quinta-feira, 8 de março de 2018


HOMENAGEM À MULHER NO DIA DA MULHER 
8-3-2018
Carlos Rodarte Veloso



A mulher ganhou liberdades, mas perdeu, felizmente, o direito à indiferença pelo estado do mundo. 
Falta agora que os homens - e muitas mulheres também - abandonem a sua indiferença em relação ao estado das mulheres!

LUTAREMOS NAS PRAIAS...
"DUNKIRK" e "DARKEST HOUR"

Carlos Rodarte Veloso


“O Templário”, 8 de Março de 2018

  


Dois filmes magníficos produzidos e realizados em 2017, abordam o tema da invasão da França pelas tropas nazis em 1940 e o cerco das tropas britânicas aí estacionadas, 220.000 homens encurraladas em Dunquerque e assim impossibilitadas de atravessar o Canal da Mancha e regressar à Inglaterra, deste modo desguarnecida do seu exército na hora mais crítica da sua história.
No momento do desespero total, Winston Churchil, recém nomeado Primeiro Ministro do Reino Unido, vê-se perante o dilema de escolher um de dois caminhos: a capitulação face à onda avassaladora das forças armadas alemãs, com a obtenção de um difícil acordo com Hitler decerto à custa de condições draconianas e a perda da soberania britânica ou, caminho aparentemente impossível, a resistência nacional a todo o custo. E foi este caminho “impossível” que Churchil escolheu, galvanizando o povo e o Parlamento, em tempo do desânimo generalizado.
"Nós não desistiremos nem fracassaremos. Nós iremos até o fim. Nós lutaremos em França, lutaremos nos mares e oceanos, nós lutaremos com confiança crescente e uma força também crescente à nossa volta. Nós defenderemos a nossa ilha, qualquer que seja o preço. Nós lutaremos nas praias, lutaremos em terra firme, lutaremos nos campos e nas ruas, lutaremos nas montanhas. Nós nunca nos renderemos!"
E apenas defendidas por um escasso número de aviões e navios de guerra, as tropas britânicas foram resgatadas, trazidas para a Inglaterra por um enorme frota de embarcações civis mobilizadas pelo Primeiro Ministro através da Operação “Dynamo”, missão aparentemente suicida dos proprietários e tripulantes civis de rebocadores, arrastões, traineiras, salva-vidas, barcaças e iates de recreio. Não estão contabilizadas as baixas civis desta operação, mas cerca de 190.000 militares foram resgatados, o que permitiu a guarnição dos quartéis e fortificações da Grã-Bretanha e, assim, a resistência da Ilha e o seu contributo vital para a salvação da Europa e do Mundo “à custa de sangue, suor e lágrimas”.
“Dunkirk”, co-produção britânica, norte-americana e francesa, realizada por Christopher Nolan, incide especificamente sobre a situação das tropas cercadas na praia de Dunquerque, França, a escassas milhas das tropas invasoras e na sua salvação in-extremis pela estranha frota civil que heroicamente afronta os esmagadores meios militares alemães. O filme, pela sua extraordinária realização e a força da epopeia que retrata, servido por uma banda sonora excepcional, parecia fadado para os mais altos voos, como o foi a diminuta esquadrilha de Spitfires e os seus pilotos, os mais eficazes agentes do combate à Luftewaffe, futuros heróis da Batalha de Inglaterra.
“A Hora mais Negra” (“Darkest Hour”), produção britânica realizada por Joe Wright, mais intimista, gira à volta da figura de Winston Churchil, da sua dificílima situação política e compreensíveis hesitações perante um Parlamento maioritariamente derrotista, um rei que, apesar da sua pouca simpatia pessoal pelo mesmo Primeiro Ministro acaba por apoiá-lo, e um povo que ele consegue electrizar e mobilizar para a Operação “Dynamo”, a mais perigosa e decerto heróica mobilização civil de todas as guerras.
Ambos candidatos aos Óscares, distribuídos no passado Domingo, tiveram diversa fortuna na crítica internacional, que previa vantagens para “Dunkirk”, já considerado um dos melhores filmes de guerra da história do cinema. Apesar disso as referidas previsões ficaram goradas pelo resultado, tendo “A Hora mais Negra”, beneficiada pela extraordinária interpretação de Gary Oldman na personagem de Winston Churchil, obtido o Óscar para o melhor actor, apesar de lhe ter sido menos favorável a crítica que, nalguns casos chega a acusá-lo de simpatias pelo Brexit!
Pessoalmente, considero ambos os filmes notabilíssimos e completamente disparatada a opinião politizada sobre o segundo, que me parece um brilhantíssimo exercício introspectivo de uma das personagens cimeiras da História do Século XX que, pela sua luta a favor da salvação dos valores europeus e não do seu afastamento em relaação a eles, será antes um bom exemplo de “anti-Brexit” muito antes da criação da União Europeia...
A prestação de Kristin Scott Thomas é também notável mas, estranhamente, não consta de qualquer nomeação, assim como a banda sonora e outros aspectos técnicos, nomeadamente o enquadramento fotográfico, sempre adequado e esteticamente irrepreensível em cada momento do filme.
Dois filmes obrigatórios para os mais exigentes cinéfilos.

sábado, 3 de março de 2018


ARTE E PERSPECTIVA
Carlos Rodarte Veloso

“O Templário”, 1 de Março de 2018

As artes visuais de há muito se notabilizaram pela imitação da natureza, o que conduziu à criação de estilos artísticos como o Realismo e o Naturalismo e, mais tarde, o Impressionismo e outras correntes estéticas que procuravam uma máxima aproximação à realidade através de múltiplos artifícios.
Não é uma novidade recente. Pelo contrário, as suas raízes estão mergulhadas na época do nascimento da arte, a Pré-História, cujos artistas pintavam e gravavam na rocha verdadeiros documentários das suas caçadas ou do que quer que seja relativo à fauna então existente.
Essa procura de realismo levou-os a utilizar autênticas trucagens que só seriam recuperadas já no século XX, na banda desenhada e no cinema de desenhos animados, por exemplo com a multiplicação das patas dos animais em corrida ou representações sobrepostas simulando, por exemplo, movimentos simples da cabeça.
No entanto essa busca de fidelidade ao testemunho visual atingiu o seu máximo com a tentativa de representar a paisagem em termos de profundidade, em que os objectos ou outros elementos mais distantes do observador eram representados numa escala cada vez mais reduzida, perdendo-se na distância. As próprias cores utilizadas procuravam dar a medida dessa distância, simulando as impressões observadas pelo artista.
Esta tentativa de representar num suporte bidimensional plano uma representação tridimensional, vai conduzir à invenção da perspectiva, observada ainda de uma forma rudimentar e empírica, em algumas pinturas mais tardias de vasos gregos áticos e, já com o possível recurso à geometria, nas famosas representações de jardins ou de edifícios nas paredes pintadas de “villae” romanas (fig.1 – fresco do jardim de Prima Porta, Roma).

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Esta novidade revolucionária proporcionava aos seus proprietários o recurso ao “trompe l’oeill”, já referido em texto anterior, que vai converter paredes e tectos em espaços ilimitados, abertos a uma realidade que hoje chamaríamos virtual.
Depois do interregno medieval em que, por decisão ideológica da igreja católica, se perde grande parte das conquistas greco-romanas no domínio do realismo pictórico, o estudo geométrico rigoroso, portanto científico desta aparente transformação da realidade foi levado ao seu apogeu no Renascimento italiano, através da arquitectura de famosos mestres como Brunelleschi e Alberti e de pintores como Donatello, Piero della Francesca e seus seguidores, cujas conquistas atingiriam o seu clímax no Barroco e Rococó, já nos séculos XVII e XVIII. Como base desta verdadeira técnica, encontra-se o estabelecimento de um “ponto de fuga” no qual convergiam todas as “linhas de fuga” (fig.2 – Brunelleschi, Interior da Igreja de S. Lourenço, Florença), (fig.3 – PIero della Francesca, “Flagelação de Cristo”) assim privilegiando o ponto fulcral da obra assim concebida.
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Curiosamente é precisamente a Igreja católica, a partir do Renascimento, que vai proporcionar o ímpeto decisivo a esta autêntica explosão da arte da ilusão, agora com finalidades assumidamente catequéticas e propagandísticas. Acrescentou-se, assim, o factor “maravilhoso” a toda esta encenação, agora servida pela globalização das diversas manifestações artísticas, em ordem à satisfação de todos os sentidos humanos – vista, ouvido, olfacto, gosto e tacto – que transformou igrejas e outros edifícios em autênticos palcos de teatro. Assim, as artes visuais e a música serviam os mais nobres dos sentidos, a vista e o ouvido, os vapores aromáticos do incenso e perfumes, o olfacto, enquanto o gosto e o tacto estavam associados aos manjares sagrados – o Corpo de Cristo, através da hóstia consagrada, e o seu sangue, no vinho da Eucaristia – e à própria textura dos materiais envolventes e, quem sabe, a aproximação, nem sempre virtuosa, nem sequer agradável, de apertadas massas humanas...
Muros de jardins e paredes e tectos de igrejas (fig.4 – Abóbada anelar da Charola do Convento de Cristo, Tomar – motivos manuelinos), palácios, bibliotecas , teatros, salas de ópera, museus e outros edifícios públicos são agora decorados na sua área total ou parcial com composições paisagísticas ou temas simbólicos e/ou miraculosos que rompem todas as dimensões e atingem uma mestria inigualável. Também o suporte dessas obras de arte abrange novos materiais, como o estuque, a talha e o azulejo, profusamente aplicados em Portugal no interior como no exterior de edifícios. É a Arte Total em todo o seu esplendor.

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segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018


INSTALAÇÃO "PRESOS POLÍTICOS" DE SANTIAGO SIERRA CENSURADA NA FEIRA DA ARTE ARCOMADRID 2018

Carlos Rodarte Veloso 
26 de Fevereiro de 2018


A parede da exposição antes e depois do acto de censura.

As 24 fotografias pixelizadas de PRESOS POLÍTICOS EM ESPANHA, onde se incluíam os líderes independentistas catalães presos, acusados de "rebelião e secessão", foram retiradas por decisão da galerista Helga de Alvear a pedido do presidente da IFEMA, González Soler que, muito estranhamente, não reconhece este acto como censura, embora depois o lamente e disso apresenta desculpas!
Desculpas esfarrapadas que já nada remedeiam, antes acendem os seus holofotes sobre a gravíssima tendência fascizante das autoridades espanholas que não apenas prosseguem velhos hábitos dignos da ditadura franquista, reprimindo qualquer tendência autonomista séria, mas também reprimindo cinicamente toda a liberdade de expressão sobre esse tema.
O tema "presos políticos" em Espanha é portanto tabu, mas também a mais pura das verdades, por muito que custe às virgens ofendidas que querem tapar o sol com uma peneira e manter uma aparência democrática.
Alinha assim o nosso "democrático" vizinho com as tendências autoritárias manifestadas pelos governos de de vários países europeus, mas indignas deste continente que queríamos, fosse um exemplo para o Mundo. Assim, passo a passo, se criam as sinistras condições que antecederam a II Guerra Mundial.
Ou já estará a travar-se a Terceira, como denuncia o papa Francisco?

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018


A "SUGESTÃO" DE TRUMP PARA ARMAR OS PROFESSORES 
Carlos Rodarte Veloso



Não há limites para a estupidez e a corrupção deste indivíduo: podemos imaginar os lucros que ele está a oferecer à associação norte-americana das armas de fogo ao obrigar todos os professores a comprar uma arma e, por certo, a contratarem lições de auto-defesa e... sei lá o que mais! E o perigo que representa a entrada neste mercado de cowboys de mais um largos milhares de armas. As salas de aulas podem facilmente tornar-se em saloons de western, e os mortos contarem-se por milhares... Por que não armar também os contínuos, os alunos e os seus encarregados de educação? No fim, matavam-se todos uns aos outros...
O que vale é que não acredito que ele consiga impor esta "lei" da selva. Se o conseguisse, e espero bem que não, dada a corajosa reacção dos professores que o enfrentaram nos media, seria bom que um cataclismo bíblico o afundasse e à Casa Branca e a quantos o apoiassem!

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018



AS CAPELAS DE OSSOS EM PORTUGAL E A ARTE DO MACABRO

Carlos Rodarte Veloso

“O Templário”, 22 de Fevereiro de 2018


                As “capelas de ossos”, espaços sacros revestidos de ossos humanos, organizados em camadas alternadas de caveiras, tíbias e fémures, em arranjos horizontais e verticais, leia-se, artísticos, representam uma das mais macabras mas também originais manifestações de piedade, correspondendo à preparação monacal para uma “boa morte”.
Essa preparação está especialmente associada a capelas de conventos, destinadas expressamente à  “contemplação dos ossos”, símbolo da transitoriedade das coisas terrenas, convite à oração pelas Almas do Purgatório e à reflexão sobre a hora mortis e a necessidade de desprezar as “coisas vãs” do mundo, as quais conduziriam inevitavelmente à perdição das almas.
                Pode não parecer á primeira vista muito convencional  promover a obra de arte as “capelas de ossos”. Mas a obra de arte consiste em “modificações intencionais que o espírito humano imprime em objectos da natureza”, como refere Raymond Bayer. Assim e ao contrário do que se passa com a paisagem natural propriamente dita, a disposição artificial dos mesmos elementos naturais formando, por exemplo, um dólmen ou um cromeleque neolíticos ou, no século XX, as composições da “land art”, já não suscita grandes dúvidas sobre a sua natureza artística. É isso exactamente que se passa em todos os monumentos cujo material de base são os últimos dos despojos humanos, os ossos. Dos mais simples “carneiros”  — os ossários medievais — às capelas de ossos  propriamente ditas, todo o cenário  assim organizado  tem um propósito implícito e uma organização que nada tem de natural.
                Falei em cenário, e essa referência remete-nos para o universo das atitudes humanas perante a morte e das mentalidades que as geraram: o teatro, o espectáculo, prenúncio do Barroco, já presente no riso sinistro da caveira do “carpe diem” romano, ou dos túmulos de diferentes épocas, na “dança macabra” medieval, ou nos repugnantes jacentes dos séculos XIV e XV, representando, em todo o seu horror, a decomposição do cadáver, símbolo acabado da impureza que a morte traz…
                E a oração pelas Almas do Purgatório logo recorda a problemática  da invenção do Purgatório, por volta do século XI, depois dos primeiros séculos do Cristianismo marcados a fogo pelo dualismo Paraíso-Inferno, tema caro ao historiador Jacques Le Goff e cuja importância foi tão expressivamente vincada por Pierre Chaunu. Logo me ocorre ainda a espontaneidade e o vigor do culto popular das “Alminhas”  e de todas as Confrarias que lhes prestaram culto no nosso País, sendo evidente a sua relação com as capelas de ossos.
                É num contexto pré-barroco que são construídas as primeiras capelas de ossos em Portugal, havendo também pelo menos um exemplo espanhol, a capela de ossos de Wamba, próximo de Valladolid, pelo menos duas em Itália e outras em diversos países da Europa Central, e também uma em Lima, no Peru. É provável a existência de muitas outras, espalhadas pelo mundo.
                Quanto ao levantamento destas capelas em Portugal, parecem bastante promissores os resultados obtidos. De momento, podemos referir, globalmente, as seguintes capelas portuguesas: a de Santa Cruz de Coimbra, quinhentista, e  as de Elvas, desaparecidas, a da Igreja de S. Francisco, no Porto, a de S. Francisco de Évora, a mais célebre, as de Campo Maior, Monforte, Lagos,Alcantarilha (Silves), Pechão (Olhão) e as duas de Faro. São, assim, doze ao todo, apenas duas delas situadas a norte do Tejo.

Fig. 1 – Entrada na Capela de Ossos da Igreja de S. Francisco, Évora

Fig. 2 – Capela de Ossos da Igreja de S. Francisco, Évora

Fig. 3 – Capela de Ossos de Campo Maior

Fig. 4 – Capela de Ossos da Igreja do Carmo, Faro   

Há que acentuar que a do Porto é menos uma “capela de ossos” do que um ossário, correspondente aos antigos “carneiros” medievais, visto consistir em aglomerados de crânios e ossadas partidas e dispostas anarquicamente nas criptas da igreja. Estes macabros despojos eram pertencentes aos irmãos da Ordem Terceira que assim pretendiam aguardar a ressurreição no dia do Juízo Final em terreno sagrado. Uma das criptas, repleta de ossos e protegida por uma vidraça, é o que se oferece à vista dos actuais visitantes.
Quanto às capelas de ossos propriamente ditas, as ainda existentes podem agrupar-se, tipologicamente, em duas grandes regiões: a do Alentejo e a do Algarve. As primeiras são menos elaboradas do ponto de vista decorativo, mais “pesadas” — leia-se barrocas — devido a um verdadeiro “horror ao vazio”, contando com o exemplo mais espectacular, o de Évora. As capelas algarvias apostam numa maior delicadeza decorativa, buscando reduzir as ossadas a ornatos mais ou menos “inocentes” — leia-se, “disfarçados” —, o que as identifica, formal e cronologicamente, com o rococó.
                O caso da capela de Coimbra, pretensamente constituída pelos ossos dos cristãos tombados no campo da mítica batalha de Ourique, é extremamente interessante, não só por a sua antiguidade situar a respectiva construção entre 1533 e 1541, mas pela ligação perfeitamente evidente que é estabelecida, desde o primeiro momento, entre a dita capela e um autêntico culto da figura de D. Afonso Henriques levada a cabo pelos frades Crúzios, que tudo tentaram junto de D. João III, e deste junto da Santa Sé, para obterem a canonização do nosso primeiro rei. Em vão.
Como se vê, não são poucas as reflexões suscitadas por estas pobres construções, ainda pouco conhecidas — a capela de ossos da Igreja de S. Sebastião de Lagos era até desconhecida de muitos dos seus vizinhos mais próximos! — e menos estudadas ainda.  Desprezadas pelos poderes públicos, é o culto popular das Almas do Purgatório, associado à curiosidade mórbida de muitos turistas, que as vai mantendo de pé. A capela de ossos de Évora é o monumento mais visitado de Évora, apenas a par, talvez, do Templo de Diana, de que não há, obviamente, registo das visitas, visto ser um monumento aberto, ao ar livre.
De facto é o gosto pelo  exótico misturado com o macabro, tão popular em todos os tempos, mas principalmente na nossa época, que acaba por levar a melhor. É uma estética do horrível que conduziu à muito rentável visualização do terror em todas as artes visuais, da pintura ao cinema.

   
                    
                    

sábado, 17 de fevereiro de 2018



GIORDANO BRUNO NO 

ANIVERSÁRIO DO SEU

MARTÍRIO

Carlos Rodarte Veloso


Correio Transmontano, 17 de Fevereiro de 2018



O monge dominicano Giordano Bruno (1548-1600) é um dos mais surpreendentes e corajosos filósofos do século XVI. Segundo Vítor Matos e Sá, ele e o espanhol Francisco Suárez seriam “os dois únicos grandes filósofos da época moderna anteriores a (Francis) Bacon e a Descartes”.
Numa época de predomínio do pensamento único em torno da interpretação do mundo, dominado pelos dogmas religiosos do Catolicismo e dos seus novos grandes rivais, o Luteranismo, o Calvinismo e o Anglicanismo, ele viveu sempre no fio da navalha.
Doutorado em Teologia, rapidamente manifestou ideias consideradas suspeitas pela hierarquia católica, acabando por ser julgado em Roma, onde acabou por abandonar o hábito, tinha então 31 anos. Em Génova ter-se-ia convertido ao Calvinismo, o que lhe valeu a excomunhão da Igreja romana, tendo sido a seu tempo também excomungado pelos calvinistas e, finalmente pelos luteranos. É inacreditável um tamanho desafio à capacidade de sobrevivência num mundo dominado pela intolerância e a subordinação às directrizes religiosas mais fundamentalistas.
Desde então, a vida de Giordano Bruno torna-se uma constante peregrinação por essa Europa, sempre perseguido, ao mesmo tempo que, com o apoio inconstante de diversos mecenas, publicou muitas das suas obras, muitas delas totalmente “heréticas” defendendo, antes de Galileu, as teorias de Copérnico sobre a rotação e a translação da Terra à volta do Sol, mas também a constituição atómica da matéria, já presente, desde a Antiguidade em Demócrito, Epicuro e Lucrécio. No entanto, a “cereja em cima do bolo” gulosamente aproveitada pela Igreja católica, foi a sua contestação entre muitas outras, do carácter sagrado das Sagradas Escrituras, dos sacerdotes e da própria divindade de Cristo, escândalo dos escândalos.
A sua fuga para Veneza, aparentemente uma cidade de livre-pensamento, acabou por ser a armadilha que o enviou para as mãos da Santa Sé, onde foi submetido a um longo e penoso julgamento durante oito anos.
A sua coragem e dignidade não lhe permitiram o fácil caminho da retractação. Não abjurou e foi assim condenado à morte na fogueira. Em 17 de Fevereiro de 1600, há 418 anos portanto, foi a queimar no Campo dei Fiore, no coração de Roma, uma das inteligências mais brilhantes do seu século. A estátua que lhe foi erigida nesse mesmo local, foi a indispensável homenagem e a reparação possível ao seu espírito rebelde e às geniais intuições que o acreditam entre os maiores construtores da Ciência, os gigantes sobre cujos ombros se elevaram outros tantos gigantes, até ao nosso tempo.

(Foto C.Veloso)

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018



DO CARPE DIEM À VANITAS

Carlos Rodarte Veloso

“O Templário”, 15 de Fevereiro de 2018



O estudo da imagem é fundamental na interpretação das artes plásticas, embora os mesmos temas possam ter interpretações diametralmente opostas consoante as épocas em que são produzidos e as ideologias então dominantes.Um dos casos mais interessantes pelo seu contraste, é o das representações de caveiras ou, mesmo, esqueletos, que são conhecidas desde a Antiguidade como avisos para as consequências das formas de comportamento humanas. Um mosaico de Antioquia com c. 2400 anos mostra um esqueleto reclinado legendado, tal como numa banda desenhada moderna, pela frase em Grego, “sê feliz, aproveita a vida”. Também na Antiga Roma, a representação de grupos de esqueletos a dançar, ou caveiras acompanhadas de objectos que simbolizam a efemeridade da vida, são convites ao “carpe diem”, isto é, ao gozo dos prazeres dos sentidos, isto é, da vida, antes que a morte tudo venha destruir. Há aqui um convite ao prazer, de forma alguma considerado pecaminoso na cultura romana pagã. Assim, o mais célebre dos vestígios dessa ideologia da sensualidade, claramente epicurista, está representada numa luxuosa taça de prata esculpida com um friso de esqueletos dançantes, destinada ao vinho (fig.1) e encontrada nas ruínas da villa romana de Boscoreale, próximo de Pompeia que, tal como a cidade do Vesúvio, foi destruída durante a erupção do ano 79 d.C.


Com o triunfo do Cristianismo e sua recusa sectária do prazer, a arte medieval passa a englobar mensagens cuja forma, sendo semelhante à da Antiguidade – de novo esqueletos dançantes ou caveiras, associadas a velas apagadas, relógios, livros, instrumentos musicais, objectos científicos e de luxo – remete para a recusa pura e simples do prazer, única forma considerada segura de evitar a danação eterna, o Inferno. Agora esta figuração macabra aponta para as coisas vãs da vida – a “vãdade”, ou seja, a vaidade a que chamam Vanitas – e tem o seu triunfo a partir 1347, quando a Peste Negra começa a assolar a Europa.As cenas que antes convidavam ao prazer, são agora denominadas “danças macabras”, arrastando num turbilhão infernal humildes e poderosos, reis e papas, guerreiros e monges, e todas as classes sociais e sexos (fig. 2). 




Essa associação entre a Morte e o Poder não poderia ser mais transparente do que no quadro de Holbein, “Os Embaixadores” (fig.3) que ostenta, em primeiro plano, uma anamorfose – imagem disfarçada e deformada  – da Vanitas, uma caveira que só pode ser evidenciada mediante o uso de um cilindro óptico funcionando como lente. Em segundo plano, os símbolos do Poder, da Ciência e das Artes – e os próprios embaixadores –  como se vê, armadilhas para perder as pobres almas dos pecadores, sejam eles poderosos senhores, estudiosos, teólogos, frades... sendo a Ciência, tal como a Beleza, uma das portas do Inferno.


Outros exemplos se poderão apontar, uns mais macabros que outros, mas nos séculos XVI e XVII, ensanguentados por contínuas guerras religiosas, é especialmente arrepiante “O Triunfo da Morte” de Bruegel o Velho. O quadro de Pieter Claesz, “Vanitas” (fig. 4), tema recorrente da contraditória condição humana, é um bom representante dessa tendência, que apresenta inúmeras variantes, que também podem ser integrados na classificação de “naturezas mortas”.




 As “capelas de ossos”, totalmente revestidas de ossos, de que há vários excelentes exemplos em Portugal, são matéria abundante da condenação da Vanitas, embora especialmente votadas aos espaços religiosos monacais onde constituiam matéria de reflexão para a aspiração ascética a uma “boa morte”.  Aliás, a presença de uma caveira, também símbolo da penitência, é atributo de diversos santos, como S. Jerónimo, S. Francisco de Assis, S. Francisco Xavier, Santa Maria Madalena, S. Bruno, e tantos outros.