sábado, 19 de setembro de 2015
A OBSESSÃO DE PASSOS COELHO
Obsessão
Publicado n’O Templário, 17-9-2015
A actual campanha eleitoral tem-se
caracterizado por comportamentos cuja correcção, quer do ponto de vista
político, quer moral, deixam muito a desejar.
Não é invulgar,
muito pelo contrário, a utilização da demagogia e das meias-verdades para
induzir o voto, prática generalizada nos actos eleitorais em todas as
latitudes, mas é visível que essa prática já atingiu níveis estratosféricos entre
nós, nestas Legislativas.
O caso
mais paradigmático é o de Passos Coelho, cuja capacidade de comunicação dos
grandes dossiers da nossa vida política se resume à repetição “ad nauseam” de uma
mantra que, como todas as mantras, decerto se destina a obter a sua paz
interior num mundo que parece confundi-lo cada vez mais.
De
facto, a oposição insiste teimosamente em alguns itens cujo esclarecimento é
fundamental para um voto esclarecido por parte dos eleitores: as questões da
segurança, social, das pensões, do Serviço Nacional de Saúde, dos impostos, da
dívida pública, do ensino público, das privatizações, da promiscuidade
Estado-Banca, da renegociação da dívida...
Pois
em resposta a todas estas questões vitais para a nossa sociedade e para o que resta da nossa
soberania, Passos Coelho invoca, sistematicamente, os malefícios do governo de
Sócrates e do Siriza, como argumentos decisivos e explicativos de todo um
programa de governo que se limita e esboçar na generalidade.
Para
ele toda a oposição vive nas nuvens e mais não pretende do que minar a
“estabilidade” que o País teria atingido por obra e graça da sua política e, do
alto da sua torre de marfim, repete obsessivamente a ladaínha que a falta de
argumentos lhe sugere. Como para Goebbels, "uma mentira repetida milhares
de vezes torna-se verdade”.
Carlos Rodarte Veloso
domingo, 13 de setembro de 2015
OS REFUGIADOS, A ESQUERDA E AS ELEIÇÕES LEGISLATIVAS
O problema dos refugiados é crucial, mas duvido que haja muitos deles interessados no nosso País, apesar das fantásticas "melhorias" que o actual governo promoveu.. Eles querem a Alemanha, o Reino Unido, a Holanda... Claro que muitos terão que se contentar com o refugo, ou seja, países cujo êxito económico e social seja tão evidente, como o nosso... Por isso, acho que o actual debate sobre os refugiados é uma cortina de fumo, pretexto apenas para atacar a Esquerda que, como os seus inimigos bem o sabem, é a única força interessada na justiça social, na defesa dos fracos - de qualquer nacionalidade, etnia ou religião - e, assim, destes desterrados das suas pátrias martirizadas. Este momento é o de juntar todas as forças para destituir este governo desumano e incompetente que tem destruído Portugal e substituí-lo por algo de que não nos envergonhemos. Com os nossos votos! Estamos divididos - é o "destino" da Esquerda... - mas temos que pôr de lado as nossas diferenças, nem sempre assim tão grandes e, sem deixar ninguém de fora, criar uma grande Coligação, capaz de dar a volta à situação. Se não temos estratégias comuns em relação a todos os dossiers, juntemo-nos, ao menos pontualmente em relação a tantos e tantos problemas que nos unem desde sempre. Vamos destituir esta cambada de oportunistas e mentirosos, em nome da mais simples decência!Para merecermos o País de Abril!
Carlos Rodarte Veloso
quinta-feira, 27 de agosto de 2015
CRIMES DO "ESTADO ISLÂMICO" - QUE FAZER?
Palmira e a Civilização
Publicado n’O Templário, 27-8-2015
E pronto! Palmira, a “Pérola do
Deserto”, a cidade-mártir da selvajaria do auto-denominado Estado Islâmico,
aquela que, em 21 de Maio era ocupada pelos seus sinistros sequazes, foi agora
duplamente amputada, selvaticamente amputada depois das vãs promessas dos perpetradores
de lhe pouparem ao menos os edifícios históricos, considerados Património da
Humanidade:
Amputada na pessoa do seu histórico
guardião, o octogenário Khaled al-Assad, assassinado e decapitado após um mês de
interrogatórios por se ter recusado a revelar o esconderijo de estátuas da
cidade, consideradas pelas seus carrascos como “ídolos heréticos”. Por ter
resistido à tortura a que sem dúvida o submeteram, o seu corpo amputado foi
pendurado num poste.
Amputada
também pela destruição à bomba dum dos mais emblemáticos edifícios do seu
passado clássico, o templo de Baal-Shamin, construído no ano 17 da era cristã com o
derrube das suas colunas e a destruição da sua parte central, a “cella”.
Retomando
o meu artigo de 4 de Junho, recordo as múltiplas destruições e pilhagens antes perpetradas
ao longo dos quatro anos de pesadelo que têm enlutado a Síria e todos os outros
países invadidos pelos selvagens jihadistas, e lançaram na rota da Europa centenas
de milhar de refugiados, fugindo à guerra e à miséria e dando origem ao maior
desastre humanitário deste século.
A ONU
já classificou os últimos eventos de Palmira como crime contra a humanidade. Na
verdade, todo o decorrer desta guerra dementada não revela nada mais do que a
permanente prática de crimes contra a humanidade, que transbordam do Médio
Oriente para todo o mundo, através de uma guerra sem quartel e de atentados
terroristas de todo o tipo.
Portugal,
parte do antigo Califado de Córdova, foi já mencionado por responsáveis
jihadistas, como um dos alvos de conquista futura.
Toda a
Europa, todo o mundo está na mira desse bando de assassinos que fogem à própria
classificação de seres humanos, enquanto a nossa alegre União Europeia se
entretém martirizando os seus membros mais fracos e limitando-se a emitir uma
tímida condenação contra as ameaças que se avolumam contra a nossa Civilização.
Não se
trata de pregar a cruzada com que o inacreditável George W. Bush abriu a
autêntica caixa de Pandora que deu o desejado pretexto a todos os fanáticos de
um Médio Oriente explorado à vez pelos Ocidentais e pelos seus particulares
ditadores.
Trata-se
do direito que todos os povos do mundo têm à legítima defesa perante uma
premeditada agressão que só terminará com a sua subjugação total e a destruição
de um modo de vida que, por muitos defeitos que tenha, não tem comparação com a
submissão à sharia, o retrocesso à pré-história.
Não
tenho a menor dúvida de que só a destruição desse pretenso Estado Islâmico
poderá salvar o mundo de um retrocesso sem retorno. A sua destruição pelas
armas. E isso só será possível através da unidade de todos os países
civilizados, pondo de lado os egoísmos nacionais e a ganância pura simples que tem sido a marca dos últimos
anos.
Carlos Rodarte Veloso
quinta-feira, 30 de julho de 2015
O que nós devemos à Grécia
Publicado n’O Templário de 30-7-2015
Tornou-se
uma espécie de exercício de exorcismo do executivo que nos “governa” bandear-se
com os nossos credores da Europa contra a Grécia, o membro “mal comportado” do
clube de prosperidade de que a União
Europeia se autoproclama.
Este
embandeirar com os fortes contra os fracos, já antes o afirmei, não passa de
uma comportamento indigno, no mínimo cobarde, verdadeiro acto de “bullying”
para obter as boas graças dos agressores.
No
entanto, essa cobardia em que o governo português emparceira com outros fracos
desta Europa cada vez menos solidária, apenas equivale à enorme ignorância de
todos eles em relação a tudo aquilo que devemos a esse velho país onde a própria
Europa nasceu, a Hélade.
Não se
trata “apenas” desse território montanhoso e penetrado pelo mar Mediterrâneo onde
marinheiros e poetas, guerreiros e pensadores inventaram uma parte da nossa
Língua, onde as formas artísticas que hoje veneramos tiveram a sua origem, onde
nasceram as estórias e a História que é hoje património comum, onde aprendemos
a pensar.
É nessa
geografia agreste e luminosa que florescem a vinha e a oliveira, amorosamente
transplantadas para a nossa finisterra, em que se perpetua a lembrança dos
mitos, as belas e terríveis aventuras da mente e das relações humanas que deram
origem à Tragédia, à Poesia e à Filosofia, mãe de todas as Ciências.
É aí, em
pequenas cidades, que floresce a Democracia, sucedendo esta à Oligarquia e à Tirania,
palavras todas elas tão gregas como o Caos e o Cosmos, Ágora e Acrópole,
Técnica e Magia, Heroísmo e Ironia, Lógica e Fantasia, Política e Olimpíadas...
E é
também com as acções que os Gregos, do Passado e do Presente, nos inspiraram e
inspiram; na Paz e na Guerra, pequeno povo que soube engrandecer-se face às
potências que o agrediram, século após século.
Os
Persas, tão poderosos, que não acreditavam que um povo que discutia na praça
pública os assuntos do Poder pudesse fazer-lhes frente; e, contudo, aí estão as
Termópilas, Maratona e Salamina.
E outros,
ao longo da História, dos Turcos à Alemanha nazi, obrigada a desistir de outras
frentes de guerra para acudir à derrota maciça da Itália fascista na sua
frustrada invasão da Grécia. Tão próxima de nós, Portugueses, que lhe devemos
agradecer o ter-nos poupado a uma invasão na 2ª Guerra Mundial, quando a
“neutralidade” de Salazar não era suficiente para conter a ganância de Hitler.
E o
perdão da dívida alemã, depois desse massacre inacreditável, da destruição de
tantos países e povos? É assim que a gorda Alemanha, que a gorda Europa da
prosperidade paga a esse povo que tanto nos deu?
É bom que
a memória desta nossa Europa não se esvaia no auto-contentamento dos imbecis
que apenas sabem olhar para o próprio umbigo. Que as dívidas, todas as dívidas,
sejam finalmente saldadas.
Carlos Rodarte Veloso
sábado, 27 de junho de 2015
Mitos urbanos
Publicado em “O Templário” de 25 de
Junho de 2015
É um verdadeiro lugar-comum dizer que os
políticos mentem. Creio que não há profissão no mundo mais exposta a esse tipo
de acusação, infelizmente com sobejas razões. Já é menos vulgar que esses
mesmos indivíduos sejam descarados ao ponto de contradizer anteriores
declarações registadas nos media, agora perante uma assembleia de outros
políticos – e do país em peso – que são testemunhas presenciais ou em diferido,
das ditas, agora desditas declarações...
E, no entanto, foi o que se passou com
o nosso primeiro-ministro durante uma muito recente sessão da Assembleia da
República.
Vem ele agora declarar que o seu
convite aos jovens desempregados para emigrar não passa de uma invenção, de um
“mito urbano”, dos muitos com que tem sido mimoseado pela pérfida Oposição.
Releio as diversas declarações, dele
e de colaboradores seus, e a ideia que me fica é de que Passos Coelho tenta,
literalmente, atirar areia para os olhos dos seus potenciais eleitores.
Se não,
vejamos: na sua entrevista de Dezembro de 2011 ao Correio da Manhã, ele aconselha a emigração aos professores
desempregados, como forma de evitar o desemprego. E cito: "Angola,
mas não só Angola, o Brasil também, tem uma grande necessidade ao nível do
ensino básico e do ensino secundário de mão de obra qualificada e de
professores. Sabemos que há muitos professores em Portugal que não têm nesta
altura ocupação e o próprio sistema privado não consegue ter oferta para todos.
Nos próximos anos haverá muita gente em Portugal que ou consegue nessa área
fazer formação e estar disponível para outras áreas ou querendo-se manter,
sobretudo como professores, podem olhar para todo o mercado de língua
portuguesa e encontrar aí uma alternativa"
Que não é
uma declaração desligada do contexto, provam-no declarações no mesmo sentido,
proferidas nos meses anteriores por Alexandre Mestre, secretário de Estado da
Juventude e Desporto e por Miguel Relvas, seu ministro adjunto dos Assuntos
Parlamentares, amigo e homem de confiança.
Alexandre
Mestre, numa deslocação ao Brasil, convidava os jovens portugueses
desempregados, a emigrar, e cito, da agência Lusa: “Se estamos no desemprego,
temos que sair da zona de conforto e ir para além das nossas fronteiras”.
Miguel Relvas reitera em 16 de Novembro tais declarações perante a Assembleia da República, como forma de
encontrar oportunidades, “fortalecer a formação” e “conhecer outras realidades
culturais”!
Para quem
duvide de que as declarações prestadas por Passos Coelho em Dezembro de 2011
estão perfeitamente integradas no pensamento e na política do governo que
dirige, ou seja, dentro do contexto, basta comparar as três declarações atrás
citadas. Há uma coerência perfeita entre estes três políticos, na ligeireza, na
arrogância e no próprio desconhecimento da cultura que deveria ser a sua: como
pode um governante vir convidar os seus concidadãos a “conhecer outras
realidades culturais”, quando ignora absolutamente a do próprio país?
E que não
é uma atitude desgarrada, recordo que o conceito de “zona de conforto” já antes
tinha sido utilizado pelo próprio primeiro-ministro que, chocantemente, acusa
os seus acusadores de “piegas”. É um princípio da contrapropaganda – aprendi-o
na tropa – que repetir insistentemente uma mentira, ou um qualquer disparate,
acaba por convencer os mais prevenidos – quanto mais os ingénuos... E se tais
dislates forem proferidos com uma voz bem colocada, tendo em particular atenção
uma imagem simpática e carinhosamente cultivada, não haverá criatura que resista!
Temos
então, agora, os “mitos urbanos”. Sempre actualizado o nosso
primeiro-ministro... Até dá gosto!
quinta-feira, 18 de junho de 2015
Sinais dos Céus
dilúvios, terramotos, cometas, Fátima e o que mais quiserem
Publicado n’ O Templário de 18 de Junho de 2015
As recentes
inundações na capital do antigo estado soviético da Geórgia deixaram atrás de
si um rasto de mortes e destruição, em que foi especialmente atingido o jardim
zoológico da cidade. Os animais selvagens, libertados das suas jaulas pelas
águas torrenciais, percorreram as ruas de Tbilisi, num espectáculo de verdadeiro
apocalipse.
O patriarca ortodoxo do país não
perdeu esta excelente oportunidade para
levantar a voz a “explicar” a tragédia como um castigo divino, por a
construção do dito Zoo ter sido paga com o produto da fundição dos sinos das
igrejas do país, por ordem do governo comunista de então.
Este tipo de argumentação não é novo
na história: É tão velho quanto a existência das religiões – o mesmo que é
dizer: da humanidade – e até pode ser considerado “aceitável” num estádio
pré-científico dos conhecimentos.
Terramotos, tempestades, erupções
vulcânicas, queda de meteoros, incêndios, inundações, também as próprias
guerras... Deus ou os deuses estavam de olho nesta humanidade pecadora e,
quando lhes dava para isso – os seus desígnios costumam ser imperscrutáveis –
lá vinha um sismo, um dilúvio, uma qualquer desgraça global ou, até, um simples
eclipse do Sol, anúncio de outras garantidas calamidades.
Nem precisamos de recorrer às
religiões pagãs, tão férteis em sinais divinos, sinais esses herdados pelo Cristianismo
nas suas diversas confissões. A Bíblia no seu Antigo Testamento está cheia
desse sinais da reprovação, do castigo de um Deus intransigente com as mais
pequenas faltas, permanentemente irado com as suas criaturas, ao ponto de
experimentar a fé e a lealdade dos homens, submetendo-os a provações
inacreditáveis... Como a exigência do sacrifício do próprio filho, como teria
acontecido com Abraão, ou a miséria e a desgraça inultrapassáveis lançadas
sobre um incondicional crente como Job...
Mas deixemos esses exemplos
arrepiantes e detenhamo-nos “apenas” no irracionalismo
que, desde a Idade Média, tem inundado
o discurso de muitos responsáveis religiosos, “santos” até, sem distinção de
crença ou de estatuto.
A nossa história está cheia de
exemplos dos vicios e das virtudes a que as épocas de crise deram azo. Como
após o terramoto de 1531, no tempo de D. João III, quando o grande Gil Vicente
teve a coragem de enfrentar os frades que acusavam os Judeus de serem os
culpados pelo sismo, enviando ao rei a famosa carta escrita nesse ano em
Santarém, autêntico libelo contra o fanatismo e a irracionalidade.
Ou do padre António Vieira
enfrentando o sinistro poder da Inquisição durante a Restauração, “crime” pelo
qual foi perseguido e proscrito. E, no entanto, este mestre da nossa Língua e
grande patriota também pecou pela interpretação dos sinais dos céus quando, em
1695, a visão de um cometa lhe inspirou uma meditação profética.
Ou quando, em 1917, muito a
propósito do contexto político nacional, são noticiadas as famosas aparições em
Fátima, em que a famosa “dança do sol”, nunca atestada por nenhum observatório
astronómico, nacional ou internacional, entra defintivamente no imaginário
português, conduzindo anualmente milhões de crentes à Cova da Iria...
Sempre e sempre as épocas de crise
deram azo ao aproveitamento de quaisquer fenómenos menos comuns como sendo
avisos celestiais, repetindo ad nausea
“argumentos” teológicos contra quaisquer novidades que ponham em causa o status quo. Argumentos servindo de arma de arremesso a favor de velhos
interesses instituídos ameaçados pelo progresso político e social.
E as desgraças colectivas que
coincidiram com esses “milagres”, essas manifestações da divina providência?
Dentro da “lógica” ultramontana dessa boa gente, não seria caso para nos perguntarmos sobre a interpretação do surto da
terrível gripe pneumónica que ceifou, só em Portugal, umas 120 000 vidas?
E, no entanto, ocorre a partir do ano de 1918, no ano a seguir às aparições,
quando governava Portugal o “rei-presidente” Sidónio Pais, o mais católico dos
portugueses. E vitima, entre os milhares já referidos, nem mais nem menos do
que Francisco e Jacinta Marto, os santos pastorinhos de Fátima!
Mensagem dos Céus? Seria tão
estúpido e desonesto associar tais factos, como vir agora o patriarca da
Geórgia invocar pecados do passado para “explicar” fenómenos naturais!
A Razão e o Humanismo nunca pactuarão
com as acrobacias dialécticas do Irracionalismo e essa é a garantia de que
acabarão por triunfar.
Carlos Rodarte Veloso
domingo, 7 de junho de 2015
Palmira, património mundial em perigo
Publicado em O Templário, 4-6-2015
Os avanços dos militantes do auto-intitulado
Estado Islâmico (E.I.) na Síria e no Iraque já demonstraram
cabalmente que não estamos “apenas” perante um sanguinário movimento terrorista,
assumidamente destinado a fazer retroceder o mundo a uma idade de trevas já apenas
recordada nas páginas da História.
A par da inacreditável selvajaria
com que lidam com as populações e o retrocesso civilizacional que representam,
nomeadamente para com os direitos da mulheres, das minorias e para com todos os
restantes direitos fundamentais, estes fanáticos santões soltam a sua fúria
contra os vestígios do passado brilhante de que somos herdeiros.
A exemplo dos seus antecessores e actuais aliados, os
taliban, que já tinham demonstrado esses bárbaros desígnios ao dinamitarem as
monumentais estátuas de Buda em Bamiyan, no Afeganistão, em 2001, os fanáticos
do E.I. começaram já a imitá-los.
Assim, destruíram já 30 séculos de
História ao fazerem explodir, com martelos ou com explosivos os vestígios
arqueológicos da cidade assíria de Nimrud, no Iraque, para apagar os que eles
chamam – imagine-se – “a idade da ignorância” isto é, os tempos anteriores a
Maomé! Não contentes com a barbaridade do acto, publicitaram-no na Internet.
Agora é a vez de Palmira, velha cidade
síria e antiga capital da Rota da Seda, ocupada pelos Romanos e governada
durante algum tempo pela rebelião da rainha Zenóbia, classificada pela UNESCO,
em 1980, como Património da Humanidade, mais uma preciosidade nas mãos destes
vândalos dos tempos modernos.
As reacções mundiais, de tal maneira
se fizeram ouvir, entre outras as da directora da UNESCO e da direcção da
Universidade de Al-Azhar, no Cairo, que o comandante local do E.I. já declarou
que não iria tocar nos monumentos históricos mas, cito: “Vamos pulverizar a
estátuas que os hereges costumavam idolatrar.”
Pretende assim o E.I. “tranquilizar”
a consciência do Mundo Livre: “apenas” as estátuas serão destruídas; poderemos
contentar-nos com as colunas, com o teatro, os templos, mesmo que antigamente
adorados pelos “hereges”!
Nós, que nos revemos no passado
prestigioso das civilizações que nos antecederam, que nos deram a razão de ser.
Nós que pegamos em discursos, em abaixo-assinados a todo o momento, mas só nos
arriscamos a sério quando se trata de defender poços de petróleo, bancos,
negócios escuros... Nós, que somos os “bons da fita”... Não devíamos fazer alguma coisa a favor, não
“apenas” daquela gente que sofre às mãos do fanatismo, mas também desse
Património que é nosso, que é da Humanidade?
Carlos Rodarte Veloso
sexta-feira, 1 de maio de 2015
O MEU 25 DE ABRIL
Uma semana prodigiosa
Publicado em O Templário, 20-4-2015
Poucos dos que ouviram na rádio, na véspera e
na madrugada de 25 de Abril de 1974,
as canções “E Depois do Adeus” e
“Grândola Vila Morena” poderiam sequer sonhar que era desta forma desencadeado
o Movimento das Forças Armadas que na manhã seguinte derrubaria 48 anos
de ditadura. Paulo de Carvalho e José Afonso entravam assim, a cantar, numa das
páginas mais brilhantes da nossa História.
Em Coimbra, na periferia da
Revolução, dizia uma mulher, no talho, às primeiras horas da manhã: – Houve qualquer coisa em Lisboa, mas não se
preocupem; não é nada connosco! – Era sempre assim, havia quase meio século. Nada
de importante poderia passar-se que tivesse alguma coisa a ver com o bom povo
português. Era sempre com “Eles”, essa entidade abstracta, que ainda hoje é
invocada a propósito de tudo.
Mas nesse dia, foi diferente.
Mesmo na distante Coimbra se ouvia o rolar dos carros de combate nas ruas dessa
Lisboa, agora acordada para a inesperada Descoberta da Liberdade. Dessa Lisboa
de outras Descobertas, em que o cheiro a marezia se misturava agora com o
perfume dos cravos rubros, plantados no mais inesperado dos cálices, o das
espingardas; e o bom povo, aconselhado a manter-se na improvável segurança das
suas casas, vitoriava em delírio a madrugada clara em que o medo foi banido das
ruas e das mentes.
Em Coimbra vivia-se, nos quartéis
, em primeira mão, os efeitos daquela derrocada que já se vinha anunciando
meses antes, mas se antecipava às maiores esperanças. O Estado Novo ruía sob o
peso da própria monstruosidade e nem os esbirros da PIDE/DGS, nem as forças
ainda leais ao Regime, conseguiram deter a maré nascida nas picadas africanas,
nas universidades e nos quartéis que
tinham sido, nas últimas décadas o seu
principal sustentáculo.
No Quartel General, mesmo em
frente da sede da PIDE de Coimbra, olhávamos, impotentes, para as janelas
fechadas das instalações, enquanto os torcionários, seguros da sua impunidade,
iniciavam a destruição dos arquivos incriminatórios
dos seus crimes; nessa Coimbra que acarinhara as revoltas estudantis, cujas
ruas tinham sido tingidas tantas vezes pelo sangue de manifestantes e de povo
anónimo, nós, militares e armados, éramos obrigados a esperar pacientemente as
directivas do Movimento e a não intervir excepto em caso de agressão eminente!
Em frente, agrupavam-se cada vez
mais populares, enquanto os nossos soldados eram aclamados e incitados a
intervir, a meter detrás das grades aqueles que tanto mal tinham feito.
Aqui só mais tarde surgiram os
cravos, mas a fruta madura dos jardins próximos era trazida pelos próprios
moradores aos nossos militares, enquanto a maré de gente engrossava a ponto de
se temer uma reacção violenta por parte dos agentes agora cercados por civis.
Sabíamos que a situação evoluía de
forma muito positiva em Lisboa e o noticiário da noite confirmou-o
superlativamente.
No gabinete do oficial de dia, onde
havia um aparelho de televisão, confraternizavam todos os militares da
guarnição, enquanto se organizava o pessoal armado para acudir a qualquer
situação inesperada, nomeadamente por parte dos oficiais do Estado Maior, até
aí invisíveis.
E aconteceu o inesperado: o chefe
do Estado Maior e outros oficiais superiores apareceram de súbito e vieram apertar-se,
humildemente, em frente do televisor, partilhando assim com subalternos e
praças o exíguo espaço em que se desenrolava a reportagem mais desejada e mais
inesperada de quantas tive ocasião de ver: um Golpe de Estado convertido em
Revolução, a maré viva de um Povo que se reeencontrava consigo próprio; o cerco
do Quartel do Carmo, a mistura impossível de populares com armas pesadas e o
milagre de nem um tiro manchar de sangue aquele cenário. E a prisão dos
ex-governantes, a cereja em cima do bolo.
Sabemos hoje que forças externas,
de conluio com algumas figuras aparentemente insuspeitas que apoiavam o
Movimento, conspiravam para imprimir
diferentes desenvolvimentos aos acontecimentos. Nem a libertação dos presos
políticos, nem a dissolução da PIDE/DGS ou das inúmeros instituições
corporativas do regime, nem o direito à greve, nem o fim da guerra colonial...
Seria a manutenção de uma espécie de democracia, apenas um pouco melhor que a
“democracia orgânica” de Salazar!
E contudo, contra ventos e marés,
com ou sem esquadra norte-americana no Tejo, com ou sem o beneplácito dos
grandes do Mundo, com ou sem a benção papal ou do generalíssimo Franco, a
Revolução conquistou o coração dos Portugueses e eles viveram um momento épico
da sua História.
Os dias seguintes foram o
concretizar do sonho de um País livre. No 1º de Maio, quando mais de um milhão
de manifestantes desfilava em Lisboa, na pequena Coimbra cerca de quarenta mil
pessoas davam largas a uma alegria que fez dessa semana um dos períodos mais
prodigiosos do nosso século XX.
Bem podem dizer, os eternos
inimigos do 25 de Abril, que as expectativas ficaram aquém do desejado. Mas,
para o bem e para o mal, as escolhas têm sido do povo português. E a isso
chama-se Democracia.
Carlos Rodarte Veloso
crodarteveloso@gmail.com
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