sexta-feira, 25 de novembro de 2016


O Dilúvio de 1967

Publicado n’O Templário de 24 de Novembro de 2016

Faz no próximo Sábado 49 anos sobre as terríveis cheias que atingiram a região de Lisboa, especialmente entre Sintra e Vila Franca de Xira.
A chuva iniciada às 17 horas de 25 de Novembro, foi aumentando de intensidade até à noite, , criando durante a madrugada uma torrente irresistível que tudo alagava, destruindo muros, pontes, partes de prédios ou prédios inteiros, fábricas, edifícios públicos, provocando derrocadas de terras nas encostas, submergindo caves e andares mais baixos, arrastando automóveis, pessoas e animais e acabando por matar, segundo números oficiais da época – época de censura prévia, não esqueçamos – umas 500 pessoas.
Entre outras povoações arrasadas, uma aldeia inteira atingida por uma tromba de água, ficou submersa na lama. Desaparecida do mapa, Quintas, no Ribatejo, contou com apenas 50 sobrevivente dos seus 200 habitantes.
Tendo sido a maior catástrofe natural que atingiu o nosso país desde o Terramoto de 1755, a imprensa pôde desenvolvê-la mais do que o habitual, até por não haver nessas notícias qualquer perigo contra a segurança do Estado. Causas naturais dificilmente poderiam ser atribuídas ao “Reviralho” ou aos “Comunistas”, designações habituais para todos quantos discordassem minimamente do regime salazarista...
Claro que também havia causas humanas para tamanha catástrofe: a anarquia da construção civil, que ocupava as linhas de água com edifícios de discutível qualidade que funcionaram como barragem às enxurradas, assim aumentando a subida do nível das águas para valores inacreditáveis. Também a existência dos famosos bairros de lata, cuja superpopulação era especialmente vulnerável a tal tipo de desastres e, especialmente, a pobreza e consequente péssima qualidade da habitação popular na zona atingida.
Face à grandeza do desastre e à situação calamitosa das populações atingidas e sendo manifestamente insuficientes o meios disponíveis – bombeiros, hospitais, as próprias forças armadas e militarizadas – nos dias subsequentes mobilizaram-se instituições civis, algumas das quais não estariam propriamente nas boas graças do governo. Nesse âmbito, as associações académicas das universidades e liceus de Lisboa, mobilizaram grande número de estudantes para levar auxílio às zonas mais atingidas.
Eu próprio participei nessas jornadas de solidariedade, integrado que estava no curso de Medicina e membro activo da Pró-Associação dos Estudantes de Medicina – pró-associação, porque o Ministério da Educação não a reconhecia oficialmente... – associação esta que sentia especialmente a responsabilidade dos futuros médicos em relação a causas humanitárias.
No entanto, colegas de todas as outras faculdades integraram esse movimento cívico, que levou desde logo as autoridades a acusarem-nos de estarem a aproveitar politicamente a desgraça alheia...
Seja como for, multidões de estudantes, por todos os meios disponíveis, dirigiram-se aos campos inundados e às casas sinistradas de toda a vasta área atingida, sob o olhar atento e não demasiado amigável das forças militarizadas, para limpar as lamas acumuladas nas casas e para prestar primeiros socorros e vacinar contra a cólera as populações, em grave risco de  saúde.
Curiosamente, os encontros dos estudantes com unidades das Forças Armadas também mobilizadas, pautaram-se por mútua simpatia. Havia entre eles uma noção de missão cívica que as manobras dos políticos situacionistas não impediram.
Para além do serviço prestado às populações em perigo, os estudantes, maioritariamente oriundos das classes média e alta, tiveram o seu primeiro encontro com uma realidade que o regime escondia, o país real da miséria, da privação, do desprezo pelos pobres e necessitados, da falta de recursos higiénicos e sanitários...
Prestei esse serviço cívico voluntário em Santana da Carnota, Ribatejo, e abriram-se-me mais os olhos para uma realidade que só conhecia na teoria. Agora já não era nos panfletos clandestinos que denunciavam o estado do país de Salazar que podia basear-me, mas na vida em directo. Eu e centenas de outros estudantes...
Dois anos depois, estava a estudar em Coimbra onde vivi intensamente a Crise Académica de 1969, sendo depois punido com a antecipação do recrutamento para o Serviço Militar. Esta “punição” funcionou como tudo aquilo que o regime inventou para dissuadir a “subversão”: as Forças Armadas politizaram-se e vimos os oficiais do quadro a confraternizar com os subversivos de poucos anos antes, no Continente e nas Colónias.

Em parte, considero que o 25 de Abril de 1974 teve algumas das suas raízes nesse terrível Novembro de 1967, quando centenas de estudantes, calçando galochas, entraram impetuosamente na dimensão proibida da miséria em Portugal.




Fotos de Carlos Rodarte Veloso

quinta-feira, 17 de novembro de 2016


Um branco bronco na Casa Branca

Publicado n’O Templário de 17 de Novembro de 2016

E aconteceu o impensável: o patético racista, xenófobo, machista, anti-intelectual e fanático religioso, o amante das armas e dos combustíveis fósseis, o arqui-inimigo dos Ecologistas e consequentemente, do Ambiente, o bronco que no início da campanha eleitoral estado-unidense só dava para rir a bandeiras despregadas, é o novo inquilino da Casa Branca!
Há muitas lições a tirar desta desgraça mundial, pois disso se trata:
A desunião dos defensores dos valores democráticos, que preferiram digladiar-se a unir-se a partir do momento em que Hillary Clinton, limpamente ou não, ultrapassou Bernie Sanders nas Primárias. E isto apesar dos apelos de Sanders a essa mesma união!
A ingénua crença dos democratas adversos a Hillary de que, mesmo ficando no descanso dos seus lares no dia da eleições, o próprio comportamento – ou falta dele... – de Trump o levaria à sua automática derrota. As sondagens, essa grande distorção da Democracia, ajudaram a essa crença fictícia.
A repetição “ad nausea” de todos os lugares comuns utilizados durante décadas pelos políticos dos States, que Hillary, sem brilho nem muita convicção debitou durante toda a campanha. A própria pneumonia – ou seja o que for – de que sofreu durante a campanha, o que permitiu a Trump atribuir-lhe uma suspeita de incapacidade. Os “faits divers” que abrangem o empolado assunto dos emails “contra a segurança”, além dos telhados de vidros que a Esquerda sempre viu nas negociatas, reais ou imaginárias da candidata.
Mas o que mais fortemente uniu a Direita daquele país e a levou a cerrar fileiras, foi a política de seguros de saúde (o “Obamacare”) arrancada a ferros por Obama, e a sua luta contra o ultrapoderoso lobbie das armas, o quase credo dos norte-americanos, nostálgicos ainda de um Far West de parque temático, em que os índios morriam sempre enquanto os brancos implantavam a bandeira das “stars and stripes” em territórios selvagens. Sempre de revólver em punho.
Embora em menor grau, tem sido apontado o fanatismo do “politicamente correcto” que tudo invadiu nos últimos anos, que acaba, pelo exagero e, muitas vezes, pelo ridículo, por contribuir para os seus anticorpos: o desejo do regresso aos “bons velhos tempos” em que era incentivada toda a “liberdade” de linguagem, especialmente dedicada às minorias, às mulheres, às “outras” religiões, aos socialmente desfavorecidos, aos fracos deste mundo, isto é, exactamente o linguajar que este “empresário de sucesso” utiliza a torto e a direito. Essa sua condição é mais um ponto a seu favor no país que se considera, ele próprio, uma grande empresa.
Aliás, este carácter de “vencedor” de Trump, associado à sua basófia por ter enganado propositadamente o fisco do seu país, valeu-lhe um ainda maior apoio em todos os grupos de cidadãos  ressentidos. Olha um político europeu a gabar-se de vigarice!... Mais valia abandonar de vez todos os cargos públicos! Mas nos EUA, é mais uma condição “sine qua non” do valor da chico-espertice...
Agora aqui estamos nós, Europeus, a lamber as feridas desta derrota da Democracia, causada pela arrogância e a imprudência de um povo que não é o nosso, muitas vezes aliado mas, na maioria das vezes, o “padrinho” que tudo quer controlar e que habilmente manipula, explora, despreza... Não apenas a Europa – nem por sombras o elo mais fraco na cadeia mundial – mas todo o Mundo, com a excepção dos seus poderosos concorrente – Rússia, China, Índia – e dos mais fracos, não-alinhados, de que Cuba constitui um bom exemplo.
Qual será a resposta desta Europa dividida, no seu momento mais fraco, em que apenas a Alemanha – apesar da sua tradicional submissão aos Aliados transatlânticos – e da França, exprimiram opiniões à margem dessa diplomacia servil? Infelizmente não imagino sequer a possibilidade de uma União Europeia coesa perante os novos “valores” a instituir pela Casa Branca. Na verdade já diversos países europeus se passaram para o “lado negro da força”, ao fecharem as suas portas aos refugiados instituindo ghettos, levantando muros, erigindo políticas anti-sociais... E isto chama-se Fascismo!
Em 9 de Novembro de 2016, 27 anos depois da demolição do Muro de Berlim, Dia da Liberdade, e 78 anos depois da Noite de Cristal dos nazis, é muito sintomática a eleição deste bronco como presidente do país mais poderoso do mundo. Será a História a fazer uma trágica inversão de marcha ou, antes, mais um motivo para que os Povos de todo o Mundo comecem a enfrentar os tiranos que nos crescem debaixo dos pés como cogumelos?

quinta-feira, 3 de novembro de 2016


Do desconcerto do mundo

Publicado n’O Templário de 3 de Novembro de 2016

Já não há dia em que não seja anunciada a próxima extinção de uma espécie, animal ou vegetal, em qualquer dos continentes ou nos oceanos deste nosso tão belo planeta.
As únicas coisas que parecem predestinadas à eternidade são o petróleo e a ganância humana, ambas perfeitammente dispensáveis, a primeira por haver manifestamente meios técnicos e científicos para a sua substituição por combustíveis compatíveis com o ambiente e, assim, com a nossa própria espécie, esta em crescimento contínuo, com todas as bençãos das diversas religiões, baseadas em textos bolorentos escritos quando a Terra estava ainda fresca e os animais falavam.
Quanto à ganância, é mãe de diversos outros males, o maior dos quais é o capitalismo que tudo esmaga no seu curso: vidas e dignidade, o ambiente, a liberdade, a beleza do mundo.
Assim como os frios cada vez mais glaciais no Inverno anunciam o aquecimento global, argumento demagogicamente aproveitado por todos os contentinhos do mundo que assim atacam os ecologistas ao mesmo tempo que inviabilizam as medidas que urgem para salvar o ambiente, também o crescimento descontrolado das populações do Terceiro Mundo vive paredes meias com a diminuição da população do “Primeiro Mundo”, dando argumentos à tristemente célebre divisa do “crescei e multiplicai-vos...
É este o ponto da situação em que nos encontramos, enquanto massas populacionais em fuga desesperada batem à porta dos engravatados povos da Europa e da América do Norte.
O que poderia ser uma oportunidade para os continentes em crise demográfica, ao mesmo tempo salvando as vidas de tantos dos nossos semelhantes confrontados com conflitos sangrentos atiçados pelos actuais centros de decisão mundiais, já não apoiados pelos governos nacionais, mas por uma massa obscura de interesses e lealdades ao bendito cifrão, é malbaratada em favor de egoismos locais e da recusa de apoio a este Próximo, agora denunciado como grave perigo para a “Civilização” precisamente por estar tão próximo das comodidades desfrutadas, apesar de tudo, por apenas uma pequena parcela deste cintilante “primeiro mundo”.
No fundo, trata-se do “desconcerto do mundo” que o nosso Camões tão bem caracterizou na sua famosa esparsa ao desconcerto do mundo, há quatro séculos e meio:

Os bons vi sempre passar
no mundo graves tormentos;
e, para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.

sábado, 1 de outubro de 2016


O ego de Sócrates

Publicado n’O Templário de 29 de Setembro de 2016

O nosso ex-primeiro ministro Sócrates tornou-se uma das figuras mais controversas da cena política portuguesa, em boa parte devido à sua dificuldade em controlar as emoções, por legítimas que possam ser.
É claro as acusações que lhe são feitas são de uma enorme gravidade mas, sem a conclusão do respectivo julgamento, quaisquer considerações sobre as mesmas são totalmente ilegítimas. Do mesmo modo, parece-me que as declarações públicas do juiz Carlos Alexandre deveriam ter sido mais contidas, por muito que este senhor sofra de uma excessiva pressão mediática.
A intervenção de Sócrates na Universidade de Verão do PS, parece configurar uma tentativa patética de reabilitação política levada a cabo por militantes “socráticos”, em antagonismo claro com quantos apoiam António Costa.
Que a intervenção de Sócrates trazia “água no bico” está bem patente no ataque que faz ao governo devido à proposta de lei sobre o sigilo bancário, sem se aperceber sequer de que parece estar a ser, neste caso, juiz em causa própria, quando a anunciada conferência seria sobre Política Externa e Globalização, tema bem distante do que veio a tratar.
Há aqui uma estranha defesa do sigilo, quando este apenas visa os particulares detentores de mais de 50 mil euros nas suas contas bancárias, decerto muito abaixo da média portuguesa.
Sendo assim, como encaixa aqui Sócrates o bizarro raciocínio sobre o Estado a tornar-se uma espécie de papão orweliano que tudo quer controlar, quando mais não faz do que ir ao encontro da legislação em uso em muitos dos nossos parceiros da União Europeia?
Mas adiante: Se não podemos falar de aspectos relacionados com a odisseia judicial de Sócrates, já parece muito justo que se ponha em causa o homem político que ele é e as consequências das suas políticas que, não sendo muito diferentes das dos seus antecessores, parecem coincidir com o afundamento económico do país, afundamento esse muito agravado com a “austeridade” do governo de Passos Coelho.
É exactamente o que faz a deputada Ana Gomes, quando considera prejudicial para o Partido Socialista a prematura rentrée política de Sócrates na vida partidária, não esperando ao menos “que a justiça faça o seu curso”, e quando acusa a Federação de Lisboa do PS de assim ser “conivente com as efabulações de Sócrates”.
Estas declarações, mereceram ao visado a classificação de “repugnantes”, o que mais ainda acentua o carácter pessoalíssimo com que encara a vida política e provam o quanto se encontra ressabiado com a falta de apoio que sentiu de António Costa durante a sua prisão.
Parece que Sócrates se prepara para causar o maior embaraço possível ao partido em que, pelos vistos, quem não está com ele, é contra ele. Trata-se de uma conclusão bastante salazarenta num homem que se declara, a todo o momento, como de Esquerda...
Carlos Rodarte Veloso


sexta-feira, 23 de setembro de 2016


E se Trump vence?

Publicado n’O Templário de 22 de Setembro de 2016

Uma pneumonia de Hillary Clinton foi suficente para a fazer perder a sua posição maioritária nas sondagens para as eleições estado-unidenses! Nós, que vivemos num país onde uma doença infecciosa hoje perfeitamente curável, como uma pneumonia, em nada diminui as possibilidades de acesso de um candidato a um cargo político, profissional, ou outro, temos o dever de estranhar, neste povo paradoxal de que somos os mais próximos vizinhos intercontinentais, a volatilidade das suas opiniões, maioritariamente para um cargo da responsabilidade do de Presidente.
Já seria suficientemente estranho a proximidade entre o número de intenções de voto na candidata democrata e no republicano, dadas as características inacreditáveis deste último. De facto, no pacote de anormalidades em que Donald Trump se vem notabilizando,  o menos importante é decerto o seu aspecto físico, desde a postura matarruana à inacreditável cabeleira amarela.
O que notabiliza Trump, como é por demais sabido, é a sua estupidez e o seu reaccionarismo agudo, esse decerto incurável, cuja prossecussão no mais alto cargo político dos EUA – poderia dizer, mundial – só pode fazer pensar em xenofobia com altos muros levantados na fronteira, perseguições raciais e religiosas, hostilidade para com o exterior e, paradoxalmente, uma aproximação à Rússia de Putin (!), ainda maior liberalidade quanto ao comércio de armas de fogo e ao domínio do capitalismo mais agressivo, anti-intelectualismo, anti-ciência...
Este homem, em suma, é um poço de problemas, mas não só ao nível interno. Poderíamos dizer dos estado-unidenses: se o querem, eles que se amanhem! Só que o problema é de âmbito mundial e o delicado equilíbrio de forças num Médio-Oriente a ferro e fogo, não apenas no capítulo do terrorismo, mas também no perigoso jogo levado a cabo entre a Turquia – agora só faltava a Turquia! – e as forças em presença na Síria, lembra perigosamente os pesadelos de uma Guerra que foi chamada “Fria”.
Por outro lado, este Velho Continente que pensávamos ser o exemplo mundial e moral a seguir, multiplica agora os muros transfronteiriços, anos apenas depois de celebrar estrondosamente a queda do muro de Berlim, assim voltando as costas às vítimas de séculos de política imperialista ocidental que deixou na miséria povos inteiros, que agora lhe batem à porta em grave perigo de sobrevivência.
Um Trump no poder nos EUA seria a cereja em cima do bolo nesta crise de que não se vê fim à vista. Aliás, os sintomas internacionais, geo-estratégicos, o que quiserem, cada vez mais se assemelham aos de vésperas da Segunda Guerra Mundial, embora com o “tempero” do terrorismo e de novidades tecnológicas que tornam a situação ainda mais perigosa, de que faz também parte a política agressiva e cada vez mais armada, de uma Coreia de Norte cujo actual líder em muito se assemelha ao candidato republicano.

Assim, as eleições nos EUA são tudo menos inócuas para o resto do mundo. Delas dependem a manutenção daquele país como um relativo factor de estabilidade ao nível mundial ou, pelo contrário, o seu mergulho de cabeça na vertigem de uma guerra que, pelos piores motivos, poderá ser a última travada pela espécie humana. 

sábado, 6 de agosto de 2016

JOGOS OLÍMPICOS NA "CIDADE MARAVILHOSA" OU "CIRCENCES SEM PANEM"


Jogos Olímpicos na “Cidade Maravilhosa”

Publicado n’O Templário de 4 de Agosto de 2016


Num Brasil ainda debilitado por um golpe de Estado que substituiu gente alegadamente corrupta por gente garantidamente corrupta, num Brasil em que a esperança de milhões de pobres é superada pelos interesses de uns milhares de ricos e da sua clientela política, num Brasil dificilmente enquadrável num quadro democrático, recorre-se ao mais velho truque da História, “panem et circenses”, neste caso provavelmente sem “panem”, para mascarar as dificuldades internas de um regime colado com cuspo.
A escolha de uma das cidades mais violentas do mundo para palco dos Jogos Olímpicos de 2016 se já era uma escolha difícil no quadro constitucional do governo da presidente Dilma Rousseff, torna-se totalmente irresponsável sob a batuta da bizarra coligação de interesses dos golpistas do impeachment.
Os resultados estão á vista, para já num aspecto principalmente representativo, quando as próprias instalações da Aldeia Olímpica sofrem as mais duras críticas por parte dos seus destinatários, as delegações dos diversos países participantes: desde problemas infraestruturais associados à própria higiene e comodidade das instalações, instalações essas propagandeadas até à exaustão pela sua modernidade e funcionalidade, e que residem essencialmente na mais absurda falta de planeamento, o que leva a que legiões de trabalhadores tenham, à última da hora, de reparar falhas só agora reconhecidas.
Claro que a comodidade das instalações é já bastante preocupante, do ponto de vista do nosso tempo, embora o antiquíssimo ideal olímpico grego não exigisse especiais condições de funcionamento das instalações de acolhimento, numa época em que os atletas andavam praticamente nus num país bastante menos ameno que o Brasil tropical. Talvez as autoridades olímpicas brasileiras queiram recuperar as condições espartanas dos primeiros tempos dos Jogos...
Mas o problema dos milhões de forasteiros que vão afluir a um Rio com as instalações sanitárias e hospitalares em ruptura acentuada, para mais perante a ameaça de um número significativo de doenças epidémicas, a um Rio cuja lindíssima baía de Guanabara é um dos sítios mais conspurcados do Planeta, a um Rio infestado pelo banditismo que actua em pleno dia com a mais total impunidade, a um Rio em que entre bandidos e polícia, venha o diabo e escolha, ao Rio das favelas, do tráfico de droga mais intenso, como vão esses estrangeiros reagir a tantas carências grosseiras?
Apenas a boa-vontade não será decerto suficiente, e a propaganda tem pouco em que se apoiar para tornar mais suportáveis as condições de vida dos visitantes. Dos visitantes das classes médias, claro, porque os ricos e os riquíssimos, do alto dos seus hotéis de luxo dificilmente se aperceberão das condições de vida do país que se espraia a seus pés, longos carreiros de formigas, apenas.

E para quê? Pobres há-os em todos os países, são eles que ajudam o famoso camelo a entrar as portas do Céu... ou os ricos a passar pelo buraco de uma agulha... Uma coisa dessas!

quinta-feira, 7 de julho de 2016


A última oportunidade da Europa
Publicado n’O Templário de 7 de Julho de 2016

Os últimos acontecimentos na Europa apontam para uma crise profunda, cujas “receitas” ditadas por Bruxelas e, acima de tudo, pelo poderoso padrinho germânico, se mantém iguais a si mesmas, apesar da sua evidente falência em termos de eficácia e também de popularidade.
A saída do – ainda – Reino Unido, ao evidente arrepio das vantagens mútuas da sua permanência na União Europeia, ameaça destapar a caixa de Pandora ansiosamente esperada pelos inimigos da Democracia, perfilados como abutres na expectativa da suculenta carniça do cadáver adiado duma Europa ao serviço dos mercados financeiros e completamente alheada da necessidades dos seus próprios cidadãos.
O Brexit tem os seus seguidores, os partidos e movimentos ultranacionalistas e pró-fascistas da França, Áustria, Hungria, Holanda, Finlândia, Itália e de tantos outros países.
No entanto, é no próprio Reino Unido que surge a contracorrente desses desígnios, consubstanciada num possível referendo na Escócia, destinado a manter a adesão à União Europeia, separadamente do resto do território da Grã-Bretanha.
O efeito de dominó, tantas vezes invocado antes do referendo britânico, dependerá em grande parte do êxito do Brexit em termos económicos e financeiros, o que abriria o caminho à fragmentação da União Europeia, movimento movido não apenas pelos efeitos económicos referidos, mas pela oportunidade não declarada do encerramento de fronteiras e a expulsão maciça de emigrantes. O recrudescimento em flecha das atitudes xenófobas na Grã-Bretanha pós-referendo não deixam margens para dúvidas sobre essa tendência.
Entretanto e apesar das ameaças que pesam sobre essa União Europeia tão sacrificada, os seus líderes mais significativos ameaçam Portugal e a Espanha com sanções que dificilmente viabilizarão um futuro equilibrado para estes países!
Será este um convite implícito a referendos em que os países ameaçados resolvam sair também, com os efeitos devastadores tantas vezes anunciados?
Quererá a Alemanha, perante uma Europa de joelhos, criar uma “nova” União Europeia formada apenas pelos países mais “estáveis”, leia-se, submissos, ao seu diktat? Será por isso que Maria Luís Albuquerque e Passos Coelho se gabam de que, com o seu governo, Bruxelas deixaria de ameaçar o nosso país e faria vista grossa a uns míseros 0,2 %? Eles lá sabem, mas isso é um indício grave de autêntica traição nacional.
E no entanto, estamos perante o que será decerto a última oportunidade da Europa ressurgir do egoísmo, da ganância e da estupidez e reconstruir o projecto com o qual os pais fundadores da União Europeia sonhavam: uma comunidade assente na solidariedade e nos princípios democráticos agora tão esquecidos. Uma comunidade em que todos os países membros teriam os mesmos direitos, e em que nunca mais seria invocado o direito do mais forte...
Mas as coisas não são assim, e as ameaças superam em muito as promessas. E chegará decerto o momento em que os cidadãos deste nosso país e dos outros igualmente classificados como “lixo”, terão que tomar decisões graves e porventura perigosas.

Gostaria de ver o patriotismo português, tão evidenciado na adesão à selecção nacional de futebol, a apoiar o nosso Governo nas medidas que se torne indispensável adoptar face à agressão estrangeira declarada nas palavras de Schäuble e de outros senhores da Europa. Medidas que podem exigir novos sacrifícios, mas a nosso favor!

 

Talvez seja então possível o Resgate, não propriamente das finanças públicas, mas das humilhações e da soberania que nos tem sido usurpada. Não apenas pelos tiranetes de Bruxelas e da Alemanha, mas pelos seus cúmplices alaranjados e “populares”, tão queridos dos media...

 

Carlos Rodarte Veloso

crodarte veloso@gmail.com



 

quinta-feira, 23 de junho de 2016


Remake hardcore de Os Pássaros de Hitchcock
(Publicado em O Templário de 23 Junho 2016

As legiões de “amarelinhos” que vêm invadindo o espaço público, embora em número bem menor do que eles próprios propalam, são as tristes tropas de choque dos bem alimentados da vida que, ao verem fugir-lhes a mama dos “contratos de associação” a que o Estado os habituara, mormente aquando do consulado Passos Coelho/Portas, entram em completa histeria, bem alimentada por uma imprensa que já de todo esqueceu a sua função informativa e formativa.
A confusão de base é converter os tais contratos, que são temporários e condicionais, em vitalícios e obrigatórios, mesmo em zonas em que a oferta pública de Ensino é suficiente ou, no caso dos principais promotores dos protestos, mais do que suficiente.
Esta massa de coloridos canários, com a sua coreografia pimba e a alegre arrogância de quem se julga com todos os direitos, por estar habituado a tudo possuir, não se coibiram de ir afrontar um congresso partidário com as suas provocações e tentativa de boicote, afrontando assim as mais elementares regras democráticas.
Penso que seriam os promotores destas manifestações os primeiros a insultar da pior maneira quaisquer cidadãos que se propusessem boicotar desta forma grosseira um congresso de diferente cor política...
Mas o que é ainda mais difícil de tolerar é ver adultos bem instalados a pastorear desta forma agressiva as suas crias malcriadas, fruto decerto da requintada “educação” ministrada, não só em casa, mas também nessas luminárias do nosso ensino que são os colégios privados mais elitistas.
Triste também ver sacerdotes e até altos dignitários da Igreja católica a fazer o frete aos interesses dos ricos, um tanto ao arrepio dos princípios fundadores dessa mesma igreja e das bem conhecidas posições do seu dirigente máximo, o papa Francisco...
No fundo, trata-se apenas de dinheiro: tirar aos pobres e dar aos ricos... Tão simples, não é?





domingo, 20 de dezembro de 2015


Um mundo para salvar
Publicado n’O Templário de 17 de Dezembro de 2015


As actuais perspectivas mundiais são as mais sombrias deste precocemente envelhecido século XXI. Tanto no que toca ao panorama europeu, quanto ao mundial.
Aquilo que poderíamos chamar, anedoticamente, o “lado negro da força”, está tão bem representado como nunca esteve: Donald Trump, Marine Le Pen, Vladimir Putin, para não mencionar os também fanáticos dirigentes do Daesh e uma série de ditadores mais ou menos assumidos que se movem em zonas pouco claras, são a prova de que nunca como agora os aparentes inimigos se aproximam, se não nos programas de acção, mas claramente nos resultados das suas particulares políticas.
Tudo isto no meio de ameaças ambientais tão drásticas, que poderão pôr em perigo iminente países e povos inteiros, enquanto as multinacionais assobiam para o lado e os “mercados” se agitam histericamente.
As contradições acumulam-se enquanto se esboça improváveis alianças, mais fundadas no ódio do que na simpatia, em que se incuba a Guerra há muito temida e periodicamente anunciada, a Terceira na ordem mundial.
No entanto, nunca como hoje assistimos a tanta vontade colectiva para quebrar esse fadário que empurra o nosso planeta para o abismo da destruição. A Cimeira do Clima em Paris, mesmo não tendo atingido todos os objectivos propostos, pode ser a nossa última oportunidade de sobreviver a uma parte importante das ameaças globais que enfrentamos. Mas não a todas.
Também a guerra destrói o ambiente, muito especialmente quando os meios em presença representam o poder de destruição a que temos assistido, para mais tendo como alvo preferencial instalações petrolíferas cuja combustão, por si só, representa um perigo vassalador para regiões inteiras. Isto para não falar em equipamentos nucleares, químicos e tantos outros, que proliferam por esse mundo fora.
Se a tudo isto juntarmos o Medo, o capital tão eficazmente explorado pelos candidatos a ditadores que, um a um, vão surgindo no horizonte próximo, será difícil que os Cidadãos livres deste Ocidente que se reclama da Liberdade consigam evitar uma torrente avassaladora de regimes pró-fascistas.
Marine Le Pen foi detida, pelo menos de momento. A unidade democrática e republicana prevaleceu, contra todas as expectativas. É de bom augúrio, mas não cantemos vitória.
O ovo da serpente prolifera, e de que maneira|


Carlos Rodarte Veloso