sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019



GIL VICENTE E OS JUDEUS

Carlos Rodarte Veloso

"O Templário", 31 de Janeiro de 2019

Gil Vicente, o pai do Teatro português, transmite nas suas peças mais conhecidas muitos dos estereótipos e insultos popularmente atribuídos aos Judeus manifestando, assim uma atitude estereotipadamente anti-semita.
Isso é notório no Auto da Barca do Inferno (1517), na peça O Juiz da Beira (c.1525), no Diálogo sobre a Ressurreição (1527) e na trova satírica que dedica, ao trovador cortesão Afonso Lopes Sapaio, da famosa família dos Sapaio de Tomar, onde o acusa de ser “cristão fingido”.
O mesmo Gil Vicente apresentou, em 1523, no Convento de Cristo e perante toda a corte de D. João III, a sua famosa Farsa de Inês Pereira, segundo parece baseada em figuras e factos reais passados nos arredores de Tomar Note-se, entretanto, que a peça não foi decerto representada no Claustro da Hospedaria, nem no dos Corvos, como refere Amorim Rosa, visto que ambos os claustros só viriam a ser construídos mais de vinte anos depois.
Nessa peça, a protagonista refere-se aos judeus como covardes e são também dois “judeus casamenteiros”, versão masculina e odiosa das detestáveis alcoviteiras, que lhe arranjam péssimo casamento com o escudeiro Brás da Mata, a quem pedem bom pagamento, assim vincando o estereótipo da ganância judaica.
Contudo, há exactamente 488 anos, na sequência de um terrível sismo que destruiu boa parte da cidade de Lisboa, terramoto menos publicitado nas fontes históricas que o de 1755 mas, mesmo assim, altamente destruidor e cujos efeitos se fazem sentir por todo o país, Gil Vicente envia ao rei uma famosíssima carta – a “Carta que Gil Vicente mandou de Santarém a El-Rei D. João III, estando S. A. em Palmela, sobre o tremor de terra, que foi a 26 de Janeiro de 1531”
 Na referida carta, Gil Vicente então com 66 anos de idade, assume corajosamente a defesa dos cristãos-novos, acusados por frades locais de serem, entre outras causas supersticiosas, os culpados pelo terramoto então ocorrido. Mais do que isso, transcreve o discurso que proferiu no claustro de S. Francisco naquela cidade, e que levou à pacificação dos ânimos dos frades e dos civis escalabitanos, que teriam começado a perseguir a “gente de nação”.
Que esta defesa não foi um acto avulso, prova-o o seu Auto da Lusitânia, apresentado no ano seguinte, que mostra as melhores qualidades numa família judaica, onde reina grande união e amor. Neste texto é evidente o desejo da integração dos cristãos-novos na sociedade portuguesa.
E em 1533, com 68 anos, representa em Évora o Auto dos Agravados, o mais demolidor libelo contra a corrupção e a estupidez da Corte. Os seus alvos são cortesãos muito próximos do rei e o alto clero que “assenta mitra em cabeça d’asno”. Não podia ser mais claro, nem mais corajoso, quando a Inquisição preparava a sua entrada em Portugal, que ocorreria em 1536. Por acaso ou não, mestre Gil morre em Évora esse mesmo ano, quando D. João III consegue finalmente a autorização de Roma para criar o tribunal do Santo Ofício.
Hoje dificilmente acreditamos em coincidências, em “acasos”. Porque havemos de acreditar nelas no século XVI, quando não existia qualquer mecanismo legal para proteger os cidadãos contra a arbitrariedade com que a igreja actuava, se se sentia de alguma forma ferida na sua autoridade?

Painel de azulejos do Museu de Azulejo ~ fragmento do “Grande  Panorama de Lisboa” datado do ano  de 1700, da autoria de Gabriel del Barco, testemunho iconográfico da cidade de Lisboa anterior ao Terramoto de 1755.


sexta-feira, 18 de janeiro de 2019



GENOCÍDIO EM TERRAS DE VERA CRUZ



Carlos Rodarte Veloso

"O Templário”, 17 de Janeiro de 2019
A eleição de Jair Bolsonaro como Presidente do Brasil correspondeu, como o próprio discurso do candidato deixava adivinhar sem quaisquer subtilezas, a um extraordinário retrocesso dos direitos civis do povo brasileiro.
Desde os direitos laborais, à assistência médica e social, à liberdade de ensino, à Ciência, aos direitos das mulheres, das minorias sexuais, religiosas e étnicas e ainda à protecção do ambiente, tudo quanto tem sido a marca do progresso em países medianamente desenvolvidos e de ideologia democrática, tem sido sucessivamente enfraquecido ou aniquilado, desde o autêntico golpe de estado que depôs Dilma Rousseff e deu o poder a um reconhecido corrupto, Michel Temer, que, espantosamente, se serviu do argumento da corrupção para abalar a credibilidade da Presidente eleita, nem por isso alvo de acusações de gravidade significativa.
A cumplicidade de um poder judiciário corrupto ao mais alto nível diabolizou a acção política de Dilma e abriu caminho à prisão do ex-presidente Lula da Silva, assim impedido de concorrer às eleições presidenciais para o que era o candidato mais popular apesar da gigantesca campanha de difamação, em boa parte por comprovar, que lhe foi movida pela direita.
Sem adversário à altura de Lula da Silva, um inacreditavelmente inculto e reacionário deputado federal, Bolsonaro, especialmente apoiado pelas igrejas evangélicas conduziu uma campanha inflacionada de “fake news” em boa parte alimentados por “redes sociais” de origens mais do que duvidosas, semelhantes às que no resto do mundo têm conduzido à subida da votação em partidos e movimentos populistas de tendência fascista.
Independentemente de tudo isso, um factor existe, especialmente chocante, a perseguição contra a minoria étnica constituída pelos sobreviventes dos povos nativos do Brasil, através da sua confinação a reservas que se tornam mais e mais reduzidas, à medida que o espaço florestal e selvagem é usurpado pela exploração agrícola e industrial, tendo em conta única e simplesmente o lucro capitalista incorporado na sua exploração por autênticos invasores: os madeireiros, as explorações mineiras, os ruralistas, deslocações de massas que invadem as terras nativas, terras essas que constituem agora a mais importante barreira contra a deterioração definitiva e irremediável do ambiente terrestre. Acima de tudo, a violência contra os seus legítimos ocupantes, violência vezes de mais conducente ao homicídio.
Entre 2016 e 2017, segundo estatísticas do Conselho Indigenista e Missionário, morreram 228 indígenas o que indicia 9,5 assassínios mensais! Ataques frequentes às comunidades indígenas foram registados depois da vitória de Bolsonaro pelas autoridades locais e pela FUNAI (Fundação Nacional do Índio). Um líder índio foi mesmo assassinado a tiro na praça pública da cidade de Amarante do Maranhão, comunidades indígenas foram atacadas, acampamentos incendiados, índios gravemente feridos, pelo menos uma escola comunitária destruída, e medo, muito medo… Missionários que foram testemunhas da violência pedem que os seus nomes não sejam divulgados por uma questão de segurança pessoal!
A agressividade dos invasores dessas terras que, até pelo potencial de protecção do ambiente que representam, deveriam ser poupadas à exploração capitalista, está armada com armas de fogo e surge agora desenfreada pelas “costas quentes” que o novo Presidente da República lhes proporciona com a promessa de legalização de todo o tipo de armamento, a exemplo do que acontece com o seu modelo estado-unidense, Donald Trump.
Tornou-se agora frequente o recurso a balas de borracha e até munições reais, e tornaram-se lancinantes os apelos das comunidades indígenas à solidariedade internacional, dado o carácter de verdadeiro genocídio que caracteriza os ataque constantes, até com o beneplácito das autoridades brasileiras.
Entretanto, Bolsonaro, que não deixou dúvidas quanto aos seus propósitos, prometeu acabar com a demarcação de reservas, aquilo a que chamou “activismo ambiental xiita”, transformando as vítimas em algozes e lançando petróleo sobre as chamas para “apagar o fogo”….
Estaremos então retornados ao genocídio dos índios norte-americanos, agora na América do Sul? Ou a um novo Holocausto, como o que assombrou o século XX? Cabe-nos combater estas macabras heranças que pareciam definitivamente enterradas no lixo da História. E não pactuar com figuras como o hediondo presidente do Brasil. Não confraternizar, nem trazê-lo para o nosso seio, embalando-o numa simpatia diplomática, leia-se, perfeitamente ilusória. Não podemos dar força a uma figura repugnante como Bolsonaro, um assumido fascista, desavergonhado defensor do criminoso regime militar que governou o Brasil de 1964 e 1985, e declarado candidato ao genocídio dos nativos brasileiros!

domingo, 13 de janeiro de 2019


A PROPÓSITO DO CENTENÁRIO DE 
SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN



A Poeta de onde emana a Luz da Poesia, da Cidadania e da Liberdade, da Maresia, dos Ventos e das Marés, a mais clássica da Língua Portuguesa!

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019


OS LIMITES DA TOLERÂNCIA

"O Templário", 10 de Janeiro de 2019


Os últimos tempos foram marcados por uma extraordinária ofensiva dos defensores de uma cada vez maior aceitação do ideário da extrema-direita totalitária, em nome de uma tolerância tanto mais deslocada, quanto é simetricamente oposta à atitude que a mesma facção apresenta face à sociedade democrática garantida pela nossa Constituição.
Entre muitos outros factos, três deles se revelam especialmente graves, porquanto presenteiam com o benefício da dúvida pessoas e instituições cujos comportamentos se revelaram especialmente gravosos para com os valores humanitários de um país que há 44 anos derrubou o fascismo e passou a integrar de pleno direito o mundo livre.
Para começar, a espantosa classificação que a redacção da RTP atribuiu ao actual presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, como “figura internacional do ano de 2018”, figura sinistra de retrocesso civilizacional, ameaça à paz mundial e ao ambiente do nosso planeta, de braço dado com o triste governante dos EUA. 
Como se fosse pouco o beneplácito assim atribuído pela nossa televisão estatal a um assumido fascista cujo ideário tem revelado sem vergonha a todo o mundo, o nosso Presidente da República acaba de o honrar com a sua presença na tomada de posse em Brasília, sendo o único dirigente oficial de um Estado assumidamente democrático a alinhar fisicamente ao lado de gente como Viktor Orbán e Netanyau e, embora à distância, com Trump, gémeo verdadeiro pela “cultura” e pelo “odiário” deste ditador dos trópicos.
É compreensível a presença de um representante nosso – mas nunca o Presidente! – na desditosa cerimónia, dados os interesses dos muitos cidadãos portugueses residentes na Brasil, mas nomear o encontro como “reunião entre irmãos” é mais uma afronta indesculpável ao País de Abril, seja em nome da Diplomacia, seja do que for! 
E o convite ao novo ditador para visitar Portugal, é a “cereja em cima do bolo”, uma manifestação para mim totalmente inesperada de baixeza por parte de um Presidente que eu via como um digno representante do povo português, especialmente em contraste com o anterior, o lamentável Cavaco.
Independentemente da atitude em si, penso que Marcelo poderá ter criado uma situação política insustentável, no caso de Bolsonaro resolver aceitar o convite. Será decerto mal recebido no nosso País, quer pelo povo quer pelas instituições que contactar, embora sejam perfeitamente expectáveis manifestações de apoio dos muitos brasileiros residentes entre nós que, sabemo-lo, votaram na sua eleição… Como vai ser? E se alguns “coletes amarelos” abrilhantarem a manifestação, vai ser cá uma festa!
Como descalça esta bota, Senhor Presidente? Com selfies e abraços? Não me parece!
E como não há duas sem três, a televisão privada conhecida como TVI resolve promover o criminoso e dirigente neonazi, Mário Machado, racista, sádico torturador e cúmplice em homicídio, ao fazê-lo entrevistar por Manuel Luís Goucha em horário nobre, no programa “Você na TV”, em nome de “tolerância e da democracia” e, como tal, da necessidade do “contraditório”… o mesmo Goucha que seria decerto uma das muitas vítimas do entrevistado, caso este viesse a ter poder para isso… contra o “politicamente correcto”! É uma espécie de síndrome de Estocolmo, a fixação da vítima na personalidade do agressor, em última análise exactamente o que aconteceu com as eleições no Brasil…
A rubrica do programa acabou por ser suspensa, em grande parte devido à denúncia feita pelo Ministro da Defesa, João Cravinho, para quem a atitude da estação de televisão não teria sido muito diferente de quem ateia incêndios pelo prazer de ver labaredas”, e também, entre outros, do Sindicato dos Jornalistas. 
Assim vão os tempos. À vista das tendências actuais parece-me que só poderemos contar com o pior, isto é, com um populismo mais e mais agressivo, conducente à multiplicação das venenosas cabecinhas da Hidra, sempre prontas a morder os incautos. Temos que estar atentos à próxima ameaça, provavelmente vinda de algum dos afectos que nos rodeiam… perigosamente!

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018



O ETERNO NATAL

Carlos Rodarte Veloso

“O Templário”, 27 de Dezembro de 2018

Há dez anos exactamente, publiquei no Cidade de Tomar um artigo intitulado “Um Natal no Século XXI”, já eclipsadas então, de todo, as esperanças que os novos século e milénio prometiam à Humanidade.
A guerra e o terrorismo marcavam de novo, mais impiedosamente do que antes, o desencanto que sucedera à tão esperançosa queda do “Muro da Vergonha”, não podendo sequer imaginar-se o próximo levantamento de outros muros, não menos vergonhosos, um na terra dita “Santa” e outro, agora, na fronteira da outra Terra Prometida, a fabulosa “América”, abusivamente tomada a parte pelo todo.
Isto leva-nos, a talhe de foice, à farsa grotesca do actual inquilino da Casa Branca, ao paralisar o Estado que representa e diz defender, como represália para a recusa dos Democratas em autorizar as derradeiras despesas com a construção do referido Muro, que só poderei classificar como “do Ódio”. Uma birra com o seu quê de infantil mas com consequências inevitavelmente trágicas.
Entretanto Bolsonaro, no “Cone Sul” da América, e novos candidatos a ditadores, por toda a Europa, destilam mais e mais ódio, brincando irresponsavelmente com o povo dos países que lhes coube governar enquanto as Democracias sobreviventes resistem dificilmente ao ataque de populismos que já se revêm nas ruas, trajados de amarelo ou com os símbolos de um passado sinistro, de “noites de cristal”, campos de concentração, fornos crematórios…
No entanto, o Natal mantém ainda a imagem onírica de um Tempo do Nunca, disfarçando com os cenários diáfanos que todos os anos constrói, uma realidade cada vez mais nua e crua. Cada vez mais feia.
            E isso no aniversário fictício de um Menino que não nasceu decerto em 25 de Dezembro, nem sequer no ano 1 da nossa era, e que morreu e ressuscitou aos 33 anos, para nos salvar. A fé terá aqui a palavra definitiva, porque ninguém se pode sentir salvo apenas por causa de um exemplo de auto-sacrifício levado ao extremo, de um indivíduo cuja vida e acções são testemunhadas apenas por uns tantos Evangelhos, entre canónicos e apócrifos, na maior parte contraditórios entre si.
            E é precisamente nesta imprecisão histórica que reside o encanto poético de um nascimento cercado de profecia e sortilégio, numa terra pobre dominada por estrangeiros, a mesma terra onde correram rios de sangue e não o leite e o mel da profecia veterotestamentária… a mesma terra que agora o “Povo Eleito” veda aos seus conterrâneos.

Gravura: “O almoço do trolha”, pintura de

Júlio Pomar, um Presépio do século XX


            Não foi o Menino, nem o Homem a que deu lugar, que construiu o poder avassalador, que construiu uma civilização que, gradualmente, ocupou o mundo inteiro. Foram os que, mansa, melifluamente, se apoderaram do seu legado de bondade e amor, e o converteram em força. Numa grande força que tão bem soube forçar os espíritos e os corpos. Assim pôde construir um mundo à medida dos seus interesses, sempre em nome dele... Em nome Dele, porque nem a letra minúscula permitiram à sua humildade!
            Passaram dois mil e tal anos sobre essa noite mágica nascida nas mentes daqueles que um dia se chamaram cristãos, daqueles que tantas vezes renegaram essa fraternidade e se massacraram mutuamente. E mesmo cada vez mais distantes da fé original, repetem os gestos sacramentais, as tradições populares e algumas  importadas, os pastores, o rebanho, a sagrada família e o musgo e a areia com que vão cobrir os caminhos sinuosos do Presépio, como Francisco de Assis e os seus Irmãos, irmãos também dos animais e do vento, do sol e da chuva... irmãos do papa Francisco, frágil esperança dessa Igreja de Cristo, que nunca existiu. E a Noite, a luminosa, estrelada Noite, contemplará, uma vez mais, esse símbolo de paz, justiça e fraternidade.





terça-feira, 25 de dezembro de 2018



O NATAL EM DOZE OBRAS-PRIMAS DA ARTE EUROPEIA - SELECÇÃO DE 
CARLOS RODARTE VELOSO 

NATAL DE 2018

Com os votos de um feliz Natal e um Ano Novo cheio de alegrias!

Vitral da Catedral de Chartres, séc. XIII

Gentile da Fabriano

Masaccio

Leonardo da Vinci

Vasco Fernandes, o Grão Vasco

Giorgione

Josefa de Óbidos

Machado de Castro

Júlio Pomar

Chagall

Paula Rêgo

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018



UMA MINORIA EM BICOS DOS PÉS

Carlos Rodarte Veloso

“O Templário”, 20 de Dezembro de 2018

À margem de um país que tem conseguido resistir à crise económica e superar o estado de austeridade que lhe foi imposto de dentro, a partir da triste coligação do PSD com o CDS, à margem também da muito expressiva adesão que o actual governo socialista tem publicamente recebido de todas as consultas da opinião pública, grupos de gente mal identificada e soprada pelas “redes sociais” resolvem convocar uma manifestação destinada a “parar Portugal” e a lutar contra impostos, carestia dos combustíveis e todas as medidas fiscais que afligem a população…
É humano e completamente justo tentar melhorar a vida material e moral de uma nação, mas convém partir de pressupostos igualmente justos e morais e não de critérios de imitação do que se vê fazer noutros países, francamente mais prósperos e que não enfrentam, como nós, o desafio de uma difícil recuperação.
Sendo assim, é puramente demagógico equiparar impostos destinados a corrigir situações de injustiça que vêm muito de trás e cujos culpados somos todos nós, sem excepção, com a relativa carestia que atinge países como a França ou a Bélgica, onde os “gilets jaunes” bloqueiam as ruas exigindo uma prosperidade que cada vez mais diminui entre as classes desfavorecidas.
A onda de reivindicações apoiadas em greves, na maioria perfeitamente justas, que têm varrido Portugal ultimamente, correspondem à impaciência na recuperação do poder de compra da população anterior à crise económica que, como sabemos, não foi apenas nacional, mas assumiu uma expressão global, mas também a algum jogo politico com que os movimentos de Esquerda mais radical tentam demarcar-se do PS, a pensar nas próximas eleições, assim procurando evitar uma maioria absoluta ao mesmo partido…
Esse raciocínio não engloba, como afirmei na passada semana, a greve do juízes, e muito menos, a dos enfermeiros, a que poderei agora juntar as atitudes anti-Protecção Civil de várias corporações de bombeiros manipuladas por Marta Soares, personagem cujo oportunismo politico bem se tem afirmado desde os trágicos incêndios do ano passado e cuja colagem à Direita é evidente.
Aproveitar essa impaciência e comparar situações completamente díspares como o são as da França e Portugal, é fazer o jogo de forças obscuras internacionais que pretendem atingir Portugal, como o fizeram com a União Europeia, através do crescimento de movimentos populistas e proto-fascistas que, como temos visto, vão gradualmente conquistando os diversos governos europeus e, assim, enfraquecendo-os face às grandes potências que controlam o mundo.
A manifestação marcada para o dia 21 de Dezembro para “Parar Portugal” revela, na linguagem como nos objectivos, demasiados indícios favoráveis à destruição do actual governo, para que possamos considerá-la “pacífica” e, muito menos, “isenta” e “apolitica”… Por isso, é inconcebível como muita gente de Esquerda se deixa embalar neste “canto da sereia” da “revolta pela revolta”, entusiasmando-se até, como se estivéssemos perante um movimento revolucionário semelhante ao Maio de 1968!
As palavras de ordem da dita manifestação – com base em notícias falsas relativamente ao governo e órgãos de soberania, e indesmentíveis indícios de salazarismo – parecem ressuscitar o movimento que, há 44 anos, em 28 de Setembro de 1974, mobilizou as forças fascistas que meses antes tinham sido derrotadas pelo Movimento das Forças Armadas, aquilo a que chamaram a “maioria silenciosa”, que pretendia aumentar drasticamente os poderes do Presidente da República, António de Spínola e, assim, fazer regredir grande parte das conquistas da Revolução para a época do “Estado Novo”. No entanto, o dito movimento também se afirmava isento, apartidário e apoiante do Movimento das Forças Armadas!

 

Fig. 1 – Cartaz apelando à “Maioria Silenciosa” em 28 de Setembro de 1974.

Fig. 2 – Cartaz comemorando a derrota da “Maioria Silenciosa”, um ano depois.


A derrota esmagadora  inflingida pelas massas populares a esta pseudo-maioria pouco silenciosa, deu um novo impulso ao Movimento das Forças Armadas, radicalizando-o e conduzindo o país ao chamado PREC. Os tempos que vivemos são bem outros, mas bom seria que se aprendesse com as lições do passado…



quinta-feira, 13 de dezembro de 2018



HIC ET NUNC

Carlos Rodarte Veloso

“O Templário”, 13 Dezembro de 2018

São cada vez mais confusos os tempos que vivemos.
Enquanto uma feliz e inesperada conjunção de esforços criou em Portugal uma união política que colocou no poder um partido de Esquerda, apoiado – mesmo com algumas reservas – por outras forças de Esquerda, aliás mais radicais, mas que souberam negociar essas reservas em prol de um bem maior, esta solução democrática, original no nosso país mas perfeitamente corrente em diversos parceiros europeus, foi desde o início atacada pela Direita, que mimoseou esta solução com o nome de “Geringonça”.
Terminado o terceiro ano do mandato, recuperado um número considerável dos direitos que o anterior governo de Direita tinha aniquilado e perante uma recuperação económica verdadeiramente notável e reconhecida pelos nossos pares da União Europeia, asim como por outros países amigos, logo se instala a ideia de que é o momento de partir para a correcção total dos abusos desse periodo negro da nossa História recente, exigindo-se “hic et nunc” (“aqui e agora”) a recuperação de TODOS os direitos coartados às classes trabalhadoras, tanto em termos de condições de trabalho, como de vencimentos.
Revivendo um pouco os longínquos tempos do PREC, eis que todas as forças produtivas se levantam agora em pé de guerra, exigindo de imediato aquilo que, nem nos tempos do governo de Passos Coelho era reivindicado.
Essas exigências, evidentemente justas mas dificilmente exequíveis, dado o gigantismo das verbas em causa e o facto de as nossas dívidas, mesmo no bom caminho, estarem ainda muito longe de estar sanadas, são reivindicadas, não apenas por alguns dos grupos sociais mais débeis economicamente, aqueles cuja mais elementar justiça social indicaria como preferenciais na reposição dos direitos mas, inesperadamente, por grupos, ou francamente abonados, ou relativamente remediados e que foram totalmente inertes politicamente durante o consulado de Passos Coelho.
Refiro-me, evidentemente, a dois grupos especialmente agressivos e cujo estatuto profissional me parece exigir grande contenção, dado o serviço público que exercem e a deontologia que se lhes exige: os juízes, que ao serem parte dos órgãos de soberania não deveriam, na minha óptica, beneficiar do direito à greve, e os profissionais da Saúde, médicos e enfermeiros, estes menos beneficiados, mas para quem esse direito deveria ser utilizado de forma especialmente circunspecta, já que da sua paralização podem resultar – e sem dúvida resultam – graves inconvenientes para as classes trabalhadoras que dependem inteiramente do Serviço Nacional de Saúde, inconvenientes que se podem saldar, até, na morte ou no prejuízo permanente da sua saúde.
Poderá argumentar-se que são os enfermeiros os profissionais que, de forma mais radical se têm mantido num estado de greve quase permanente e que, chocantemente, se gabam através dos seus sindicatos e, espantosamente, da sua Bastonária, pessoa com ligações partidárias bem conhecidas ao PSD, do “êxito” dessas greves quase contínuas que já levaram ao adiamento de milhares de intervenções cirúrgicas por todo o país.
E é exactamente esta estranha bastonária que informa agora o primeiro-ministro de que Portugal está perante “uma catástrofe e uma calamidade sem precedentes” com cinco mil cirurgias adiadas… Fez a festa, e deita os foguetes!


Isto não é uma greve. É um atentado criminoso à saúde dos portugueses mais desfavorecidos! Dêem o nome aos bois! A situação parece-me de tal forma grave, que justifica plenamente a requisição civil e com a máxima urgência!

Entretanto, os ventos de revolta que nos chegam de França começam a contagiar as nossas redes sociais, não tão sociais assim porque começam a imitar, não a indignação perfeitamente justa dos “gilets jaunes”, mas a prática violenta dos adventícios, leia-se, provocadores que se lhes misturaram e com eles se confundem, convocando à destruição gratuita… Uma dessas redes  convida “a incendiar Portugal”, coisa de que estamos sem dúvida necessitadíssimos como já se comprovou com os incêndios de triste memória que enlutaram o país!...


Há assim um estado de quase histeria por parte de muitos dos utentes das nossas redes sociais incitando à revolta pela revolta o que conduziria  a nada  mais do que a destruição e, provavelmente, ao jogo dum niilismo inconsequente. Em suma, com Marine Le Pen à espreita e o populismo a subir, já adivinhamos os "abençoados" tempos da maré fascista... E convidam-me a partilhar!
Se um número razoável de franceses apoiantes de Marine Le Pen, oportunisticamente se infiltraram no movimento original da Esquerda, com a intenção clara de o destruir, temos que os imitar? O nosso principal problema é defender a unidade da nossa Esquerda para recuperar o muito que perdemos em direitos com o anterior governo. E aproveitar o que de bom tem sido feito! Não podemos alinhar em provocações, na estupidez do "aqui e agora"!

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018


FALSAS TRANSPARÊNCIAS
Carlos Rodarte Veloso
“O Templário”, 6 de Dezembro de 2018

Não há nada como a Arte para enganar os sentidos e, assim, a percepção do mundo: Sugerir o movimento na total imobilidade de uma pintura ou escultura, as três dimensões numa superfície plana, a aspereza de uma textura macia ou a macieza de uma forma rude, a distância daquilo que está perto, ou a proximidade do infinito… Os famosos “trompes d’oeil”, as ilusões de óptica praticadas desde a pré-história, sempre deixaram atónitos os seres humanos.
Desde a multiplicação dos membros dos animais, ou a duplicação da cabeça em algumas pinturas rupestres chegadas até nós, sugerindo corrida ou o simples rodar da cabeça, artifício reutilizado na actual banda-desenhada, até aos tectos de edifícios monumentais – igrejas, palácios, teatros… - enormes janelas abertas para o céu, atravessadas por revoadas de anjos ou deuses, fazendo das nuvens o seu apoio…
Mas no capítulo dessas ilusões, suponho que a “transparência” da matéria opaca – mármore principalmente – obtida por alguns escultores da época rococó e neoclássica atinge a quase impossibilidade absoluta. Tive a oportunidade de confrontar essa inacreditável realidade na escultura “La Velata” – ou “Vestale Tuccia” – do artista italiano Antonio Corradini (1688-1751), exposta quase timidamente no Palazzo Barberini, em Roma. 

1. "La Velata" de Corradini

Digo timidamente, porque além de uma localização pouco saliente no espaço museológico, nunca lhe é foi atribuído o título de genial embora se trate de uma extraordinária realização do engenho humano. Da habilidade, não do génio, essa tão difícil classificação, para mais quando exposta junto de obras-primas de artistas como Rafael, Ticiano, Greco, Holbein, Pietro da Cortona, Caravaggio, Bernini…
A ilusão de óptica é tão perfeita que nos apetece soprá-la para observar a impossível ondulação dos tecidos, alquimia que Bernini já alcançara no “Rapto de Proserpina”, ao cravar os avaros dedos de Plutão na carne tenra da também marmórea deusa que podemos admirar noutra galeria da Roma barroca, o Museu Borghese… 

 
 2. "O Rapto de Proserpina", de Bernini
3. "O Rapto de Proserpina" de Bernini, pormenor

O mármore feito carne, a pele acetinada pelo calor do toque, pelo calor do desejo, o milagre do génio!
Habilidade, magia, génio, o que reivindicar perante exemplos de tal forma extremos? Diremos então que Bernini é Bernini, Corradini é Corradini, mas será justo compará-los? Diremos simplisticamente que assim se distingue a matéria dos sonhos, ou trata-se “apenas” de aferir o valor das coisas pela sensibilidade de cada um?
Na verdade, Corradini fez alguma escola: artistas posteriores como Giuseppe Sanmartino (1720-93) Giovanni Strazza (1818-75) e Raffaelle Monti (1818-81) esculpiram novas esculturas marmóreas, igualmente assombrosas, exercícios de pura ilusão… Ainda hoje vemos novos escultores seduzidos por esse hábil experimentalismo. Simples “artesãos” dirão os notáveis do Conceptualismo e de todo o Pós-Modernismo, que põem as palavras à frente das formas plásticas e para quem, se calhar, Bernini está ao nível de um Corradini… mas pelo mais baixo nível!
Pudessem eles aproximar sequer os seus intelectualizados ensaios dos resultados desses “pobres” artesãos, temperados no ardor da suada experimentação artística na oficina, no calor da inspiração!