abandonar de vez o Facebook, a rede “social” que ainda acompanho, e só não o faço porque procuro, fugindo evidentemente a esses aspectos mais do que negativos, nojentos, dar um contributo quanto possível isento para transformar este mecanismo de comunicação que tantas esperanças suscitou nos seus começos, numa esperança para o diálogo entre todos os seres humanos.
Com cada vez menos esperança, devo dizer!

domingo, 8 de dezembro de 2019



ESCÓCIA E CATALUNHA, AS TÃO INCÓMODAS 

COMO INEVITÁVEIS COMPARAÇÕES

Carlos Rodarte Veloso

“O Templário”, 5 de Dezembro de 2019 

Há mais de dois anos que dirigentes independentistas catalães se encontram presos nas cadeias do estado espanhol. O seu crime? A defesa através de acções não violentas da independência do seu País, através de manifestações e de um referendo, ambos reprimidos com a maior violência, e a prisão dos seus líderes e ordem de prisão para o presidente respectivo, entretanto autoexilado, eleitos pelo povo da Catalunha.
Num país regido por leis democráticas e sob a protecção de uma Constituição ratificada em 6 de Agosto de 1978, que no seu título preliminar proclama “um Estado social e democrático de Direito que propugna como valores superiores do ordenamento jurídico a liberdade, a justiça, a igualdade e o pluralismo político (…) o princípio de soberania popular, e estabelece a monarquia parlamentar como forma de governo”, em suma, uma Democracia, os dirigentes presos e condenados a longos anos de prisão, configuram-se como verdadeiros PRESOS POLÍTICOS, dêem as voltas que derem os argumentos dos seus carcereiros, para cúmulo baseados na dita Constituição.
O mais estranho é que o poder que os encarcerou e condena a inacreditáveis penas de prisão parece apenas acreditar na repressão como forma de evitar a todo o custo uma possível fragmentação da Espanha, sem tomar em consideração outras formas de solução já secularmente experimentadas noutros países, incluindo soluções federalistas, caso dos Estados Unidos da América, do Brasil e da Suíça, por exemplo.



O facto de os independentistas da Catalunha serem maioritariamente republicanos não impediria decerto que o diálogo, inacreditavelmente recusado pelo Estado espanhol, levasse a soluções criativas e porventura resolvesse a dificuldade do diálogo com outras forças autonomistas que bem conhecemos, e em tempos ainda recentes, bem mais agressivas que os actuais “subversivos” da Catalunha…
Entretanto, no Reino Unido, país também monárquico, a constituição é um conjunto de leis e de princípios, portanto uma constituição não escrita nem codificada, mas “de facto” assente na soberania parlamentar, cujos estatutos são aprovados pelo Parlamento do Reino Unido, suprema e última fonte do Direito.



Mas o Estado britânico, ao contrário da Espanha, e apesar dos paralelismos entre ambos, não pôs obstáculos jurídicos ao referendo efectuado na Escócia, em todos os aspectos semelhante ao caso catalão. E, no entanto, assim como a Espanha, também a Reino Unido possui outros diversos territórios com aspirações também independentistas.
É evidente que Portugal é obrigado a uma grande contenção relativamente ao problema político espanhol, até para respeitar a política de não-ingerência em matérias de política interna.
Já custa muito compreender que a União Europeia, por norma – e bem! – muito crítica em relação a quaisquer atropelos à Democracia nos diversos Estados que a constituem – embora sem grandes resultados, como é sabido – se cale hipocritamente perante a vergonha que constitui, para todos nós, haver presos políticos aqui mesmo ao lado, descaradamente!
Que o nosso governo se cale em nome da diplomacia, isso faz parte da “realpolitik”, mas eu, cidadão português livre dessas amarras, digo e repito que é uma vergonha aceitar tal estado de coisas. A Espanha não é a Hungria, nem a Turquia, e o facto do seu governo – embora periclitante – ser socialista, ainda mais obriga a encontrar um caminho digno no labirinto em que se encontra. No mínimo, a amnistia para os presos políticos!

sexta-feira, 15 de novembro de 2019



O LÍTIO DO NOSSO (DES)CONTENTAMENTO

Carlos Rodarte Veloso

“O Templário”, 14 de Novembro de 2019


A riqueza em lítio existente no nosso País, se reconhecida há umas dezenas de anos não daria azo a qualquer polémica: era uma inesperada riqueza que apenas traria prosperidade a Portugal, vindo ainda por cima beneficiar o ambiente, dada a sua utilização nas baterias dos veículos eléctricos, uma das alternativas aos movidos a energias fósseis…
Esta contribuição para a diminuição da pegada carbónica deveria ser saudada como um triunfo da tecnologia e parte importante do conjunto de medidas destinadas a travar o aquecimento global que, dentro de poucos anos trará consequências ainda mais dramáticas à vida sobre o nosso pobre planeta, já tão martirizado nos nossos dias: alterações catastróficas dos ciclos climáticos, secas e desertificação, alternadas com inundações cada dia mais mortíferas, tufões e maremotos, subida do nível dos oceanos, cidades cada vez mais irrespiráveis, incêndios florestais incontroláveis, oceanos e organismos poluídos pelos plásticos, extinção em massa de um número inacreditável de espécies animais e vegetais.
Tudo isto é repetitivo, mas a sua denúncia por um número cada vez mais generalizado dos cientistas pouco efeito provoca na comodista atitude dos inconscientes habitantes da Terra, que pensam ter sempre mais algum tempo para manter os seus hábitos consumistas e predatórios em relação aos recursos naturais.
A difusão da irracionalidade pelos gurus das pseudociências, pondo constante e estupidamente em causa os avisos da Ciência, mais ajuda a alimentar essa atitude irresponsável para com a necessidade de mudar radicalmente as rotinas de uma população mundial em crescimento contínuo.
É ver – e pasmar! – com a enormidade de infinitas “opiniões” veiculadas nas redes sociais, ao nível do “melhor” trumpismo acerca do ambiente e dos perigos que, dizem elas, não o ameaçam… mas também outras opiniões, igualmente desinformadas, embora bem intencionadas, em sentido contrário!
Os ecologistas, por definição na linha da frente da defesa do ambiente, dividem-se agora em grupos de influência em relação à utilização de certas alternativas energéticas, não se conseguindo entender entre eles e, por vezes, dando mostras de um egoísmo nacional pouco consentâneo com os altos ideais defendidos.
Assim, no caso do lítio, a defesa da paisagem passa à frente dos evidentes benefícios da sua exploração e utilização nos veículos de transporte, só aceitável se trazido de outras paragens – mais pobres, evidentemente… – onde já não haverá problemas desde que os desperdícios dessa indústria por lá fiquem a poluir os solos e ambientes e a desfear a paisagem, numa perspectiva no mínimo neocolonialista.
Assim, para protegermos a limpidez da nossa paisagem rural, abdicaremos da exploração desse mineral que, apesar de alguns inconvenientes que apresenta, é abundante em Portugal e uma legislação cautelosa sobre a sua exploração poderia acautelar quaisquer malefícios ambientais e/ou estéticos?
Mais ainda, serão desprezíveis os benefícios económicos trazidos às regiões ricas em lítio pela exploração de uma parte dessas minas, tanto a nível demográfico como social? Não há aqui um lamentável elitismo destes defensores da paisagem, completamente esquecidos dos habitantes que dizem defender?
Dando dois outros exemplos e guardadas as devidas proporções, parece-me perfeitamente ridículo o ataque que alguns grupos ambientalistas desferem contra todos os alimentos geneticamente modificados, como se não fossem eles a esperança que nos resta para alimentar, no futuro, a inevitável fome que já ameaça uma população mundial em crescimento explosivo, ou contra os parques eólicos, devido ao seu alegado efeito pernicioso sobre as aves, cujas rotas migratórias ficariam assim prejudicadas, como se não houvesse muito maior prejuízo para elas devido aos desperdícios das cidades, que lhes alteram os hábitos alimentares e contribuem para, isso sim, alterar profundamente as suas rotinas e migrações naturais.
Sem menosprezar o papel fundamental do AMBIENTALISMO INFORMADO CIENTIFICAMENTE sobre as medidas a favor do Planeta, alerto para o imediatismo pouco ou nada fundamentado de um número crescente de boas-vontades, ignorantes dos mecanismos naturais que dizem defender.
As suas acções, abundantemente cobertas pelos media, variam entre efeitos verdadeiramente benéficos e educativos através da sua acção no terreno, que saúdo vivamente, e um fundamentalismo ridículo que só pode desprestigiar a sua acção.
Estudemos e aprendamos com os cientistas como fez e faz Greta Thunberg, grande defensora, por exemplo, dos automóveis eléctricos, com baterias a lítio... Dá trabalho, mas vale a pena!
 

sexta-feira, 1 de novembro de 2019


O SONHO DA RAZÃO PRODUZ MONSTROS

Carlos Rodarte Veloso

“O Templário”, 31 de Outubro de 2019


Há pouco mais de dois anos publiquei, neste Jornal, um artigo sobre as jornadas de 1 de Outubro, reinício da luta activa dos independentistas catalães, nas ruas de Barcelona e por todo o seu território, pelo referendo com que tentaram legitimar democraticamente o estatuto de independência para este rico e progressista pedaço da terra ibérica.
As esperanças desses dias foram totalmente goradas, primeiro pelo autoritarismo castelhano de um galego de má memória, Mariano Rajoy, com o devido “respaldo” do seu rei, Filipe VI, esperando-se agora, quando a “solução judicial” contra os dirigentes desse movimento patriótico vinha dar alguma esperança de que um indulto ou, simplesmente, a inteligência de não repetir erros do passado, poderia apaziguar os ânimos e conduzir ao urgente diálogo.
Pelo contrário, vemos os dirigentes independentistas presos condenados a pesadíssimas penas de prisão, ao estilo da Santa Inquisição, e Puigdemont, o Presidente eleito, chamado a Espanha para arcar com as consequências do seu “crime”, sem que o actual dirigente socialista da Espanha tenha mexido uma palha para abrir o urgentíssimo diálogo entre a ressabiada Espanha franquista e este heróico povo que ainda consegue manter propósitos pacifistas apesar da repressão que regressou em força às suas ruas.
A presença nas manifestações de grupos extremistas e provocadores, vem dar ainda maior força à necessidade de um diálogo urgente fraterno.
A memória sangrenta da Guerra Civil, com os seus incontáveis mortos, poderá ser um pesado dissuasor da clemência devida aos catalães independentistas, porventura um perigoso agitar das águas em vésperas de dificílimas eleições… mas momentos difíceis exigem dirigentes corajosos e com fortes convicções e capacidade de diálogo, não dirigentes pusilânimes e borrados de medo, se me é permitida a expressão pouco educada…
Goya, o pintor das guerras napoleónicas e das suas atrocidades que, nos “Desastres da Guerra” e nos “Fuzilamentos de 3 de Maio” plasmou toda uma denúncia arrepiante dos males da guerra, representara já, graficamente, poucos anos antes, nos seus “Caprichos” cuja primeira gravura, “El sueño de la razón produce monstruos”, os perigos do domínio do irracional sobre a razão, associada aquela aos piores horrores que assombraram e continuam a assombrar a humanidade.



Esses desenhos e pinturas proféticas parecem prever com uma arrepiante precisão, essa outra guerra, a que atrás me refiro, a Guerra Civil de Espanha de que outros grandes pintores espanhóis como Dalí e Picasso, deixaram testemunhos, respectivamente a “Premonição da Guerra Civil”, de 1934 a 1936, e a famosíssima “Guernica” de 1937. 



Aí se regressa a Goya e aos seus terríveis fantasmas, com os pesadelos que, pelos vistos, fazem ainda muitos espanhóis transpirar…

sábado, 12 de outubro de 2019



UM PLANETA EM CHAMAS

Carlos Rodarte Veloso

“O Templário, 10 de Outubro de 2019


Antes fosse o “lume vivo” de Camões, o “fogo de Sant’Elmo” que anunciava aos navegantes o fim da tempestade que tinha posto em grave perigo pessoas e bens, os corpos prestes a afundar-se no turbilhão das águas, e também as ricas mercadorias, a pimenta e a canela das Índias…
Mas não é! É um fogo real que tudo queima, derrete e mata, e não anuncia a bonança, antes promete mais e mais do mesmo, a destruição pura e simples das criaturas de um planeta que foi rico e alimentava os seus filhos.
A ganância e a extraordinária ideia de um desenvolvimento imparável, capaz de esgotar os recursos de vários planetas, inscrita nos ideais de um sistema económico que apenas beneficia os detentores da riqueza, não permite que olhemos para trás e tentemos moderar as ambições de acumulação pela acumulação…
É sabido o erro trágico de prosseguir a exploração dos recursos não renováveis – especialmente dos combustíveis fósseis – os quais, não só não são eternos, mas produzem males que cada vez mais se fazem sentir, apesar dos negacionistas das alterações climáticas considerarem essas alterações como naturais e desligadas da acção humana.
Líderes mundiais irresponsáveis negam as mais elementares provas do aquecimento global e actuam como se o seu enriquecimento à custa dos recursos do planeta fosse um direito seu, exclusivo.
Por isso, os astronómicos lucros gerados pela exploração dos hidrocarbonetos e o facto de as suas reservas serem ainda muito consideráveis, vai relegar para décadas o seu abandono, apesar dos prejuízos ambientais causados pela sua manutenção, que poderá ultrapassar o período de vida útil que nos resta.
Esta noção dramática do escasso tempo que nos resta para inverter o processo de autodestruição do nosso planeta, levou à iniciativa da jovem sueca Greta Thunberg de iniciar uma greve semanal à escola como protesto contra a inércia dos políticos, iniciativa que se converteu num movimento de massas de jovens de todo o mundo, chegado já à ONU e a outras instâncias internacionais, que a converteu na figura de proa de uma acção colectiva a favor do ambiente.
O facto de sofrer da síndrome de Asperger, um transtorno obsessivo-compulsivo associado ao autismo, contribuiu para a radicalização da sua denúncia da situação ambiental e da urgência de acatar os protocolos internacionais assinados pela comunidade internacional – nomeadamente o Acordo de Paris – que, embora insuficientes, foram abandonados nomeadamente pelos Estados Unidos, pela mão do seu truculento e ambientalmente criminoso presidente, Donald Trump.
As razões de alarme são muitas e gravíssimas, desde o aquecimento global que já está a fundir os gelos dos pólos e a elevar, lenta mas inexoravelmente, as águas oceânicas na invasão dos litorais povoados, os fenómenos climáticos extremos, crescentemente destrutivos, a extinção em massa de um número crescente de espécies, a destruição das florestas pelas crescentes vagas de incêndios ou pelo seu desmatamento intensivo, a poluição das terras e dos mares e das suas criaturas, os seres humanos inclusivamente, pelos plásticos das embalagens com que se embrulha todo o tipo de produtos comerciais e industriais, além de, evidentemente, o dióxido de carbono, o metano e todos gases que respiramos…
Entretanto, uma vaga de censuras contra Greta Thunberg invadiram as redes sociais, nomeadamente contra os seus pais, que a apoiam incondicionalmente, como se a manipulassem, e contra ela própria, pela emotividade de que deu mostras – alguns chamaram-lhe ódio! – nas Nações Unidas, ao acusar os dirigentes mundiais do pouco ou nada que fizeram a favor do clima, quando o tempo se está a esgotar e se torna cada vez mais difícil conseguir em tempo útil – doze anos, segundo o IPCC – a redução de pelo menos 50% nas nossas emissões de anidrido carbónico, e do limite do aquecimento global em 1,5 a 2 graus centígrados.
Seria muito moroso referir a avalancha de críticas que a jovem sueca, agora com 16 anos de idade, tem recebido. Até as suas palavras nas Nações Unidas, "you have stolen my dreams and my childhood" (“vocês roubaram os meus sonhos e a minha infância”) são por muitos consideradas impossíveis na boca de uma adolescente e, portanto, da autoria de gente bastante suspeita “que a manipula e dela se aproveita”, com os seus pais à cabeça!
É evidente que ela parece excessiva, o que cola com a sua condição de autista, mas também com a sua faixa etária. Uma adolescente em choque com a injustiça do mundo... Já vimos isso tantas vezes! A luta pela salvação do planeta e da espécie humana parece-me suficientemente heróica para a entusiasmar e para congregar uma adolescente invulgarmente culta e, com ela, uma geração inteira!
Porque é que uma jovem de 16 anos é incapaz de dizer o que ela disse?! Tive alunos e alunas pouco mais velhas que eram capazes de raciocinar e ter opiniões tão maduras como estas. Não seria uma maioria, mas a Greta não faz parte da maioria. Leia-se o livro "A nossa casa está a arder", editado pelos pais dela e com textos dela e da sua irmã, Beata, e aí se percebe realmente as circunstâncias educativas e comportamentais em que se insere a sua formação.
Esta jovem está a dar lições de militância às massas indiferentes deste planeta. Onde alguns apenas vêm ódio, eu vejo amor pela Terra e pelas suas criaturas. Onde a acusam de ser manipulada, vejo a sua coragem de, sem quaisquer vantagens materiais, ir contra o sistema miserável que nos rege que só vê cifrões! Manipulação, sim, mas dos Trump, Bolsonaros, Johnson, dos emires do petróleo do mundo inteiro! Onde a acusam, vejo apenas o despeito e a cobardia de quem nada faz pela nossa Casa comum, nem nada quer fazer!

sexta-feira, 4 de outubro de 2019


TANCOS? THANKS VERY MUCH!
Carlos Rodarte Veloso
“ O Templário”, 3 de Outubro de 2019

A “nova” direcção do PSD por um homem que, assumindo-se de direita “suave”, parecia possuir inesperadas qualidades de diálogo e uma aparente sinceridade nas suas declarações, revelou-se, afinal, um autêntico bluff, um verdadeiro “biface”.
Utilizo aqui a terminologia arqueológica que se refere aos calhaus afeiçoados pelos nossos antepassados do Paleolítico utilizados como ferramentas e armas, mas que pode perfeitamente adaptar-se aos inúmeros seres de duas faces que pululam na política contemporânea…
O primeiro debate televisivo de Rui Rio com António Costa e os restantes partidos com assento parlamentar – com exclusão do cacetismo provocatório de Cristas, a “pérola” do CDS - prometia um diálogo civilizado, descontando-se como “normais” algumas trocas de galhardetes, aliás pouco originais, entre os circunstantes.
Eis se não quando, mal passados ainda os primeiros dias da campanha, e depois das beatas declarações de transparência e isenção de Rui Rio, aquele que nunca aproveitaria meios ignóbeis para atingir os seus objectivos políticos, ressurge miraculosamente, a duas semanas das Eleições, o “Caso de Tancos”, organizado em tempo “record” por um inesperadamente espevitado Ministério Público, decerto envergonhado pela demora interminável da Operação Marquês, que, entretanto, se mantém encalhada “ad aeternum”…
E não é que o virtuoso homem público que Rui Rio se afirma, sem quaisquer provas e antes de qualquer julgamento – ao contrário do que antes afirmara – salta como uma cobra a picar o adversário, enquanto a não menos virtuosa comunicação social de direita faz o coro com as suspeitíssimas redes sociais, autênticas teias, que aqui como noutros países conspiram para a destruição dos ideais igualitários, especialmente nos países em que ainda vigoram ideais de democracia?
“His master’s voice” – a voz do dono – fala mais alto. Graças a deus, há sempre histórias que aparecem oportunamente para emporcalhar os êxitos que beneficiam as classes desfavorecidas. Isso não é aceitável e lá está a pobre “classe média-alta” a beneficiar de novo da Assunção da Santa Aliança com um Rio afinal bastante cordato ou seja, sempre dentro das margens que lhe foram atribuídas, como agora demonstrou cabalmente…
É bom que o respeitável público se aperceba da gigantesca campanha de manipulação de que está a ser o alvo, nomeadamente quanto aos “perigos” de uma maioria absoluta para o PS, que me parece pouco provável.
A chamada Geringonça é o papão que assombra essa gente esquiva e traiçoeira que dispõe de todos os meios que o dinheiro faculta, e fala de corrupção como se esta lhe fosse estranha!


Não embarque na solução fácil de “dar o ouro ao bandido”!


sexta-feira, 27 de setembro de 2019


ELEIÇÕES E REDES SOCIAIS.
A COLHEITA DO ÓDIO
Carlos Rodarte Veloso
“O Templário”, 26 de Setembro de 2019

A vulgarização das redes sociais e a oportunidade a que estas dão azo de permitir a expressão, não apenas das justas opiniões de qualquer cidadão face a todo e qualquer assunto de cariz público, mas também de colocar as mesmas ao serviço do seu justo – ou injusto – ressentimento pessoal, inscreve-se sem dúvida no direito democrático à liberdade de expressão, embora essa mesma liberdade colida muitas vezes frontalmente com outros direitos, também democráticos, como o da inocência até prova em contrário, o da intimidade e outros, até então garantidos pelo direito à resposta que a imprensa escrita, radiodifundida ou televisiva garantiam.
Essa garantia era relativa, visto o anonimato encobrir muitas vezes a autoria da difamação, o que exigia dos órgãos de comunicação especiais cuidados na identificação e responsabilização dos seus autores, frequentemente movidos pelo desejo de vingança ou pela obtenção de vantagens materiais pela chantagem, a forma de pressão mais vulgar e sujeita ao peso da lei.
Tudo isso se mantém depois da universalização das redes sociais, embora seja actualmente notória a difícil ou impossível identificação dos seus agentes e, assim, a sua responsabilização nos inumeráveis casos de calúnia que entopem a internet, de origem individual ou colectiva, orquestrada crescentemente por poderes externos, políticos, económicos ou ideológicos, os lobbies, geralmente não identificados, muitas vezes aparentando origens totalmente diversas das reais.
Todo este fenómeno, associado ao acesso universal a redes sociais como o Facebook e o Twitter, as mais populares no nosso país, promove cada utente à categoria de OPINANTE em TODAS as matérias tratadas, exigindo dele apenas o conhecimento rudimentar da língua portuguesa…
E não se trata apenas das manifestações mais crassas de ignorância em relação aos temas abordados: cria-se verdadeiras redes de desinformação acerca de temas vitais, como acontece com o desaconselhamento da vacinação assim como o desconhecimento militante de outras grande conquistas e descobertas da Ciência, como o conhecimento da natureza e do universo, da evolução das espécies, da própria natureza humana, dos perigos cruciais que ameaçam a própria sobrevivência de todos os seres vivos – a Humanidade incluída – fomentadas por preconceitos e dogmas religiosos que retomaram fôlego entre as massas fanatizadas, não apenas dos países do chamado Terceiro Mundo, mas crescentemente, nos países ditos desenvolvidos.
Essa ignorância generalizada, associada à deterioração das condições de vida entre as camadas mais pobres da população mundial, sendo o esgotamento dos recursos alimentares a mais evidente, conduz ao triunfo aparente de opiniões em total contracorrente com o progresso científico, cujos gurus acabam por ter um inesperado ascendente até entre as pessoas aparentemente cultas.
O avanço das pseudociências entre essas camadas aparentemente cultas é a prova acabada da trágica separação entre uma população que tem acompanhado a evolução humana a nível mundial, e a restante, infelizmente em número crescente, que se mantém estagnada em conceitos retrógrados e cujos conhecimentos tecnológicos se limitam ao digitar de botões, ligados a máquinas concebidas pela Ciência, a mesma Ciência em que não crêem e que constantemente vilipendiam, como obra diabólica!
E são precisamente essas massas ignorantes – e orgulhosas da sua ignorância! – que assinam, por vezes com nomes fictícios, opiniões escandalosamente irracionais no caso presente das nossas Eleições Legislativas, dando largas ao seu ressentimento e ao ÓDIO que delas se apodera, uma vezes por motivos ideológicos, outras como catarse de todas as frustrações motivadas por um mundo imperfeito mas, apesar disso, dando mostras de alguma evolução.
As eleições são daqui a dias, mas não há dia em que não surjam notícias, controladas pela maioria dos media, apenas destinadas a desacreditar a solução governativa da Esquerda, como forma de recuperar Portugal para os interesses capitalistas. Notícias acompanhadas por revoadas de mensagens de ódio dos saudosistas do miserável “antigamente” de que nos libertámos há 45 anos.
Por obra e graça das redes sociais e da sua capacidade de fraude, essas mensagens são multiplicadas de forma artificial, dando ideia que correspondem a “maiorias” que nunca existiram. É uma luta desigual, entre a verdade e a mentira…
O triunfo de uma ou de outra depende inteiramente de cada um de nós.

terça-feira, 24 de setembro de 2019


GRETA THUNBERG,
UM EXEMPLO DE CORAGEM E COERÊNCIA
Carlos Rodarte Veloso
24-9-2019

Esta jovem está a dar lições de militância às massas indiferentes deste planeta. Onde alguns apenas vêm ódio, eu vejo amor pela Terra e pelas suas criaturas. Onde a acusam de ser manipulada, vejo a sua coragem de, sem quaisquer vantagens materiais, ir contra o sistema miserável que só vê cifrões! Manipulação, sim, mas dos Trump, Bolsonaros, Johnson, emires do petróleo do mundo inteiro! Onde a acusam, vejo apenas o despeito e a cobardia de quem nada faz pela nossa Casa comum, nem nada quer fazer!