quinta-feira, 30 de julho de 2015


O que nós devemos à Grécia
Publicado n’O Templário de 30-7-2015
Tornou-se uma espécie de exercício de exorcismo do executivo que nos “governa” bandear-se com os nossos credores da Europa contra a Grécia, o membro “mal comportado” do clube de prosperidade de que a  União Europeia se autoproclama.
Este embandeirar com os fortes contra os fracos, já antes o afirmei, não passa de uma comportamento indigno, no mínimo cobarde, verdadeiro acto de “bullying” para obter as boas graças dos agressores.
No entanto, essa cobardia em que o governo português emparceira com outros fracos desta Europa cada vez menos solidária, apenas equivale à enorme ignorância de todos eles em relação a tudo aquilo que devemos a esse velho país onde a própria Europa nasceu, a Hélade.
Não se trata “apenas” desse território montanhoso e penetrado pelo mar Mediterrâneo onde marinheiros e poetas, guerreiros e pensadores inventaram uma parte da nossa Língua, onde as formas artísticas que hoje veneramos tiveram a sua origem, onde nasceram as estórias e a História que é hoje património comum, onde aprendemos a pensar.
É nessa geografia agreste e luminosa que florescem a vinha e a oliveira, amorosamente transplantadas para a nossa finisterra, em que se perpetua a lembrança dos mitos, as belas e terríveis aventuras da mente e das relações humanas que deram origem à Tragédia, à Poesia e à Filosofia, mãe de todas as Ciências.
É aí, em pequenas cidades, que floresce a Democracia, sucedendo esta à Oligarquia e à Tirania, palavras todas elas tão gregas como o Caos e o Cosmos, Ágora e Acrópole, Técnica e Magia, Heroísmo e Ironia, Lógica e Fantasia, Política e Olimpíadas...
E é também com as acções que os Gregos, do Passado e do Presente, nos inspiraram e inspiram; na Paz e na Guerra, pequeno povo que soube engrandecer-se face às potências que o agrediram, século após século.
Os Persas, tão poderosos, que não acreditavam que um povo que discutia na praça pública os assuntos do Poder pudesse fazer-lhes frente; e, contudo, aí estão as Termópilas, Maratona e Salamina.
E outros, ao longo da História, dos Turcos à Alemanha nazi, obrigada a desistir de outras frentes de guerra para acudir à derrota maciça da Itália fascista na sua frustrada invasão da Grécia. Tão próxima de nós, Portugueses, que lhe devemos agradecer o ter-nos poupado a uma invasão na 2ª Guerra Mundial, quando a “neutralidade” de Salazar não era suficiente para conter a ganância de Hitler.
E o perdão da dívida alemã, depois desse massacre inacreditável, da destruição de tantos países e povos? É assim que a gorda Alemanha, que a gorda Europa da prosperidade paga a esse povo que tanto nos deu?
É bom que a memória desta nossa Europa não se esvaia no auto-contentamento dos imbecis que apenas sabem olhar para o próprio umbigo. Que as dívidas, todas as dívidas, sejam finalmente saldadas.

Carlos Rodarte Veloso

sábado, 27 de junho de 2015


Mitos urbanos

Publicado em “O Templário” de 25 de Junho de 2015

 É um verdadeiro lugar-comum dizer que os políticos mentem. Creio que não há profissão no mundo mais exposta a esse tipo de acusação, infelizmente com sobejas razões. Já é menos vulgar que esses mesmos indivíduos sejam descarados ao ponto de contradizer anteriores declarações registadas nos media, agora perante uma assembleia de outros políticos – e do país em peso – que são testemunhas presenciais ou em diferido, das ditas, agora desditas declarações...
E, no entanto, foi o que se passou com o nosso primeiro-ministro durante uma muito recente sessão da Assembleia da República.
Vem ele agora declarar que o seu convite aos jovens desempregados para emigrar não passa de uma invenção, de um “mito urbano”, dos muitos com que tem sido mimoseado pela pérfida Oposição.
Releio as diversas declarações, dele e de colaboradores seus, e a ideia que me fica é de que Passos Coelho tenta, literalmente, atirar areia para os olhos dos seus potenciais eleitores.
Se não, vejamos: na sua entrevista de Dezembro de 2011 ao Correio da Manhã, ele aconselha a emigração aos professores desempregados, como forma de evitar o desemprego. E cito: "Angola, mas não só Angola, o Brasil também, tem uma grande necessidade ao nível do ensino básico e do ensino secundário de mão de obra qualificada e de professores. Sabemos que há muitos professores em Portugal que não têm nesta altura ocupação e o próprio sistema privado não consegue ter oferta para todos. Nos próximos anos haverá muita gente em Portugal que ou consegue nessa área fazer formação e estar disponível para outras áreas ou querendo-se manter, sobretudo como professores, podem olhar para todo o mercado de língua portuguesa e encontrar aí uma alternativa"
Que não é uma declaração desligada do contexto, provam-no declarações no mesmo sentido, proferidas nos meses anteriores por Alexandre Mestre, secretário de Estado da Juventude e Desporto e por Miguel Relvas, seu ministro adjunto dos Assuntos Parlamentares, amigo e homem de confiança.
Alexandre Mestre, numa deslocação ao Brasil, convidava os jovens portugueses desempregados, a emigrar, e cito, da agência Lusa: “Se estamos no desemprego, temos que sair da zona de conforto e ir para além das nossas fronteiras”. Miguel Relvas reitera em 16 de Novembro tais declarações perante a  Assembleia da República, como forma de encontrar oportunidades, “fortalecer a formação” e “conhecer outras realidades culturais”!
Para quem duvide de que as declarações prestadas por Passos Coelho em Dezembro de 2011 estão perfeitamente integradas no pensamento e na política do governo que dirige, ou seja, dentro do contexto, basta comparar as três declarações atrás citadas. Há uma coerência perfeita entre estes três políticos, na ligeireza, na arrogância e no próprio desconhecimento da cultura que deveria ser a sua: como pode um governante vir convidar os seus concidadãos a “conhecer outras realidades culturais”, quando ignora absolutamente a do próprio país?
E que não é uma atitude desgarrada, recordo que o conceito de “zona de conforto” já antes tinha sido utilizado pelo próprio primeiro-ministro que, chocantemente, acusa os seus acusadores de “piegas”. É um princípio da contrapropaganda – aprendi-o na tropa – que repetir insistentemente uma mentira, ou um qualquer disparate, acaba por convencer os mais prevenidos – quanto mais os ingénuos... E se tais dislates forem proferidos com uma voz bem colocada, tendo em particular atenção uma imagem simpática e carinhosamente cultivada, não haverá criatura que resista!
Temos então, agora, os “mitos urbanos”. Sempre actualizado o nosso primeiro-ministro... Até dá gosto!

Carlos Rodarte Veloso

quinta-feira, 18 de junho de 2015


Sinais dos Céus
dilúvios, terramotos, cometas, Fátima e o que mais quiserem
Publicado n’ O Templário de 18 de Junho de 2015

 As  recentes inundações na capital do antigo estado soviético da Geórgia deixaram atrás de si um rasto de mortes e destruição, em que foi especialmente atingido o jardim zoológico da cidade. Os animais selvagens, libertados das suas jaulas pelas águas torrenciais, percorreram as ruas de Tbilisi, num espectáculo de verdadeiro apocalipse.
O patriarca ortodoxo do país não perdeu esta excelente oportunidade para  levantar a voz a “explicar” a tragédia como um castigo divino, por a construção do dito Zoo ter sido paga com o produto da fundição dos sinos das igrejas do país, por ordem do governo comunista de então.
Este tipo de argumentação não é novo na história: É tão velho quanto a existência das religiões – o mesmo que é dizer: da humanidade – e até pode ser considerado “aceitável” num estádio pré-científico dos conhecimentos.
Terramotos, tempestades, erupções vulcânicas, queda de meteoros, incêndios, inundações, também as próprias guerras... Deus ou os deuses estavam de olho nesta humanidade pecadora e, quando lhes dava para isso – os seus desígnios costumam ser imperscrutáveis – lá vinha um sismo, um dilúvio, uma qualquer desgraça global ou, até, um simples eclipse do Sol, anúncio de outras garantidas calamidades.
Nem precisamos de recorrer às religiões pagãs, tão férteis em sinais divinos, sinais esses herdados pelo Cristianismo nas suas diversas confissões. A Bíblia no seu Antigo Testamento está cheia desse sinais da reprovação, do castigo de um Deus intransigente com as mais pequenas faltas, permanentemente irado com as suas criaturas, ao ponto de experimentar a fé e a lealdade dos homens, submetendo-os a provações inacreditáveis... Como a exigência do sacrifício do próprio filho, como teria acontecido com Abraão, ou a miséria e a desgraça inultrapassáveis lançadas sobre um incondicional crente como Job...
Mas deixemos esses exemplos arrepiantes e detenhamo-nos “apenas” no irracionalismo  
que, desde a Idade Média, tem inundado o discurso de muitos responsáveis religiosos, “santos” até, sem distinção de crença ou de estatuto.
A nossa história está cheia de exemplos dos vicios e das virtudes a que as épocas de crise deram azo. Como após o terramoto de 1531, no tempo de D. João III, quando o grande Gil Vicente teve a coragem de enfrentar os frades que acusavam os Judeus de serem os culpados pelo sismo, enviando ao rei a famosa carta escrita nesse ano em Santarém, autêntico libelo contra o fanatismo e a irracionalidade.
Ou do padre António Vieira enfrentando o sinistro poder da Inquisição durante a Restauração, “crime” pelo qual foi perseguido e proscrito. E, no entanto, este mestre da nossa Língua e grande patriota também pecou pela interpretação dos sinais dos céus quando, em 1695, a visão de um cometa lhe inspirou uma meditação profética.
Ou quando, em 1917, muito a propósito do contexto político nacional, são noticiadas as famosas aparições em Fátima, em que a famosa “dança do sol”, nunca atestada por nenhum observatório astronómico, nacional ou internacional, entra defintivamente no imaginário português, conduzindo anualmente milhões de crentes à Cova da Iria...
Sempre e sempre as épocas de crise deram azo ao aproveitamento de quaisquer fenómenos menos comuns como sendo avisos celestiais, repetindo ad nausea “argumentos” teológicos contra quaisquer novidades que ponham em causa o status quo. Argumentos servindo de arma de arremesso a favor de velhos interesses instituídos ameaçados pelo progresso político e social.
E as desgraças colectivas que coincidiram com esses “milagres”, essas manifestações da divina providência? Dentro da “lógica” ultramontana dessa boa gente, não seria caso para nos  perguntarmos sobre a interpretação do surto da terrível gripe pneumónica que ceifou, só em Portugal, umas 120 000 vidas? E, no entanto, ocorre a partir do ano de 1918, no ano a seguir às aparições, quando governava Portugal o “rei-presidente” Sidónio Pais, o mais católico dos portugueses. E vitima, entre os milhares já referidos, nem mais nem menos do que Francisco e Jacinta Marto, os santos pastorinhos de Fátima!
Mensagem dos Céus? Seria tão estúpido e desonesto associar tais factos, como vir agora o patriarca da Geórgia invocar pecados do passado para “explicar” fenómenos naturais!
A Razão e o Humanismo nunca pactuarão com as acrobacias dialécticas do Irracionalismo e essa é a garantia de que acabarão por triunfar.

Carlos Rodarte Veloso

domingo, 7 de junho de 2015


Palmira, património mundial em perigo
Publicado em O Templário, 4-6-2015

 Os avanços dos militantes do auto-intitulado Estado Islâmico (E.I.) na Síria e no Iraque já demonstraram cabalmente que não estamos “apenas” perante um sanguinário movimento terrorista, assumidamente destinado a fazer retroceder o mundo a uma idade de trevas já apenas recordada nas páginas da História.
A par da inacreditável selvajaria com que lidam com as populações e o retrocesso civilizacional que representam, nomeadamente para com os direitos da mulheres, das minorias e para com todos os restantes direitos fundamentais, estes fanáticos santões soltam a sua fúria contra os vestígios do passado brilhante de que somos herdeiros.
A exemplo  dos seus antecessores e actuais aliados, os taliban, que já tinham demonstrado esses bárbaros desígnios ao dinamitarem as monumentais estátuas de Buda em Bamiyan, no Afeganistão, em 2001, os fanáticos do E.I. começaram já a imitá-los.
Assim, destruíram já 30 séculos de História ao fazerem explodir, com martelos ou com explosivos os vestígios arqueológicos da cidade assíria de Nimrud, no Iraque, para apagar os que eles chamam – imagine-se – “a idade da ignorância” isto é, os tempos anteriores a Maomé! Não contentes com a barbaridade do acto, publicitaram-no na Internet.
Agora é a vez de Palmira, velha cidade síria e antiga capital da Rota da Seda, ocupada pelos Romanos e governada durante algum tempo pela rebelião da rainha Zenóbia, classificada pela UNESCO, em 1980, como Património da Humanidade, mais uma preciosidade nas mãos destes vândalos dos tempos modernos.
As reacções mundiais, de tal maneira se fizeram ouvir, entre outras as da directora da UNESCO e da direcção da Universidade de Al-Azhar, no Cairo, que o comandante local do E.I. já declarou que não iria tocar nos monumentos históricos mas, cito: “Vamos pulverizar a estátuas que os hereges costumavam idolatrar.”
Pretende assim o E.I. “tranquilizar” a consciência do Mundo Livre: “apenas” as estátuas serão destruídas; poderemos contentar-nos com as colunas, com o teatro, os templos, mesmo que antigamente adorados pelos “hereges”!
Nós, que nos revemos no passado prestigioso das civilizações que nos antecederam, que nos deram a razão de ser. Nós que pegamos em discursos, em abaixo-assinados a todo o momento, mas só nos arriscamos a sério quando se trata de defender poços de petróleo, bancos, negócios escuros... Nós, que somos os “bons da fita”... Não devíamos fazer alguma coisa a favor, não “apenas” daquela gente que sofre às mãos do fanatismo, mas também desse Património que é nosso, que é da Humanidade?

Carlos Rodarte Veloso


sexta-feira, 1 de maio de 2015


O MEU 25 DE ABRIL
Uma semana prodigiosa
Publicado em O Templário, 20-4-2015

 Poucos dos que ouviram na rádio, na véspera e na madrugada de 25 de Abril de 1974,  
as canções “E Depois do Adeus” e “Grândola Vila Morena” poderiam sequer sonhar que era desta forma desencadeado o Movimento das Forças Armadas que na manhã seguinte derrubaria 48 anos de ditadura. Paulo de Carvalho e José Afonso entravam assim, a cantar, numa das páginas mais brilhantes da nossa História.
Em Coimbra, na periferia da Revolução, dizia uma mulher, no talho, às primeiras horas da manhã:  – Houve  qualquer coisa em Lisboa, mas não se preocupem; não é nada connosco! – Era sempre assim, havia quase meio século. Nada de importante poderia passar-se que tivesse alguma coisa a ver com o bom povo português. Era sempre com “Eles”, essa entidade abstracta, que ainda hoje é invocada a propósito de tudo.
Mas nesse dia, foi diferente. Mesmo na distante Coimbra se ouvia o rolar dos carros de combate nas ruas dessa Lisboa, agora acordada para a inesperada Descoberta da Liberdade. Dessa Lisboa de outras Descobertas, em que o cheiro a marezia se misturava agora com o perfume dos cravos rubros, plantados no mais inesperado dos cálices, o das espingardas; e o bom povo, aconselhado a manter-se na improvável segurança das suas casas, vitoriava em delírio a madrugada clara em que o medo foi banido das ruas e das mentes.
Em Coimbra vivia-se, nos quartéis , em primeira mão, os efeitos daquela derrocada que já se vinha anunciando meses antes, mas se antecipava às maiores esperanças. O Estado Novo ruía sob o peso da própria monstruosidade e nem os esbirros da PIDE/DGS, nem as forças ainda leais ao Regime, conseguiram deter a maré nascida nas picadas africanas, nas universidades  e nos quartéis que tinham sido, nas últimas décadas  o seu principal sustentáculo.
No Quartel General, mesmo em frente da sede da PIDE de Coimbra, olhávamos, impotentes, para as janelas fechadas das instalações, enquanto os torcionários, seguros da sua impunidade, iniciavam a destruição dos  arquivos incriminatórios dos seus crimes; nessa Coimbra que acarinhara as revoltas estudantis, cujas ruas tinham sido tingidas tantas vezes pelo sangue de manifestantes e de povo anónimo, nós, militares e armados, éramos obrigados a esperar pacientemente as directivas do Movimento e a não intervir excepto em caso de agressão eminente!
Em frente, agrupavam-se cada vez mais populares, enquanto os nossos soldados eram aclamados e incitados a intervir, a meter detrás das grades aqueles que tanto mal tinham feito.
Aqui só mais tarde surgiram os cravos, mas a fruta madura dos jardins próximos era trazida pelos próprios moradores aos nossos militares, enquanto a maré de gente engrossava a ponto de se temer uma reacção violenta por parte dos agentes agora cercados por civis.
Sabíamos que a situação evoluía de forma muito positiva em Lisboa e o noticiário da noite confirmou-o superlativamente.
No gabinete do oficial de dia, onde havia um aparelho de televisão, confraternizavam todos os militares da guarnição, enquanto se organizava o pessoal armado para acudir a qualquer situação inesperada, nomeadamente por parte dos oficiais do Estado Maior, até aí invisíveis.
E aconteceu o inesperado: o chefe do Estado Maior e outros oficiais superiores apareceram de súbito e vieram apertar-se, humildemente, em frente do televisor, partilhando assim com subalternos e praças o exíguo espaço em que se desenrolava a reportagem mais desejada e mais inesperada de quantas tive ocasião de ver: um Golpe de Estado convertido em Revolução, a maré viva de um Povo que se reeencontrava consigo próprio; o cerco do Quartel do Carmo, a mistura impossível de populares com armas pesadas e o milagre de nem um tiro manchar de sangue aquele cenário. E a prisão dos ex-governantes, a cereja em cima do bolo.
Sabemos hoje que forças externas, de conluio com algumas figuras aparentemente insuspeitas que apoiavam o Movimento,  conspiravam para imprimir diferentes desenvolvimentos aos acontecimentos. Nem a libertação dos presos políticos, nem a dissolução da PIDE/DGS ou das inúmeros instituições corporativas do regime, nem o direito à greve, nem o fim da guerra colonial... Seria a manutenção de uma espécie de democracia, apenas um pouco melhor que a “democracia orgânica” de Salazar!
E contudo, contra ventos e marés, com ou sem esquadra norte-americana no Tejo, com ou sem o beneplácito dos grandes do Mundo, com ou sem a benção papal ou do generalíssimo Franco, a Revolução conquistou o coração dos Portugueses e eles viveram um momento épico da sua História.
Os dias seguintes foram o concretizar do sonho de um País livre. No 1º de Maio, quando mais de um milhão de manifestantes desfilava em Lisboa, na pequena Coimbra cerca de quarenta mil pessoas davam largas a uma alegria que fez dessa semana um dos períodos mais prodigiosos do nosso século XX.
Bem podem dizer, os eternos inimigos do 25 de Abril, que as expectativas ficaram aquém do desejado. Mas, para o bem e para o mal, as escolhas têm sido do povo português. E a isso chama-se Democracia.
Carlos Rodarte Veloso

crodarteveloso@gmail.com 

domingo, 26 de abril de 2015


Mariano Gago e a Ciência em Portugal
(O Templário, 23-4-2015)

 Morreu Mariano Gago, ministro da Ciência e Tecnologia entre 1995 e 2002 e da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior de 2005 a 2011, aquele que desenvolveu a Ciência em Portugal como ninguém o fizera ainda neste país, aquele que criou critérios de exigência até então inexistentes nessa área e nos colocou nas mais altas e prestigiadas instâncias científicas europeias, aquele que encarou o Ensino Superior não como uma simples máquina de conceder diplomas e prestígio social, ou de promoção política, mas como o motor de um país do terceiro milénio...
O seu desaparecimento, numa altura em que muito do seu contributo para o progresso de Portugal ao longo de quatro governos constitucionais, sofre continuamente o desgaste da situação inacreditável a que a actual desgovernação conduziu esses sectores fundamentais da nossa vida cultural e colectiva, mais parece o dobre de finados por tudo aquilo por que lutou.
É extrordinária a hipocrisia de algumas figuras públicas, nomeadamente do mais alto magistrado, ao enaltecerem a acção de Mariano Gago no estilo grandiloquente a que nos habituaram, como se não fossem eles os principais responsáveis pelos cortes no financiamento da Ciência e no Ensino Superior e, assim, da destruição do notável trabalho que agora tanto louvam; culpados da decadência da nossa Investigação e do nosso Ensino Superior, da fuga de tantos cérebros para o Estrangeiro e do desespero de tantos e tantos jovens impedidos de colher o fruto das acções desenvolvidas durante a dúzia de anos em que este grande cientista e ministro exerceu as suas funções.
Bem podem aplaudi-lo agora aqueles que têm da Ciência e da Cultura o entendimento bovino de actividades que apenas valem pelo prestígio social e “glamour” que lhes vêm associados.

Mas as sementes estão lançadas, e não há inverno que dure para sempre.

segunda-feira, 16 de março de 2015

A choldra
(Publicado em O Templário, 12-3-2015)

 A famosa expressão com que Eça e tanta outra gente da sua geração marcaram as “forças vivas” de então, não se podia aplicar melhor do que aos seres inacreditáveis que actualmente governam este país: a “choldra”, um misto de miséria moral, incompetência funcional e hipocrisia permanente, tudo isto engravatado e engalanado, salpicado com um bom e caro perfume, capaz de ocultar os mais nauseabundos odores.
Pois que outra coisa será este grupo de figurões – e figuronas, não façamos descriminação de género – que com o beneplácito do mais alto magistrado da Nação, ele próprio o mais paradigmático dos seus representantes, decidiu ignorar todas as leis prescritas no texto da Constituição que todos eles e cada um juraram respeitar e fazer cumprir?
Arriscando-me em insistir num tema tão estafado, é vermos o regabofe de governantes que aplicam as mais draconianas leis aos tristes governados, cada vez mais pobres e em alto risco de exaustão, enquanto eles, que deviam dar o primeiro e melhor exemplo de cidadania, se esquivam aos deveres que impõem aos outros, arranjam bodes expiatórios para os erros mais crassos, mentem, prometem, caluniam, fingem...
Quando um Presidente totalmente alheio à realidade acusa a Oposição de propaganda eleitoral, apenas por denunciar graves atropelos às mais simples regras do Estado de Direito.
Quando um primeiro-ministro nuns dias diz ignorar as suas dívidas ao Fisco, no outro diz desconhecer os prazos, noutro ainda se queixa de falta de dinheiro, ou de amnésia, ou de... sei lá que mais, é caso para nos perguntarmos se um vulgar cidadão pode argumentar dessa forma enquanto lhe confiscam os bens, penhoram o ordenado, publicitam as dívidas, enxovalham em público, por umas dúzias de euros ou, até, uns míseros cêntimos.
Quando um vice-primeiro ministro se gaba do arquivamento de processos em que está envolvido, apenas porque a investigação deixou prescrever os prazos, ou do sucesso de vistos dourados, prateados ou de todas as cores do arco-íris, quando qualquer pessoa com dois dedos de testa vê apenas o benefício dos habituais super-beneficiados de todas as latitudes.
Quando a ministra que se comporta como o cãozinho de colo dos senhores da Europa, ladra enfurecida contra quem manifesta uma verticalidade e um patriotismo que ela nem ninguém da sua laia alguma vez manifestou na defesa do seu país.
Quando outra ministra acusa, sem quaisquer provas, funcionários do seu ministério pelos erros inacreditáveis no arquivamento de processos, devidos apenas à falta de organização nas suas reformas, propagandeadas como a descoberta da pólvora.
Quando um ministro inventa inacreditáveis exames de avaliação de desempenho com o fim transparente de reduzir os quadros docentes à mais ínfima expressão, tentando dar a sensação de pugnar pela qualidade do Ensino.
Quando um outro ministro se apresenta como o defensor do Serviço Nacional de Saúde no meio das ruínas de um sistema hospitalar de que já nos chegámos a orgulhar, mas que agora não passa de ruínas.
Quando se arvora a emigração maciça de portugueses e a avassaladora onda de empregos de curto – ou curtíssimo – prazo, como uma diminuição de taxa de desemprego.
Quando os claros culpados de todas as vigarices que fizeram morrer bancos, espoliaram os seus depositantes das suas poupanças, denegriram a imagem do país, continuam a fazer jorrar a sua verborreia, numa alegre irresponsabilidade e em liberdade.
Quando... Será preciso continuar?
Se isto não é uma choldra, então o que será uma choldra?


Carlos Rodarte Veloso

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Cobardia
Publicado em O Templário,  12 Fevereiro, 2015

 As andanças do governo grego por terras da Europa em busca de acordos que libertem o seu país da condenação a que os donos da “União” o votaram, desvenda o rosto hediondo da ganância e do imperialismo pangermânicos e – maior nojo! – dos seus lacaios, também marcados pelo ferrete do endividamento e que, com a rasteira adulação dos seus senhores, procuram a todo o custo agradar-lhes e, assim, cair-lhes nas boas graças.
É difícil encontrar alguma coisa mais nojenta do que a competição dos pobres para agradar a um rico à custa de outro pobre. E, no entanto, é exactamente isso que se passa, quando vemos palavrosos Coelhos e seus ministros a tirarem da cartola os salamaleques da sua cobardia, assim os oferecendo aos caçadores que, de arma em punho, os ameaçam nas respectivas tocas, enquanto não menos ameaçados vizinhos os provocam com cínicas ofertas de... gravatas de seda, decerto para os asfixiar, ou com nobres conselhos, a coisa mais barata que existe, principalmente quando se limitam a repetir até à náusea, as recomendações dos seus donos e senhores.
Na verdade, cada vez mais submetidos aos ditames dos mercados, sagrada palavra que representa a máxima divindade do nosso tempo, os míopes governantes desta Europa que tão promissora era, pensam apenas em preservar a hegemonia das potências preponderantes, ignorando que a principal dessas mesmas potências sobreviveu e prosperou precisamente à custa de um resgate concedido pelos países e povos que antes tinha barbaramente destruído, ainda por cima com o perdão de grande parte da dívida e de todos os juros!
Esses comportamentos só podem contribuir para enfraquecer a tão desejada União Europeia e, muito provavelmente, lançar nos braços de outras potências concorrentes mas nem por isso mais democráticas, essa Hélade que deu à luz esta mesma Europa e o regime que, mesmo com os seus enormes defeitos, ainda é o farol da esperança da humanidade: a Democracia.
Por isso, eu tenho um sonho: que apesar do desmedido calculismo dos agentes das principais potências europeias, dos egoísmos nacionais, da sua arrogância, da própria estupidez, sejam encontradas as pontes que reconheçam o direito da Grécia e das velhas nações europeias à autodeterminação. Uma coisa tão simples!

Carlos Rodarte Veloso

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

O Templário, 29-1-2015

Sobreviver ao Inverno

Enquanto me chegam ecos de uma indiscutível vitória da Esquerda no berço da Democracia, nessa tão vilipendiada Grécia, vou pensando no capital de esperança desperdiçado ao longo dos últimos anos neste país que é Portugal, que soube também usar muito precocemente formas democráticas para resolver  os seus problemas, mesmo contra todas as expectativas.
Quando em 1383 nomeou um tal Mestre de Avis como defensor e regedor do Reino, Lisboa rompia com os usos estabelecidos que davam prioridade absoluta à legalidade do sangue, do puro-sangue, nos destinos das nações. Como se a tal “pureza”  do sangue se pudesse confundir com a pureza das intenções,  como se só o filho legítimo de um rei tivesse o sagrado direito ao poder... Ao poder absoluto. E o Mestre tornou-se rei, apoiado – corrijo, Eleito – nas Cortes de Coimbra. Esse interregno democrático não durou muito e as coisas voltaram ao que costumavam ser, mesmo depois da formidável vitória de Aljubarrota. Mas o novo mundo e geração de gentes daí nascido, mudou o mundo para sempre, mas deixou por toda a terra as sementes de novas injustiças.
E do 25 de Abril de 74, não se lembram já? Esqueçam as comemoraçõezinhas de agora, apenas destinadas a afirmar a pseudodemocraticidade de A ou B, e lembrem-se do povo nas ruas a endireitar o que estava torto, a lembrar que o poder não pertence a esta nova aristocracia sórdida, do dinheiro, do capital, que decide, corta, divide, esbanja e rouba, em nome... de quê, meus senhores? E ainda dá lições de moral àqueles que inferniza dia a dia, ao mesmo tempo que os espolia dos bens e, pior ainda, da esperança.
Também a Grécia tivera, séculos antes, a sua experiência democrática, o século de Péricles, lembram-se? E o seu exemplo uniu o Ocidente com o Oriente, mesmo regressando depois aos usos antigos.
São estes clarões que iluminam a Humanidade, estas pontes que fazem valer a pena viver, deixando um rasto de esperança que lhe permite sobreviver até à próxima  Primavera. Num qualquer mês de Abril, ou Maio, o que interessa?
Hoje na Grécia, amanhã em Portugal, quem sabe?

Carlos Rodarte Veloso