sexta-feira, 1 de maio de 2015


O MEU 25 DE ABRIL
Uma semana prodigiosa
Publicado em O Templário, 20-4-2015

 Poucos dos que ouviram na rádio, na véspera e na madrugada de 25 de Abril de 1974,  
as canções “E Depois do Adeus” e “Grândola Vila Morena” poderiam sequer sonhar que era desta forma desencadeado o Movimento das Forças Armadas que na manhã seguinte derrubaria 48 anos de ditadura. Paulo de Carvalho e José Afonso entravam assim, a cantar, numa das páginas mais brilhantes da nossa História.
Em Coimbra, na periferia da Revolução, dizia uma mulher, no talho, às primeiras horas da manhã:  – Houve  qualquer coisa em Lisboa, mas não se preocupem; não é nada connosco! – Era sempre assim, havia quase meio século. Nada de importante poderia passar-se que tivesse alguma coisa a ver com o bom povo português. Era sempre com “Eles”, essa entidade abstracta, que ainda hoje é invocada a propósito de tudo.
Mas nesse dia, foi diferente. Mesmo na distante Coimbra se ouvia o rolar dos carros de combate nas ruas dessa Lisboa, agora acordada para a inesperada Descoberta da Liberdade. Dessa Lisboa de outras Descobertas, em que o cheiro a marezia se misturava agora com o perfume dos cravos rubros, plantados no mais inesperado dos cálices, o das espingardas; e o bom povo, aconselhado a manter-se na improvável segurança das suas casas, vitoriava em delírio a madrugada clara em que o medo foi banido das ruas e das mentes.
Em Coimbra vivia-se, nos quartéis , em primeira mão, os efeitos daquela derrocada que já se vinha anunciando meses antes, mas se antecipava às maiores esperanças. O Estado Novo ruía sob o peso da própria monstruosidade e nem os esbirros da PIDE/DGS, nem as forças ainda leais ao Regime, conseguiram deter a maré nascida nas picadas africanas, nas universidades  e nos quartéis que tinham sido, nas últimas décadas  o seu principal sustentáculo.
No Quartel General, mesmo em frente da sede da PIDE de Coimbra, olhávamos, impotentes, para as janelas fechadas das instalações, enquanto os torcionários, seguros da sua impunidade, iniciavam a destruição dos  arquivos incriminatórios dos seus crimes; nessa Coimbra que acarinhara as revoltas estudantis, cujas ruas tinham sido tingidas tantas vezes pelo sangue de manifestantes e de povo anónimo, nós, militares e armados, éramos obrigados a esperar pacientemente as directivas do Movimento e a não intervir excepto em caso de agressão eminente!
Em frente, agrupavam-se cada vez mais populares, enquanto os nossos soldados eram aclamados e incitados a intervir, a meter detrás das grades aqueles que tanto mal tinham feito.
Aqui só mais tarde surgiram os cravos, mas a fruta madura dos jardins próximos era trazida pelos próprios moradores aos nossos militares, enquanto a maré de gente engrossava a ponto de se temer uma reacção violenta por parte dos agentes agora cercados por civis.
Sabíamos que a situação evoluía de forma muito positiva em Lisboa e o noticiário da noite confirmou-o superlativamente.
No gabinete do oficial de dia, onde havia um aparelho de televisão, confraternizavam todos os militares da guarnição, enquanto se organizava o pessoal armado para acudir a qualquer situação inesperada, nomeadamente por parte dos oficiais do Estado Maior, até aí invisíveis.
E aconteceu o inesperado: o chefe do Estado Maior e outros oficiais superiores apareceram de súbito e vieram apertar-se, humildemente, em frente do televisor, partilhando assim com subalternos e praças o exíguo espaço em que se desenrolava a reportagem mais desejada e mais inesperada de quantas tive ocasião de ver: um Golpe de Estado convertido em Revolução, a maré viva de um Povo que se reeencontrava consigo próprio; o cerco do Quartel do Carmo, a mistura impossível de populares com armas pesadas e o milagre de nem um tiro manchar de sangue aquele cenário. E a prisão dos ex-governantes, a cereja em cima do bolo.
Sabemos hoje que forças externas, de conluio com algumas figuras aparentemente insuspeitas que apoiavam o Movimento,  conspiravam para imprimir diferentes desenvolvimentos aos acontecimentos. Nem a libertação dos presos políticos, nem a dissolução da PIDE/DGS ou das inúmeros instituições corporativas do regime, nem o direito à greve, nem o fim da guerra colonial... Seria a manutenção de uma espécie de democracia, apenas um pouco melhor que a “democracia orgânica” de Salazar!
E contudo, contra ventos e marés, com ou sem esquadra norte-americana no Tejo, com ou sem o beneplácito dos grandes do Mundo, com ou sem a benção papal ou do generalíssimo Franco, a Revolução conquistou o coração dos Portugueses e eles viveram um momento épico da sua História.
Os dias seguintes foram o concretizar do sonho de um País livre. No 1º de Maio, quando mais de um milhão de manifestantes desfilava em Lisboa, na pequena Coimbra cerca de quarenta mil pessoas davam largas a uma alegria que fez dessa semana um dos períodos mais prodigiosos do nosso século XX.
Bem podem dizer, os eternos inimigos do 25 de Abril, que as expectativas ficaram aquém do desejado. Mas, para o bem e para o mal, as escolhas têm sido do povo português. E a isso chama-se Democracia.
Carlos Rodarte Veloso

crodarteveloso@gmail.com 

domingo, 26 de abril de 2015


Mariano Gago e a Ciência em Portugal
(O Templário, 23-4-2015)

 Morreu Mariano Gago, ministro da Ciência e Tecnologia entre 1995 e 2002 e da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior de 2005 a 2011, aquele que desenvolveu a Ciência em Portugal como ninguém o fizera ainda neste país, aquele que criou critérios de exigência até então inexistentes nessa área e nos colocou nas mais altas e prestigiadas instâncias científicas europeias, aquele que encarou o Ensino Superior não como uma simples máquina de conceder diplomas e prestígio social, ou de promoção política, mas como o motor de um país do terceiro milénio...
O seu desaparecimento, numa altura em que muito do seu contributo para o progresso de Portugal ao longo de quatro governos constitucionais, sofre continuamente o desgaste da situação inacreditável a que a actual desgovernação conduziu esses sectores fundamentais da nossa vida cultural e colectiva, mais parece o dobre de finados por tudo aquilo por que lutou.
É extrordinária a hipocrisia de algumas figuras públicas, nomeadamente do mais alto magistrado, ao enaltecerem a acção de Mariano Gago no estilo grandiloquente a que nos habituaram, como se não fossem eles os principais responsáveis pelos cortes no financiamento da Ciência e no Ensino Superior e, assim, da destruição do notável trabalho que agora tanto louvam; culpados da decadência da nossa Investigação e do nosso Ensino Superior, da fuga de tantos cérebros para o Estrangeiro e do desespero de tantos e tantos jovens impedidos de colher o fruto das acções desenvolvidas durante a dúzia de anos em que este grande cientista e ministro exerceu as suas funções.
Bem podem aplaudi-lo agora aqueles que têm da Ciência e da Cultura o entendimento bovino de actividades que apenas valem pelo prestígio social e “glamour” que lhes vêm associados.

Mas as sementes estão lançadas, e não há inverno que dure para sempre.

segunda-feira, 16 de março de 2015

A choldra
(Publicado em O Templário, 12-3-2015)

 A famosa expressão com que Eça e tanta outra gente da sua geração marcaram as “forças vivas” de então, não se podia aplicar melhor do que aos seres inacreditáveis que actualmente governam este país: a “choldra”, um misto de miséria moral, incompetência funcional e hipocrisia permanente, tudo isto engravatado e engalanado, salpicado com um bom e caro perfume, capaz de ocultar os mais nauseabundos odores.
Pois que outra coisa será este grupo de figurões – e figuronas, não façamos descriminação de género – que com o beneplácito do mais alto magistrado da Nação, ele próprio o mais paradigmático dos seus representantes, decidiu ignorar todas as leis prescritas no texto da Constituição que todos eles e cada um juraram respeitar e fazer cumprir?
Arriscando-me em insistir num tema tão estafado, é vermos o regabofe de governantes que aplicam as mais draconianas leis aos tristes governados, cada vez mais pobres e em alto risco de exaustão, enquanto eles, que deviam dar o primeiro e melhor exemplo de cidadania, se esquivam aos deveres que impõem aos outros, arranjam bodes expiatórios para os erros mais crassos, mentem, prometem, caluniam, fingem...
Quando um Presidente totalmente alheio à realidade acusa a Oposição de propaganda eleitoral, apenas por denunciar graves atropelos às mais simples regras do Estado de Direito.
Quando um primeiro-ministro nuns dias diz ignorar as suas dívidas ao Fisco, no outro diz desconhecer os prazos, noutro ainda se queixa de falta de dinheiro, ou de amnésia, ou de... sei lá que mais, é caso para nos perguntarmos se um vulgar cidadão pode argumentar dessa forma enquanto lhe confiscam os bens, penhoram o ordenado, publicitam as dívidas, enxovalham em público, por umas dúzias de euros ou, até, uns míseros cêntimos.
Quando um vice-primeiro ministro se gaba do arquivamento de processos em que está envolvido, apenas porque a investigação deixou prescrever os prazos, ou do sucesso de vistos dourados, prateados ou de todas as cores do arco-íris, quando qualquer pessoa com dois dedos de testa vê apenas o benefício dos habituais super-beneficiados de todas as latitudes.
Quando a ministra que se comporta como o cãozinho de colo dos senhores da Europa, ladra enfurecida contra quem manifesta uma verticalidade e um patriotismo que ela nem ninguém da sua laia alguma vez manifestou na defesa do seu país.
Quando outra ministra acusa, sem quaisquer provas, funcionários do seu ministério pelos erros inacreditáveis no arquivamento de processos, devidos apenas à falta de organização nas suas reformas, propagandeadas como a descoberta da pólvora.
Quando um ministro inventa inacreditáveis exames de avaliação de desempenho com o fim transparente de reduzir os quadros docentes à mais ínfima expressão, tentando dar a sensação de pugnar pela qualidade do Ensino.
Quando um outro ministro se apresenta como o defensor do Serviço Nacional de Saúde no meio das ruínas de um sistema hospitalar de que já nos chegámos a orgulhar, mas que agora não passa de ruínas.
Quando se arvora a emigração maciça de portugueses e a avassaladora onda de empregos de curto – ou curtíssimo – prazo, como uma diminuição de taxa de desemprego.
Quando os claros culpados de todas as vigarices que fizeram morrer bancos, espoliaram os seus depositantes das suas poupanças, denegriram a imagem do país, continuam a fazer jorrar a sua verborreia, numa alegre irresponsabilidade e em liberdade.
Quando... Será preciso continuar?
Se isto não é uma choldra, então o que será uma choldra?


Carlos Rodarte Veloso

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Cobardia
Publicado em O Templário,  12 Fevereiro, 2015

 As andanças do governo grego por terras da Europa em busca de acordos que libertem o seu país da condenação a que os donos da “União” o votaram, desvenda o rosto hediondo da ganância e do imperialismo pangermânicos e – maior nojo! – dos seus lacaios, também marcados pelo ferrete do endividamento e que, com a rasteira adulação dos seus senhores, procuram a todo o custo agradar-lhes e, assim, cair-lhes nas boas graças.
É difícil encontrar alguma coisa mais nojenta do que a competição dos pobres para agradar a um rico à custa de outro pobre. E, no entanto, é exactamente isso que se passa, quando vemos palavrosos Coelhos e seus ministros a tirarem da cartola os salamaleques da sua cobardia, assim os oferecendo aos caçadores que, de arma em punho, os ameaçam nas respectivas tocas, enquanto não menos ameaçados vizinhos os provocam com cínicas ofertas de... gravatas de seda, decerto para os asfixiar, ou com nobres conselhos, a coisa mais barata que existe, principalmente quando se limitam a repetir até à náusea, as recomendações dos seus donos e senhores.
Na verdade, cada vez mais submetidos aos ditames dos mercados, sagrada palavra que representa a máxima divindade do nosso tempo, os míopes governantes desta Europa que tão promissora era, pensam apenas em preservar a hegemonia das potências preponderantes, ignorando que a principal dessas mesmas potências sobreviveu e prosperou precisamente à custa de um resgate concedido pelos países e povos que antes tinha barbaramente destruído, ainda por cima com o perdão de grande parte da dívida e de todos os juros!
Esses comportamentos só podem contribuir para enfraquecer a tão desejada União Europeia e, muito provavelmente, lançar nos braços de outras potências concorrentes mas nem por isso mais democráticas, essa Hélade que deu à luz esta mesma Europa e o regime que, mesmo com os seus enormes defeitos, ainda é o farol da esperança da humanidade: a Democracia.
Por isso, eu tenho um sonho: que apesar do desmedido calculismo dos agentes das principais potências europeias, dos egoísmos nacionais, da sua arrogância, da própria estupidez, sejam encontradas as pontes que reconheçam o direito da Grécia e das velhas nações europeias à autodeterminação. Uma coisa tão simples!

Carlos Rodarte Veloso

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

O Templário, 29-1-2015

Sobreviver ao Inverno

Enquanto me chegam ecos de uma indiscutível vitória da Esquerda no berço da Democracia, nessa tão vilipendiada Grécia, vou pensando no capital de esperança desperdiçado ao longo dos últimos anos neste país que é Portugal, que soube também usar muito precocemente formas democráticas para resolver  os seus problemas, mesmo contra todas as expectativas.
Quando em 1383 nomeou um tal Mestre de Avis como defensor e regedor do Reino, Lisboa rompia com os usos estabelecidos que davam prioridade absoluta à legalidade do sangue, do puro-sangue, nos destinos das nações. Como se a tal “pureza”  do sangue se pudesse confundir com a pureza das intenções,  como se só o filho legítimo de um rei tivesse o sagrado direito ao poder... Ao poder absoluto. E o Mestre tornou-se rei, apoiado – corrijo, Eleito – nas Cortes de Coimbra. Esse interregno democrático não durou muito e as coisas voltaram ao que costumavam ser, mesmo depois da formidável vitória de Aljubarrota. Mas o novo mundo e geração de gentes daí nascido, mudou o mundo para sempre, mas deixou por toda a terra as sementes de novas injustiças.
E do 25 de Abril de 74, não se lembram já? Esqueçam as comemoraçõezinhas de agora, apenas destinadas a afirmar a pseudodemocraticidade de A ou B, e lembrem-se do povo nas ruas a endireitar o que estava torto, a lembrar que o poder não pertence a esta nova aristocracia sórdida, do dinheiro, do capital, que decide, corta, divide, esbanja e rouba, em nome... de quê, meus senhores? E ainda dá lições de moral àqueles que inferniza dia a dia, ao mesmo tempo que os espolia dos bens e, pior ainda, da esperança.
Também a Grécia tivera, séculos antes, a sua experiência democrática, o século de Péricles, lembram-se? E o seu exemplo uniu o Ocidente com o Oriente, mesmo regressando depois aos usos antigos.
São estes clarões que iluminam a Humanidade, estas pontes que fazem valer a pena viver, deixando um rasto de esperança que lhe permite sobreviver até à próxima  Primavera. Num qualquer mês de Abril, ou Maio, o que interessa?
Hoje na Grécia, amanhã em Portugal, quem sabe?

Carlos Rodarte Veloso

sábado, 17 de janeiro de 2015

O Templário, 15-1-2015

Charlie somos todos nós 

Os actos terroristas que, desde  o dia 7 de Janeiro, enlutam a França e todo o mundo livre, tiveram a sua resposta com a gigantesca manifestação que juntou em Paris, com a multidão de cidadãos que encheram as suas ruas, os governantes e representantes de uma boa parte da Europa e de numerosos países do mundo.
Essa união dos que entenderam a gravidade dos crimes cometidos e que, independentemente das suas diferenças políticas, souberam unir-se, mesmo que provisoriamente, numa grande jornada de massas, é um sinal de que há ainda alguma esperança de que valores como o da liberdade de expressão sejam ainda suficientemente motivadores de ânimos e vontades, especialmente nesta nossa Europa tão aviltada por egoísmos nacionais e económicos.
E, acima de tudo, neutralizem o medo que assim se procurou incutir nas sociedades abertas do mundo civilizado, impondo-lhes – como foi já dito por “responsáveis” jiadistas – “limites à liberdade de expressão”.
A revista Charlie Hebdo, sempre se notabilizou pela sua liberdade de crítica, em que política e religião foram implacavelmente satirizadas sempre que aos cartoonistas sobravam razões para isso.
A morte de Wolinski, Jean Cabut, Charbonnier e Tignus, os mais representativos dos seus desenhadores, torna o mundo da sátira política mais pobre, mas não parece ter assustado a maioria dos seus colegas por essa Europa fora, indignados, solidários e prontos a desafiar o terror com a lufada de ar fresco dos seus desenhos, do seu humor.
O homicídio da maioria do corpo redatorial de Charlie, além de outro pessoal da revista  e polícias, foi engrossado pelas acções terroristas subsequentes que mataram reféns em França e incendiaram e destruiram o arquivo da publicação alemã Morgen Post, “culpada” de ter também publicado alguns cartoons.
As reacções do outro lado do Atlântico tendem a parecer bastante tíbias, entrincheirados os ógãos de comunicação numa autêntica fobia de ofender mesmo que minimamente, a fé religiosa de tantos eleitores.
De facto, os Estados Unidos da América, para além da condenação do terrorismo pelo seu presidente e das suas declarações de solidariedade, não parecem excessivamente preocupados com a afronta à liberdade de expressão que os crimes jiadistas comportam.
Não é o caso do “pai” da Frente Nacional francesa, Jean-Marie Le Pen, que afirma peremptoriamente “Quanto a mim, lamento, mas não sou Charlie”. Nem seria de esperar que um assumido inimigo de Democracia viesse defender um órgão de comunicação que sempre se manifestou contra os desígnios fascizantes do seu partido, aspecto em  que parece mais coerente do que a sua filha Marine, pouco interessada em perder popularidade num momento em que se sente forte nos votos que ganhou e decerto pensa multiplicar com as intenções xenófobas já assumidas de fechar as fronteiras e de propor um referendo a favor da pena de morte.
Na verdade, está tudo em aberto e a guerra civilizacional assim exacerbada prossegue: na Nigéria, com mais 20 mortos, por acção de uma menina de 10 anos armadilhada pelos repugnantes “mártires”, os tais que sonham com as não sei quantas mil virgens que os virão servir no outro mundo. Qual será a recompensa das mártires? – é caso para perguntar.
Por isso é uma lufada de ar fresco o grande número de representantes de países islâmicos presentes na manifestação de Paris. As suas bandeiras e declarações provam que não será com as acções horríveis de uns quantos bandidos sedentos de sangue, que a grande maioria dos muçulmanos alinharão.
Como todos os povos do mundo, é a paz e o trabalho que procuram. Não nos deixemos cegar pelo ódio que os terroristas tão habilmente semeiam e manipulam. Cada mesquita incendiada, cada muçulmano agredido, é mais um argumento a favor do tal “estado islâmico” que pretendem implantar no mundo.
Não prestemos nenhum serviço aos Le Pen, nem aos dementados partidários do “califado” mundial. De momento, eles são coincidentes nos seus interesses.
Fiéis aos nossos valores democráticos e humanos, enfrentemos a tempestade. Com coragem.

Carlos Rodarte Veloso

domingo, 7 de dezembro de 2014

O Templário, 4-12-2014

A paciência dos pacientes

Enquanto não é passada pelo governo a certidão de óbito ao Serviço Nacional de Saúde, os pacientes vão recebendo, a par de taxas moderadoras com prazo impreterível de pagamento e outros mimos associados aos cortes nas despesas com vacinas e medicamentos, uma autêntica bofetada na cara, não com luva branca, mas sob a forma de uma folha de papel A4, branco também.
Eu explico: Estava eu a inscrever-me para uma simples consulta, daquelas  que podem ser a diferença entre a vida e... algum desconforto, e chega-me à mão um folheto que, atenção, “é exclusivamente informativo e não implica qualquer pagamento” – uf, que alívio! – informando-me gentilmente da intenção de dar a conhecer aos utentes “a despesa com os cuidados de saúde disponibilizados pelo Serviço Nacional de Saúde”.
Fiquei assim a saber que as Altas Entidades que com o governo da Nação garantem “uma saúde pública e tendencialmente gratuita” neste nosso Portugal, são-me credoras de um valor acumulado de 31,00 euros, no ambulatório do hospital onde era atendido!
E eu a pensar que este mesmo governo que assim declara a sua generosidade para me proteger, era antes meu alto devedor, isto atendendo às múltiplas diabruras com que me tem assaltado o bolso, bem mais – e de que maneira!... – do que os mencionados 31 euros!
Já não basta sermos explorados até ao tutano em nome da boa saúde – esta tendencialmente bastante despendiosa – da banca privada e dos seus donos, que metem ao bolso quanto podem para depois o depositarem em paraísos fiscais ou no bolso dos amigalhaços e dos amigalhaços dos amigalhaços...
Já não basta o discurso da treta desta gente que jurou cumprir fielmente as funções que lhe foram  confiadas e ainda se gaba hipocritamente de melhorias absurdamente fantasiosas na saúde económica e social desta nossa Pátria tão traída, destes nossos concidadãos tão sacrificados!
Enquanto vão sendo vendidas em saldo as últimas jóias da República, por enquanto ainda independente. Diz-se.
Carlos Rodarte Veloso

domingo, 30 de novembro de 2014

O Templário, 27-11-2014
Restauração

A diminuição do número dos nossos feriados nacionais terá tido como critério, segundo o governo, a necessidade de aumentar a produção, motivo também do aumento das horas de trabalho nas empresas e no Estado. 
Como tais argumentos são acompanhados, em todos os tons, pela argumentação made in Germany  mas entusiasticamente aceite pelos nossos governantes, de que os Portugueses padecem de uma incontrolável preguiça – além de um desequilíbrio desenfreado no despesismo – não nos resta senão agradecermos a estes notáveis educadores a austeridade com que, sob todas as formas, nos venham a castigar.
E não posso, sob pena de acusação de facciosismo, lembrar os gastos sumptuários que se perpetuam no aparelho do Estado, as mordomias que campeiam por esses lados, a protecção paternal a bancos e banqueiros, o retrocesso civilizacional que representa o aumento dos horários de trabalho e a quebra dos direitos que nasceram da luta e do sacrifício de gerações e gerações de trabalhadores.
Não posso  sequer queixar-me da diminuição drástica dos feriados nacionais, especialmente dos de carácter cívico e patriótico, para não ser acusado de preguiça por essa boa gente que tanto trabalha para o nosso bem.
Mesmo assim, não resisto a dizer algo de minha justiça: Porque diabo é que o Dia da Restauração foi apagado do mapa dos feriados, como se a reconquista da independência de um povo fosse o equivalente a um dia comemorativo qualquer, entre as centenas que agora estão registadas no calendário?
 Parece-me que em termos estratégicos o governo acabou por reconhecer implicitamente a sua natureza antipatriótica, de submissão a interesses estrangeiros. Mesmo numa Europa unida – unida mesmo? – os valores nacionais continuam a ter um peso que leva a colocar em causa fronteiras outrora traçadas pela força das armas.
Escócia, Catalunha, País Basco, Irlanda do Norte, levantam a voz contra velhas opressões e o caso português de 1640 é bem próximo destes exemplos actuais de luta pela independência. Por isso, o Dia da Restauração é tão importante e indissociável da nossa identidade nacional.
Sendo assim, a atitude do governo ao recusar ao Dia da Restauração o seu carácter simbólico insubstituível, apenas revela o pavor de que esse exemplo recorde aos Portugueses que é possível e desejável lutar pela independência quando, num contexto de associação com outros países, somos explorados e humilhados. Como era o caso, nesses dias de domínio castelhano.

Lembremo-lo na próxima segunda-feira quando, passados 374 anos sobre a manhã gloriosa de 1 de Dezembro, teremos que ir trabalhar como em qualquer outro dia .

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

O Templário, 13-11-2014
A Festa de Finalistas

A campanha que o governo, o PSD e o PP iniciaram quase logo a seguir à vitória de António Costa nas Primárias do PS, prima por uma certa histeria, como se o pânico começasse a apoderar-se dessa boa gente que tanto tem feito pelo país.
Na verdade, já não há dia em que um ilustre deputado, um membro qualquer dos partidos da coligação, um governante até, no meio das suas declarações mais diversas, não dedique uma pausa a um ataque cerrado ao actual autarca de Lisboa.
Se não conhecêssemos a bravura desta gente que nos governa, o seu indefectível patriotismo que não cessa de oferecer a uma Europa – o que digo eu? – a um Mundo inteiro, que diariamente nos aconselha, ameaça, sugere, suspeita, ofende, a resposta digna dos nossos egrégios avós, quase diríamos que ... estão cheios de medo!
A actuação do ministro Pires de Lima no Parlamento, em tons de comédia bufa e, há quem o diga, alguma ingestão da tal substância que dá de comer a um milhão de portugueses, ficará como um marco na história parlamentar nacional. O tom chocarreiro com que se dirigiu aos deputados da nação pretendia revelar alguma ironia e imensa – oh! – imensa graça.
Tenho a certeza de que o digno governante passaria no teste do balão e que o arrazoado que tanto nos entusiasmou era apenas a prova de que, desde tenra idade, de pé em cima de uma cadeira, encantava todos os familiares com o seu talento histriónico. E fez mal em guardar tão encantadores dons da natureza. Os portugueses bem mereciam compartilhar com as suas tias e primos esses belos momentos da sua vida familiar.

Claro que todo o coro de censuras a António Costa fica um pouco prejudicado por esta genial prestação do ministro da Economia. De qualquer maneira, o espectáculo principal, a Festa de Finalistas que os membros deste governo estão a preparar, promete. As variedades já começaram e ainda falta quase um ano para o Baile de Finalistas. E que baile vai ser!