quinta-feira, 6 de setembro de 2018



NO RESCALDO DA SILLY SEASON, 

TRUMP DE NOVO

Carlos Rodarte Veloso

“O Templário”, 6 de Setembro de 2018

               Um mês de intervalo na minha colaboração com "O Templário" e recomeço onde terminei: com o inenarrável Trump. Agosto só serviu para reforçar a impressão de fim do mundo que a sua acção suscita nas mentes das pessoas civilizadas.
               O abandono sucessivo de organizações internacionais – a próxima será, se a ameaça se concretizar, a Organização Mundial do Comércio – a permanente vitimização dos Estados Unidos perante em mundo dirigido por “bad guys”, mesmo do pior, que se têm “aproveitado” dos pobres States, tanto económica, como militarmente, num muro de lamentações que tem sempre como resposta uma acção – ou uma ameaça de acção – que vem lançando o mundo num abismo de incertezas quanto ao futuro, enevoa cada vez mais o firmamento.
               Os “inimigos” somam-se geometricamente, dentro e fora de portas, enquanto o seu ex-conselheiro Steve Bannon, em piedosa peregrinação, acicata e junta as hostes da extrema-direita europeia, e uma sinistra colecção de ditadores emerge na América Latina e na Ásia. Só falta organizá-los num novo Eixo alargado…


               É assustadora a imagem das multidões fanatizadas que assistem aos comícios de Trump, gente sedenta do sangue dos “liberais” – como lhes chamam –, dos hispânicos e dos negros, enquanto este psicopata piroso, devidamente denunciado nos media e no mundo das Artes, classifica todas essas denúncias como “fake news” numa simplificação de banda desenhada rasca.
               Mas a verdade é que o seu antecessor mais verosímil é nem mais nem menos do que Hitler, há 85 anos “eleito” chanceler dos alemães e cuja acção política e militar conduziu o mundo a um mar de ruínas. Tal como Trump, foi devidamente ridicularizado pela sua megalomania, enquanto colocava como meta “tornar a Alemanha grande outra vez”, à conta da derrota de 1918 e da crise mundial iniciada em 1929.


               Desde o fracasso do seu golpe de estado de 1923, sempre apoucado pelas forças democráticas internas e externas, foi captando partidários entre as classes sociais mais desgraçadas, mas também entre os capitalistas – que ele era o primeiro a atacar – até que as eleições de 1933 lhe deram um inesperado poder que depressa se tornou totalitário.
               Assim como Trump tem multiplicado contactos de mais que duvidosa coerência e constantes altos e baixos com potências estrangeiras rivais, caso da Rússia e da China, também Hitler estabeleceu, em vésperas da 2ª Guerra Mundial, uma aliança contranatura com a União Soviética, enquanto se aproximava de potências europeias politicamente afinadas com os populismos desse tempo, o “seu” nazismo e os diversos fascismos.
               Tal como com a Hungria de Viktor Orbán, a Itália do vice-primeiro ministro Mateo Salvini, e a líder da oposição francesa, Marine Le Pen, para falar apenas dos casos mais emblemáticos da extrema-direita europeia, Trump tem repetido todos os passos que conduziram à catástrofe do século XX: um “Eixo” vai-se formando, não como então tendo por alvo os Judeus e outras minorias étnicas, mas contra os fugitivos de todo o chamado Terceiro Mundo. Mesmo Israel, vítima do horrendo Holocausto, persegue agora ferozmente os Palestinianos, seus conterrâneos há séculos, esquecendo aparentemente a sua própria terrível experiência!
               É difícil encontrar, no mundo actual, razões para optimismo, quando os campos estão cada vez mais extremados e à catástrofe natural que nos ameaça se junta a tragédia humana que a cada momento aumenta. Mas há países que parecem resistir... Gostaria muito que um deles fosse Portugal.      

sexta-feira, 31 de agosto de 2018


ITALIANO PARA PRINCIPIANTES, 
DE LONE SCHERFIG, 
A MENOS DOGMÁTICA REALIZAÇÃO DO “DOGMA”


Carlos Rodarte Veloso - blogue "Passagem da Linha", 31-8-2018


Um século e uns anos de Cinema, e um grupo de cineastas resolve abandonar toda a tralha tecnológica, da mais primitiva ao cúmulo dos efeitos especiais, para criar o filme "puro"... É o Dogma, a que os seus iniciadores, os dinamarqueses Thomas Vinterberg (A Festa), Lars von Trier (Os Idiotas), e Soren-Kragh Jacobsen (Mifune), dão a forma de um manifesto que é um Voto de Castidade, assinado por cada um, com todas as formalidades. É um cinema que pretende recuperar o sopro da verdadeira vida que 100 anos de espetáculo e de "truques" transformaram numa mistificação permanente.
Esta provocação àquilo que hoje parece ser a principal razão de ser da maioria dos filmes de sucesso, a Grande Ilusão, parte aliás inseparável da 7ª Arte desde os seus inícios, agradou a Lone Scherfig, dinamarquesa também, que decidiu aderir ao movimento, embora reservando-se alguma liberdade, nomeadamente no uso da câmara tradicional. Na verdade, os seus colegas advogam o uso de câmara ao ombro, que permite uma maior mobilidade...
E assim nasceu um filme de baixo orçamento e, espantosamente, assinalável êxito comercial e reconhecimento internacional. Três Prémios o contemplaram em 2001: o "Urso de Prata do Festival de Berlim, o Prémio do Público do Festival de Paris e o Golfinho de Ouro da Festróia..
O filme é trágico e divertido, ao mesmo tempo. Que tipo de comédia bombardeia o respeitável público com uma sucessão de mortes trágicas e funerais? Uma comédia negra? Decerto, mas O Italiano para Principiantes é muito mais do que isso, porque tem tanto de genuinamente triste, quanto de francamente divertido. E melancolia e divertimento nascem apenas do extraordinário trabalho destes actores que, com a realizadora e toda a equipa de produção, reflectem exemplarmente a condição humana, sucessão indispensável de tristeza e alegria, de solidão e de sociabilidade.
É a própria Lone Schefig que o diz: – É como quando o médico dá uma injecção. Sabe que vai magoar, por isso tenta fazer-nos a rir. 


Lágrimas ou alegria são contidas, ou não estivéssemos no mundo escandinavo, em que os sentimentos são reprimidos. Há uma insegurança latente nas diversas personagens, até numa jovem italiana emigrante, tão forte é o contágio. É aí que entra o Italiano, língua e símbolo de emoções fortes, de paixão. Um estereótipo... A própria Lone reconhece que a língua podia ser o Espanhol ou, digo eu, o Português...
E a aprendizagem de uma língua estrangeira torna-se o pólo de aproximação entre personagens tão comuns como eu ou qualquer um de vós, tão diferentes como cada um de nós. E uma viagem a Itália é catalizador da acção e abertura às emoções de um grupo de gente comum... Aqui se desencadeiam as paixões contidas, mas num registo minimalista, como convém. Mas este filme revela, em momentos-chave uma sensualidade irreprimível: um corte de cabelo interrompido por diversas vezes, pretexto para uma lavagem de cabeça que é tudo menos inocente, uma cama abandonada numa rua de Veneza que será aproveitada pelo último casal a constituir-se... A esta história de amores felizes nada falta para criar uma atmosfera calorosa, que nem o Inverno, durante o qual decorre toda a acção, arrefecerá.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018



LOST IN TRANSLATION, DO MULTI AO MONOCULTURALISMO

Carlos Rodarte Veloso 
Blogue "Passagem da Linha", 30-8-2018




            Mais uma película em que a viagem é pretexto para o encontro, já não tanto com o Outro, mas consigo próprio. Os estereótipos estão agora do lado do viajante e menos do visitado.
            É curioso como o exotismo que anda habitualmente associado ao Japão pode tornar-se tão amargo e patético, quando uma senhora chamada Sophia Coppola resolve arregaçar as mangas e pôr-se a dirigir este filme. É o que acontece em Lost in Translation, lugar certamente estranho, onde assistimos a uma tradução demasiado à letra de tudo quanto a formidável máquina consumista do próspero Ocidente produz e o Extremo Oriente aproveita, da pior maneira...
            E chegamos lá, concretamente a Tóquio, na companhia de três norte-americanos: um jovem casal e um actor em fim de carreira, protagonizados por excelentes actores. Eles, um fotógrafo e a sua mulher, o primeiro, interpretado por Giovanni Ribisi, em viagem de trabalho, ela, por Scarlett Johansson, a acompanhá-lo para conhecer mais mundo. O actor, na pele de Bill Murray, contratado para filmar um comercial milionário, para a promoção de um whisky.
            Este filme, apesar do ridículo da maioria das situações, é tudo menos cómico. A começar pela jovem casada, formada em Filosofia, atrelada a um marido superficial que a não entende, num mundo que não é entendível por nenhum deles. Nem pelo actor, já quase limitado ao trabalho publicitário e a viver dos últimos lampejos de uma reputação, mas que encontra na jovem casada uma companheira para a aventura de descoberta, que é mais dele, deles próprios, do que do país onde se encontram. Um país vencido que imita servilmente os vencedores, num tique que tem muito de kitsch e quase nada de genuíno. Que tem tudo de trágico.
            Mas não se trata de uma paródia a um Japão que perdeu as suas raízes, nem de uma crítica paternalista, em que as diferenças são o meio de afirmar a superioridade do imitado. Pelo, contrário, é o imitado, um pouco como nas fábulas de animais, que é o alvo principal de um retrato devastador.
            Todas as personagens se movem nesse mundo globalizado, como que mergulhado num delírio permanente. Há em Lost in Translation como que uma espiral vertiginosa que torna as cenas mais triviais em quadros surrealistas, e em que o colorido do néon e os adereços teatrais que adornam as estranhas personagens do dia e da noite de Tóquio, mais uma vez escondem os traços grosseiros de um quotidiano sem verdade e sem calor humano.  

       
            E, no entanto, é o mergulho nessa Nova Iorque de opereta que vai provocar nos heróis da nossa história uma reflexão que, no desvario do momento, os vai despertar para a realidade que a realizadora, sabiamente, evita misturar com as naturais inclinações amorosas a que um percurso em comum pode dar, dá origem. Uma realidade deturpada pela tradução. Tanto em relação aos que os rodeiam, orientais ou ocidentais, como, principalmente, aos sonhos que são a parte mais viva e concreta das suas vidas. Porque, como sempre e por muito que a mentalidade dominante o combata, o sonho comanda mesmo a vida... Se calhar, também nesse Japão adormecido na orla da grande floresta global, em que as árvores se converteram em cimento armado, à espera de um beijo de humanidade que o devolva à nobreza a que todos os povos têm direito.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018


Carlos Rodarte Veloso para Enciclopédia Ilustrada
#postaldeférias
Repesco aqui um texto que publiquei no "Correio Transmontano" de 28 de Maio de 2017 e se adequa perfeitamente a esta página:
FINISTERRA




A magia do mar desde sempre impressionou os humanos, mais ainda quando no seu encontro com notórios acidentes geográficos terrestres, os cabos, estabelece a fronteira entre o conhecido e o desconhecido, entre a vulgaridade do dia-a-dia e o desafio de longínquas paragens, porventura habitadas por seres extraordinários e misteriosos, decerto perigosas e, como tal, dignas de um sagrado temor.
Os cabos são assim objecto de uma muito especial mística, mormente quando voltados a um mar sem limites aparentes, frente à sólida estrutura dos Continentes.
A norte das Rias Baixas, na Galiza, numa paisagem habitualmente envolta em brumas, recortam-se as Rias Altas, menos pronunciadas mas nem por isso menos impressionantes. No limite entre umas e outras, o lendário Cabo Finisterra, “Fisterra” no dizer regional, “fim do mundo” dos Antigos e contraponto, a norte, da nossa Ponta de Sagres — o velho “Promontório Sagrado” dos Romanos —, como ela voltado ao “Mar Oceano” e ao Ocidente.
Situado na Província da Corunha, a pouco mais de cem quilómetros de Santiago de Compostela, delimita a sul a costa pedregosa onde tantos navios naufragaram a ponto de lhe ser dado o nome de Costa da Morte. O farol e a sua poderosa sereia parecem replicar a macabra denominação, enquanto a nossos pés se espraia o imenso espelho do Oceano, reflectindo as cores do poente. Ao pôr-do-sol, o mágico momento do silêncio tem grupos de espectadores, dispersos pelas falésias, num ritual mudo que se impõe naturalmente.
Próximo, na base do promontório, o granito de uma pequena igreja românica, frente ao cemitério, encerra uma imagem de Cristo muito venerada pelos marinheiros. Na povoação, um grupo escultórico em pedra e bronze, dedicado a estes nossos irmãos pelas origens e pela língua, como nós emigrantes, “leva o noso amor ós galegos espalados polo mundo”.
A estrada serpenteante que, através das Rias Baixas, conduz à vila de Fisterra, contorna enseadas amenas que orlam pequenas povoações piscatórias de uma beleza calma, por entre visões de sonho de montanhas emergindo do nevoeiro, como que pairando sobre as águas. Na baía de Ezaro o eco das ondas repercute-se nas falésias e enche a praia de sons que, em cascata, se prolongam na travessia. Topónimos familiares à nossa língua alternam com estranhos nomes: Noia, Muros, Serres, Carnota, Cée, Corcubión… As próprias inscrições lembram, a cada momento, a língua comum que o centralismo castelhano tentou calar durante a ditadura de Franco.
Nos campos próximos e, até, à beira-mar, avultam as formas inconfundíveis dos hórreos, tão similares aos populares “espigueiros” do norte de Portugal, lembrando uma continuidade cultural que se reconhece a cada passo, até na língua que, diz-se, apenas difere do Português numa escrita e, principalmente, numa pronúncia em que é evidente alguma promiscuidade com o Castelhano. Aliás, são os Galegos os únicos “espanhóis” que nos entendem sem nos obrigar a qualquer esforço de pronúncia… Mas não lhes chamem “espanhóis” porque, como disse a grande Poeta galega Rosalia de Castro, “Pobre Galicia, non debes chamarte nunca española / Qu'España de ti s'olvida cando eres ¡ai! tan hermosa.”
Rumando a outras paragens da Galiza, somos dominados por essa nostalgia, tão portuguesa, a que nós chamamos saudade e os Galegos, morriña…

sexta-feira, 20 de julho de 2018


TRUMP, O NOME DA BESTA

Carlos Rodarte Veloso

“O Templário”, 19 de Julho de 2018
"Os 4 Cavleiros do Apocalipse"
Gravura de Dürer
               Parece ser impossível dizer algo de novo acerca do pretenso imperador do mundo, Donald Trump, visto todos os epítetos possíveis terem já sido utilizados para definir a sua personalidade, se tal característica humana cabe na sua definição.
               Por isso mesmo, acrescentarei “diabólica” ao improvável nome: “diabólica personalidade” é que é!
               Na verdade, este indivíduo, alcandorado ao trono imperial dos Estados Unidos da América pela vontade de uma minoria ultramontana de pobres de espírito e outros racistas, xenófobos e analfabetos que grassam na “América profunda”, não podia ser mais antagónico com o espírito constitucional do seu país.
               No entanto, é a sua própria lei eleitoral, desajustada ao século em que vivemos, associada ao triunfo das famosas “fake news”, de origens variadas, em que a componente russa parece ombrear com a campanha interna dos ultras republicanos, que enfraqueceu e difamou toda a componente democrática estado-unidense.
               Mesmo com maior número de votos, os Democratas foram liquidados devido ao duplo critério de contagem de votos, além de um sem número de irregularidades que foram pura e simplesmente ignoradas ou, no mínimo, desvalorizadas.
               Um artigo recente de José Pacheco Pereira no jornal “O Público”, intitulado “Os gnomos de Trump e o Senhor das Moscas”, consegue pôr o dedo na chaga sangrenta que se abriu no antigamente generoso peito da nação norte-americana.
               A recente reunião da NATO foi nada menos do que um exercício de desavergonhada chantagem e intimidação por parte de Trump para com os seus alegados “aliados”, exercício esse, quando denunciado como tal, negado ainda mais desavergonhadamente por ele, já habituado a dizer todos os dias coisas diferentes e geralmente antagónicas, sendo as contradições – apesar de documentadas com todo o tipo de provas e gravações – imputadas a uma comunicação social “mentirosa” e “conspirativa”…
               Não vou insistir na já denunciada cobardia da maioria dos dirigentes políticos “aliados”, mais que todos de Theresa May, e dos próprios jornalistas do “Sun”, insultados e, no entanto, subservientes para com Trump, ridicularizado em privado, mas glorificado na praça pública, pois falta de todo a coluna vertebral a esta gente que o odeia e vê, logicamente, como o “amigo dos seus inimigos”— mas levantar a voz contra ele, que o façam as suas pobres vítimas, os emigrantes e os europeus que encheram as ruas com a sua revolta, gente que não conta na aritmética política deste anão com complexo de superioridade.
               Mas são apenas manifestações, e o que conta isso face à desproporção das riquezas, das forças, entre os exploradores e os explorados? E o que são os emigrantes senão simples lixo humano, apenas gente incómoda, inteiramente dispensável?
               E assim é, pois não há uma palavra deste triste histrião contra os ditadores declarados ou encapotados que enxameiam no mundo actual. Putin é um “amigo” desejável, Erdoğan é intocável, os diversos ditadores e candidatos a ditadores da detestada Europa nem sequer são referidos, a China é um respeitável rival, apenas sobrando munições – e com que fartura! – para o Irão, países da América Latina e a Coreia do Norte, mas para com este país o ódio apenas se manifesta dia sim, dia não, alternando psicopaticamente os insultos com os elogios!
               Qual é então a credibilidade deste ser diabólico, arrogante e vaidoso, Senhor do Botão do Apocalipse, ele próprio o 5º Cavaleiro e a Besta emergindo das águas dos últimos dias? Com as suas acções, ele já se classificou como o Senhor da Mentira, o aliado de todos os demónios apostados em usurpar as riquezas da terra e as forças de todos os seres vivos. E será o Senhor da Morte, se o deixarmos!

quinta-feira, 12 de julho de 2018

FRIDA KAHLO
Carlos Rodarte Veloso

"Enciclopédia Ilustrada", 12 de Julho de 2018

Frida #Kahlo, conhecida pintora e comunista mexicana, deixou na sua arte a recordação do terrível acidente que a vitimou em 17 de Setembro de 1925, na colisão entre um eléctrico e o autocarro em que seguia e a deixou refém de dolorosíssimos tratamentos e próteses que a acompanharam ao longo de toda a vida.
No ano seguinte, desenhou um esboço do acidente, segundo as regras gráficas das populares pequenas pinturas religiosas denominadas ex-votos, representando-se a si própria sendo transportada numa maca da Cruz Vermelha. O desenho é muito ingénuo, não utilizando quaisquer regras da perspectiva.




Curiosamente apesar da sua presumível descrença, 18 anos depois, utilizou uma pequena pintura religiosa, um ex-voto representando um acidente muito semelhante, a que acrescentou um pequeno texto, esse assumidamente ex-votivo, manifestando o agradecimento dos seus pais à Virgem das Dores pela sua salvação.




Penso que será uma homenagem póstuma a seus pais, falecidos em 1932 (a mãe) e em 1941 (o pai).
Transcrevo a seguir a dedicatória seguindo à letra as regras dos ex-votos:
“Los Esposos Guillermo Kahlo e Matilde C. de Kahlo Dan las gracias a la Virgen de los Dolores por haber salvado a su niña Frida del accidente acaecido en 1925 en la Esquina de Cuahutemarin y Calzada de Tlalpan”

UM VERÃO MUITO QUENTE, DIZEM...

Carlos Rodarte Veloso

“O Templário”, 12 de Julho de 2018

A próxima aprovação – ou não – do Orçamento de Estado está a desencadear uma autêntica tempestade reivindicativa, que revela, a meu ver, algumas contradições graves por parte dos seus protagonistas à esquerda do PS, parece que esquecidos dos tormentosos anos do “governo” de Passos Coelho e da verdadeira austeridade que então se fez sentir.
Dir-se-ia que a sua intenção inconfessada vai ao encontro dos desejos de uma direita ressabiada, que encontra agora, na relativa moderação do “novo” PSD de Rui Rio, uma recuperação de popularidade e uma “aproximação” aos sectores mais conservadores do PS, pretensamente convergentes com o famoso “bloco central”.
A recusa de quaisquer hipóteses de acordo institucional do Governo com este PSD pretensamente renovado, já por diversas vezes veementemente repudiado por António Costa, não sensibiliza minimamente os sectores aparentemente mais radicais da Esquerda, apostado a exigir, “aqui e agora”, tudo e mais alguma coisa, ou seja, a recuperação instantânea de todas as perdas sociais, económicas e políticas suscitadas pela deriva de direita de anteriores governos, com predominância do anterior.
Sem pôr em causa a justeza da grande maioria dos protestos incidindo sobre anos de serviço não contados, congelamento de carreiras, continuação da precaridade mesmo que atenuada, salários insuficientes, graves problemas com a habitação e a saúde, a verdade é que ao somar às manifestações, perfeitamente compreensíveis e justificadas, uma onda imparável de greves, se enfraquece a economia alimentando-se também o fogo cerrado de uma comunicação social – bem pouco social – claramente alinhada com a oposição de direita.
Na verdade, e estou a pensar no exemplo da RTP, restantes canais televisivos e em quase toda a imprensa nacional, as notícias estão completamente enfeudadas aos ataques ao Governo: um ouvinte é bombardeado por um tal volume de desgraças, que a única conclusão a tirar é que vivemos num país do terceiro mundo, a meio-caminho de uma ditadura, onde a corrupção não poupa ninguém!
E, no entanto, sabemos bem que há amplos motivos de optimismo, não apenas pelos sintomas de recuperação na Economia, e pelos progressos na Cultura e na Ciência, como pelo decréscimo do desemprego e tantos outros indicadores positivos.
É bem evidente que os meios financeiros do país, assoberbados pelas medidas já tomadas para a reposição parcial dos direitos de quem trabalha, não são suficientes para satisfazer todos os sectores agora – parece – apostados num coro de recriminações.
Aliás, a satisfação dos sectores com maior poder reivindicativo, caso de médicos, enfermeiros, juristas, professores, militares, levaria à injustiça global de deixar de fora, por absoluta impossibilidade financeira, as reivindicações das restantes camadas da população trabalhadora, na verdade as mais desfavorecidas.
Entretanto, o fantasma dos incêndios ressurge no horizonte, sendo certo que estes não vão decerto acabar milagrosamente, já que os seus agentes naturais se mantém intactos num mundo que caminha desenfreadamente para um cada vez maior desequilíbrio ambiental.
As medidas agora tomadas para proteger a floresta são a todo o momento boicotadas pela ganância de proprietários e empresas que continuam a plantar eucaliptos, por negociatas envolvendo madeira, meios aéreos e corrupção generalizada, pela permissividade de uma espécie de justiça que liberta os incendiários e não investiga os seus mandantes…
Num momento em que o exemplo governativo português, aquilo a que a direita chamou jocosamente “geringonça”, é modelo para o novo governo espanhol e começa a ser visto, num mundo em que surgem alguns exemplos importantes de resistência ao populismo protofascista, como um caminho alternativo à deriva do “liberalismo” neocapitalista, será que se vai instalar, novamente, a divisão das forças de esquerda?
Essa triste “tradição” que conduziu à criação de sinistras ditaduras que levaram o mundo à guerra e à miséria não pode ser repetida, sob pena de repetirmos, interminavelmente os erros do passado! No entanto, quando se estabelece artificialmente um clima de confronto social, agravado pela ameaça velada “de um verão muito quente”, tenho todas as razões do mundo para temer pelo futuro.
Bom seria que o diálogo substituísse o conflito e parássemos de oferecer argumentos aos grandes senhores do capital, que velam na sombra…
Unidos, venceremos!

segunda-feira, 9 de julho de 2018



UM TORNEIO MEDIEVAL NA

FORMAÇÃO DE PORTUGAL

Carlos Rodarte Veloso

“Correio Transmontano”, 8-7-2018

            Um torneio medieval próximo de Arcos de Valdevez, nas margens do rio Vez, provavelmente no ano de 1137, levou à Paz de Tui entre Portugal e Leão e contribuiu para o reconhecimento de D. Afonso Henriques como nosso rei no Tratado de Zamora de 1143 e, mais tarde, para o reconhecimento internacional da nossa independência, em 1179, pela bula “Manifestis probatum” do papa Alexandre III.
            Este torneio foi a solução encontrada pelas forças portuguesas e leonesas, para evitar um sangrento confronto entre os dois exércitos, depois de uma incursão do nosso primeiro rei em terras da Galiza.

Arcos de Valdevez, Escultura de José Rodrigues (Foto. C.Veloso)

            Na verdade, um choque entre os dois exércitos cristãos levaria a um enfraquecimento dos mesmos, pondo assim em perigo o seu papel na protecção do território já reconquistado aos Muçulmanos e no prosseguimento da reconquista da Península Ibérica.
            Acordado o recontro, de acordo com as estritas regras medievais da Cavalaria, foi o mesmo travado entre os melhores cavaleiros de ambas as nações. A vitória dos Portugueses entregou os vencidos nas suas mãos, como reféns, evitando-se assim, sabiamente, um inútil derramamento de sangue.
            Testemunho artístico deste recontro, um notável painel de azulejos do conhecido artista Jorge Colaço, na estação dos caminhos-de-ferro de S. Bento, no Porto, instalado em 1916.

Porto, Estação de S.Bento, azulejos de Jorge Colaço, 1916

            Na vila de Arcos de Valdevez, em cujos arredores se travou o torneio, foram instaladas, precisamente na Avenida Recontro de Valdevez, as esculturas em bronze de dois cavaleiros simbolizando os dois exércitos, da autoria do escultor José Rodrigues, falecido em 2016. Estas estátuas são consideradas as melhores obras de sua autoria.
            Um padrão em pedra, inaugurado fora da vila, em 1940 – aniversário das comemorações de Independência de Portugal – por Duarte Pacheco, então ministro das Obras Públicas, foi trazido para esta avenida, assim se associando ambos os monumentos a este importante evento.

quinta-feira, 5 de julho de 2018


OS TEMAS “FRACTURANTES”, ou
OS DIREITOS DOS ANIMAIS
Carlos Rodarte Veloso 

“O Templário”, 5.7.2018

Todos quantos escrevem para um público mais ou menos alargado hesitam por vezes em abordar determinados temas, não por terem dúvidas sobre as próprias opiniões, mas por temerem a reacção dos leitores, principalmente quando há uma corrente dominante, geralmente tradicionalista, que choca violentamente com a sua.
Este choque de opiniões acontece principalmente quando nos encontramos perante assuntos considerados “fracturantes” pela opinião dominante. Isso varia de época para época, de país para país, e até de região para região.
Há apenas uns meses, poderia ter graves consequências para um jornalista da Arábia Saudita defender o direito das mulheres à condução de automóveis. No entanto, as alterações legais que aboliram essa proibição, deitaram por terra esse tabu e, assim, o tema deixou de ser “fracturante”.
Servi-me de um exemplo estrangeiro mas, diz a opinião pública, com o mal dos outros estamos nós bem – e não deveríamos estar, acrescento – embora tenhamos os nossos próprios temas que só podemos “pegar com pinças”, dada a sua delicadeza.
Alguma revolução de mentalidades vem gradualmente permitindo a abordagem de temas que há apenas uns anos seriam classificados como verdadeiras heresias ou, no mínimo, como exemplos de puro mau gosto. Alguns poderiam até ser sujeitos ao peso da Lei.
No caso concreto da sociedade portuguesa, já ninguém se atreve a contestar publicamente a proibição da violência doméstica, o que não impede que, na intimidade, muitos continuem a exercê-la… O mesmo se passa com a pedofilia, a violação de mulheres – ou de homens, que também ocorre – a perseguição aos homosexuais, o racismo, a xenofobia, a deigualdade de género, a liberdade religiosa e tantas outras atitudes publicamente condenadas, quanto mais não seja em nome do conceito hoje muito expandido do “politicamente correcto”. A propósito, a generalização desta ideia, aplicada acriticamente, conduz por vezes a autênticas aberrações que só prejudicam a aplicação destes princípios.
Se estes temas deixaram de ser problemáticos entre nós – pelo menos “da boca para fora” – outros, alicerçados na Tradição, assim mesmo, com maiúscula, não podem sequer ser ventilados em certos meios ou regiões sob pena de sérios conflitos.
No Ribatejo, por exemplo, e para pegar literalmente “o touro pelos cornos”, é a tauromaquia um dos temas “mais tabus”, sendo frequentemente exercida violência sobre os seus opositores, quando contestam corridas, largadas de touros ou garraiadas no próprio local. É claro que noutras regiões, como Barrancos, o pior exemplo, são os próprios “touros de morte” que constituem tema tão delicado que o próprio poder político o tenta ignorar em nome de um populismo inaceitável.
Pessoalmente, não só condeno todas as actividades tauromáquicas, aliás dentro do espírito da actual lei que proíbe toda a violência contra os animais, como recordo aos aficionados que nas origens desta pugna “animal-besta”, como tem sido frequentemente caracterizada, há uma clara e injusta desigualdade entre os dois protagonistas, o touro e o homem: é este, o organizador da luta, que estabelece as regras, impondo-as pela força a um animal que as não pode conhecer e se limita a defender-se da violência imposta, ainda agravada com a utilização de ferros sadicamente afiados. 


A própria “pega”, embora não aplique farpas nos touros, utiliza a sua prévia utilização, como forma de enfraquecer o animal. Tudo isto para provar a “bravura” dos toureiros e saciar multidões sedentas de sangue, como o antigo público dos jogos de anfiteatro romanos, em que eram massacrados milhares de animais e de pessoas, uns e outros igualmente escravizados.


Não podemos esquecer que na caça, outra actividade popular e inatacável entre grande número de portugueses, há uma “igual desigualdade”, embora seja considerada como uma actividade “desportiva”. Devo dizer que só consigo admitir a caça como meio de sobrevivência, ou se destinada a controlar demograficamente uma espécie cuja expansão ameaça o próprio equilíbrio ambiental, caso dos javalis entre nós. Nunca como “desporto”!
Esta minha condenação é, em suma a de quaisquer práticas que induzam o sofrimento gratuito em animais, ou a sua exibição – nos circos, por exemplo – sob formas que não correspondam à sua natureza. E não me respondam com a aparente contradição de eu, e tantos outros que pensam como eu, nos alimentarmos de carne. Isso corresponde a uma exigência milenar da própria natureza humana. Nem todos conseguem adoptar uma alimentação exclusivamente vegetariana. Mas o próprio abate desses animais deveria ser, também, tão isento de sofrimento quanto possível, o que infelizmente não acontece, quando vemos as condições penosas – e criminosas! – com que são “armazenados” antes do momento fatal.
Passo a passo nos vamos libertando da barbárie de outros tempos. Mas, acima de tudo, há que abolir definitivamente a ideia de haver “temas fracturantes”. Nunca esqueçamos que “da discussão nasce a luz”… às vezes tão brilhante que nos cega!