quinta-feira, 27 de junho de 2019


UM MAR DE LÁGRIMAS
Carlos Rodarte Veloso
“O Templário”, 27 de Junho de 2019

O “Mare Nostrum,” o maravilhoso Mediterrâneo, berço da Europa, torna-se, cada vez mais, o sepulcro das esperanças e dos corpos exangues dos condenados da Terra, dos fugitivos às guerras promovidas pelos poderes que hoje dominam o mundo.
Como sabemos, depois de um inicial acolhimento, muitas vezes condicional, geralmente em campos de refugiados com péssimas condições, desses fugitivos, desses sobreviventes de viagens arriscadíssimas em embarcações inacreditáveis em termos de segurança e salubridade, agora um número crescente de países europeus fecha-lhes violentamente as portas, sob os mais diversos pretextos, enquanto a vitória de partidos populistas de ideologia fascista começa a ameaçar com punições jurídicas draconianas os salvadores de grande número desses náufragos.
É o que acontece em Itália sob a batuta do seu insensível ministro do interior, Mateo Salvini, sob a acusação de… apoio à imigração ilegal (!), tráfego humano e posse de armas de fogo, tendo as duas últimas sido anuladas, mas mantendo-se a primeira, de que são acusados dez membros do navio de resgate “Iuventa”, entre os quais o jovem português Miguel Duarte, assim ameaçado de condenação a uma pena de 20 anos de prisão!
Ou seja, a tradicional “lei do mar” que obriga a recolher e agasalhar todos os náufragos referenciados por qualquer navio, mormente quando em perigo de vida, sob pena de graves penas judiciais, é aqui ignorada ostensivamente. As próprias leis da guerra obrigariam, pelo menos teoricamente, a recolher as tripulações de navios afundados, mesmo os considerados inimigos. Muitas vezes não cumprida, é, mesmo assim, considerada fundamental como conquista civilizacional.
A desumanidade desta acusação, para mais em tempo de paz, levantou um coro de protestos, tanto quanto sei pelas diversas forças políticas nacionais, pelo governo e pelo próprio Presidente da República, enquanto se organizou uma campanha de crowdfunding denominada “Salvar vidas não é um crime”, que já teve a adesão de mais de 100 mil pessoas, tendo sido angariados mais de 25 mil euros, e estará aberta até 12 de Julho.
A gravidade desta acusação do sinistro ministro do interior italiano inverte toda a lógica do que deve ser o comportamento humanitário reconhecido internacionalmente, antes dando aso ao abandono à sua sorte – morte! – de quantos passageiros dos mais rudimentares meios de navegação sejam avistados. Este comportamento é evidentemente um convite ao abandono de quaisquer sentimentos de solidariedade humana, é um regresso a tempos primitivos consentâneos com as leis da imigração de Trump e outros retrocessos civilizacionais que se têm verificado ultimamente, é um convite despudorado ao crime, ao verdadeiro crime de homicídio por negligência.
No país onde está instalada a Santa Sé e o seu dirigente máximo, o papa Francisco, espero com alguma esperança, da parte deste corajoso representante da igreja católica, que se junte à defesa dos corajosos tripulantes do “Iuventa” desta acusação inconcebível, só possível como fruto de uma mente muito doentia.

quinta-feira, 20 de junho de 2019



ARQUITECTURA EFÉMERA EM PORTUGAL DO

 ABSOLUTISMO AOS NOSSOS DIAS

Carlos Rodarte Veloso
“O Templário”, 20 de Junho de 2019
            As embaixadas ao papa ou a outros grandes príncipes constituem uma forma muito especial de proporcionar um espectáculo de rua – no fundo, um triunfo – voltado para a propaganda de um país através da figura reinante, o monarca. Como nas Entradas Régias, trata-se de um espectáculo alegórico da sua fama – real ou pretendida – e poder, funcionando como forma de pressão para o reconhecimento de um qualquer direito ou exigência do país organizador.
            Também ficaram célebres algumas outras embaixadas a cortes estrangeiras, a fim de serem assinados tratados de paz, de comércio, ou outros, destinados a obter condições vantajosas para Portugal.
            Algumas das mais famosas embaixadas portuguesas tornaram-se factos políticos e artísticos notáveis, tais as suas repercussões.
            A embaixada de Tristão da Cunha, em 1515, a mandato de D. Manuel I, a Leão X, tinha como motivação declarada levar ao papa a obediência filial do rei de Portugal, e fez sensação em Roma, tanto pela riqueza e variedade dos trajos, como pelo exotismo da exibição do séquito, acompanhado pelo troar de trombetas e por espécimes animais como um elefante e um rinoceronte indianos e ainda as onças caçadoras do rei de Ormuz, que impressionaram fortemente os espectadores, entre poetas e artistas, entre os quais o grande pintor Rafael de Urbino.
            O verdadeiro móbil da embaixada seria sensibilizar Roma para a reivindicação portuguesa sobre os seus direitos à navegação e comércio do Oriente, e consequente reconhecimento e consolidação do Tratado de Tordesilhas.
            O reinado de D. João V, privilegiado que foi com o ouro do Brasil, foi fértil em acções de prestígio na exterior, caso da embaixada enviada a Paris em 1715, chefiada por D. Luís Manuel da Câmara, 3º conde da Ribeira Grande.
            “A sua entrada pública constituiria espectáculo impressionante da disposição grandiloquente e dissipadora do nosso rei […] Sete coches, esplêndidos na arte do traço e no precioso das madeiras, seguiam, puxados cada um deles por oito cavalos frísios e ladeados por pajens e criados ricamente trajados. Enquanto o cortejo avançava, ao longo das cinco horas que durou a tirada de meia dezena de léguas, o escudeiro do embaixador ia distribuindo medalhas comemorativas do acontecimento, gravadas com a efígie de D. João V, de que se tinham cunhado duzentas em ouro, com o valor de seis mil réis cada uma, e mil em prata, cotadas a trezentos réis cada (isto é, um milhão e quinhentos mil réis!) [BEBIANO, Rui, D. João V, Poder e Espectáculo, Aveiro, 1987, pp. 111-112). Assim se consolidava a paz com a França na sequência da Guerra da Sucessão de Espanha…
            Mas é no ano seguinte que tem lugar a mais faustosa embaixada da nossa História, enviada pelo Magnânimo ao papa Clemente XI, sob a chefia do marquês de Fontes. Teve especial brilho a inclusão no cortejo de oito coches em talha dourada dos quais ainda existem três, encomendados a artistas italianos [Fig.1], com figuras alegóricas em atitudes tipicamente barrocas. O móbil desta embaixada era a criação da Patriarcal de Lisboa, campanha em que o rei se empenhou ao máximo, nela gastando rios de dinheiro, o que foi mais tarde muito criticado pela historiografia liberal.


            Casamentos reais e outras festividades religiosas ou profanas, serviram para festividades de grande aparato e despesa, apresentando numerosos pontos comuns com as entradas régias, de que se poderá vincar, em linhas muito gerais:
                - Na canonização de Santo Inácio de Loiola e S. Francisco Xavier, organizada em 1622 pelos Jesuítas, foram utilizados arcos de triunfo e outros aparatos.
- O mesmo aconteceu em 1662 nos festejos em honra do casamento de D. Catarina de bragança com o rei Carlos II de Inglaterra.
                - Em 1666, a entrada pública de D. Afonso VI com D. Maria Francisca Isabel de Sabóia deu origem a festas que incluíram a construção de uma ponte para o desembarque da rainha, um forte de madeira para o fogo-de-artifício e os já habituais arcos triunfais.
                - Em 1687, nas festas públicas do casamento de D. Pedro II com D. Maria Sofia Isabel de Neuburgo verifica-se a mais esplendorosa das entradas reais portuguesas, de que possuímos descrições várias, gráficas ou literárias, desde as aguarelas de João dos Reis, aos apontamentos de Luís Nunez Tinoco. A arquitectura efémera utilizada incluía a tribuna real, um pórtico e uma ponte com cerca de 800 palmos de comprimento, um forte de madeira para o lançamento do fogo-de-artifício, um jardim em perspectiva e várias fontes, carros alegóricos a utilizar nas toiradas então realizadas e ainda arcos triunfais aproximadamente no mesmo número dos da entrada de Filipe III, mas agora no estilo barroco [Fig.2]. Nem os festejos do casamento de D. João V com D. Maria Ana de Áustria, em 1708, atingiram o esplendor dos de 1687!

            Perfeitamente integrados na realidade festiva barroca, os autos-de-fé da inquisição, dispunham de tribunas destinadas à família real, altas individualidades e, claro está, “aos senhores inquisidores”, além de uma cenografia alegórica do Triunfo da Fé.
            Como não podia deixar de ser, a Festa termina no último dos limites, a Morte, neste caso do próprio rei… mas ainda é Festa! Na época barroca “a morte do rei era configurada como o último rito de submissão colectiva e marca o início da representação da história feita homem, do grande e singular herói, numa palavra, do homem valor. Tal como no cerimonial das entradas régias, a morte, com todo o aparato que a rodeia, assumia o sentido de ‘saída régia’. Não o da abdicação do poder, mas o da sua investidura fantástica pela memória […] manifestação póstuma de fidelidade.” [ARAÚJO, Ana Cristina Bartolomeu de, “Morte, Memória e Piedade Barroca”, Atitudes Perante a Morte, coord. António Matias Coelho, Coimbra, 1991, pp. 47-48].
            Teatral por excelência, frequentemente kitsch, a arquitectura efémera mantém ainda hoje o seu fascínio, tornando-se indispensável na maioria das manifestações festivas, locais ou internacionais. Nas festas populares desempenha um papel hoje ignorado pela erudição, mas cuja compreensão levaria longe na análise sociológica.
            No âmbito oficial é factor de prestígio nacional, objecto e meio de propaganda… Pense-se nas suas aplicações, a par dos edifícios construídos em pedra e cal – ou cimento e vidro – nas grandes Exposições Universais, Feiras Internacionais, Jogos Olímpicos… e em Portugal, em dois momentos tão diversos como em 1880, nas Comemorações Camonianas e, em 1940, na Exposição do Mundo Português, veículo de propaganda do “Estado Novo”. É dessa exposição o Padrão dos Descobrimentos em Belém, do escultor Leopoldo de Almeida e do arquitecto Cottinelli Telmo, exposto na dita Exposição e reconstruído em pedra e cimento em 1960.


            Em 1988, a Exposição Universal de Lisboa (Expo 98), representando Portugal e o Mundo das vésperas do novo milénio, demonstrou cabalmente que os padrões de representação das suas tão diversas manifestações visuais mantinham, apesar da sua modernidade, um paralelismo surpreendente com toda a parafernália de símbolos que tinham preenchido a arquitectura efémera das festas da Vida e da Morte do passado. Símbolos actualizados, sem dúvida, com diferentes significados, enriquecidos com novas tecnologias mas, agora e sempre, a pegada da humanidade no tempo.

quinta-feira, 6 de junho de 2019


ARQUITECTURA EFÉMERA EM PORTUGAL NO 

PERÍODO FILIPINO. AS ENTRADAS RÉGIAS EM

 LISBOA E TOMAR

Carlos Rodarte Veloso

“O Templário”, 13 de Junho de 2019

            Nos Países Baixos Católicos a relação monarca-súbditos torna-se de tal modo importante, que se torna “em instrumento para a definição da lei pública que regia as relações entre cidades e monarcas, especialmente por ocasião das sucessões de reinados passíveis de afectar as cidades flamengas. No decurso de um cortejo público, o soberano comprometia-se, por um juramento complexo, a garantir os direitos municipais consuetudinários. O juramento em si era designado por Elijde Inkomst ou Joyeuse Entrée, termo que gradualmente se tornou sinónimo de direitos garantidos pelo monarca […] Concomitantemente, os cidadãos passaram a considerar que o soberano se comprometia a acordos específicos e era costume apresentar-se queixas de “infracções” à Joyeuse Entrée, a qual tinha, já em 1549, atingido um estatuto legal preciso (ao tempo de Filipe, príncipe de Espanha). […]”
            A passagem de Portugal para o domínio espanhol coloca-o numa situação semelhante à dos Países Baixos, levando a atitudes semelhantes para com Filipe II — o primeiro de Portugal — nomeadamente em 1581, através da organização de uma cerimónia semelhante em Lisboa, que seria repetida em 1619. O uso de um cerimonial estranho à Península, estabelece um claro paralelismo entre a situação do povo português e a dos flamengos.
            Esta primeira Joyeuse Entrée   foi precedida, em 16 de Abril de 1581, da Entrada de Filipe II (I de Portugal) em Tomar, quando aqui veio para receber o juramento das respectivas Cortes. A Vila encontrava-se engalanada com aparato festivo, muito povo e a indispensável cerimónia de entrega das chaves, destacando-se, à entrada, “um Arco Triunfal ou portada de duas colunas, com sua cornija e arquitrave, tudo enfeitado de verdura e flores dos mais variados matizes, e donde se destacava, em  campo branco, este letreiro:

PHILIPPO, INVICTISSIMO, HIS / PANIARUM REX II LUSITA / NIAE VERO PRIMO
(A FILIPE II INVICTÍSSIMO REI DAS ESPANHAS E VERÍDICO PRIMEIRO DA LUSITÂNIA.)
           
            O arco era rematado pela Cruz de Cristo, a esfera armilar e o escudo das quinas.”
            Estava pois Lisboa pronta a receber o novo monarca, o que aconteceu a 29 de Junho. O cortejo organizado através da parte baixa da Cidade, iniciou-se com o desembarque do rei — vindo de Almada — nos Paços da Ribeira e o seu percurso, que viria a repetir-se em diversas ocasiões e reinados, até à Sé e, depois, em sentido inverso, de novo até ao palácio real. Embora não existam registos gráficos das decorações então construídas, podemos fazer delas uma ideia por terem sido parcialmente reutilizadas em 1619. O que veio depois a ser regra, a construção de arcos comemorativos pelas colónias estrangeiras em Lisboa, foi excepção em 1581, pois a única comunidade a apresentar o seu arco de triunfo foi, muito significativamente, a flamenga.
            Decerto não por acaso, foi sob este arco, o maior das festividades, que foram entregues ao rei as chaves de ouro da Cidade, que logo as devolveu ao magistrado, como era de uso. O arco media 54 pés de altura — cerca de 16 metros — e foi descrito como “arco triunfal em forma de castelo”. Havia outros arcos ou decorações alegóricas da iniciativa de diversas corporações dos Ofícios — oleiros, artesãos da cera e ferreiros — e da Casa da Moeda. Outro ponto alto do programa foi uma encenação do Triunfo da Fé, junto da Sé de Lisboa, presidida pelo Arcebispo, na qualidade de Inquisidor-Mor.
A exemplo de seu pai, Filipe III — segundo de Portugal — prepara, em 1609, uma visita a Portugal, já solicitada pela Câmara de Lisboa desde 1605. Esta, em grandes dificuldades financeiras, envia às Câmaras do País um pedido de subsídio para preparar festividades condignas. As respostas dão uma nota da penúria geral e, decerto de uma disposição cada vez menos favorável para com o Filipe.
            Exemplar é a da Câmara de Tomar: depois dos protestos de fidelidade do estilo e manifestações do grande júbilo causado por tal visita, desculpa-se de não poder contribuir para a entrada régia, por estarem “presos pelo Santo Ofício mais de 50 homens de nação [cristãos-novos] e ausentes muitos mais” o que teria tornado esta Vila “a mais miserável de Portugal”, sendo os restantes moradores, tributários da poderosa Ordem de Cristo, pobres demais para serem ainda mais sobrecarregados. Não era um não peremptório mas era, mesmo assim, um claro sinal de mal-estar perante as duras realidades sentidas pelos portugueses …
            No entanto, a visita torna-se possível em 1619. Segundo Kubler, “todas as classes em Portugal necessitavam e esperavam desde a morte de Filipe II, em 1598, uma confirmação dos termos da carta patente de Tomar, e há muito havia agitações em Portugal devidos às infracções […] e devido ao aumento de impostos em Lisboa, […]”.  O rei sentia também a importância da visita: era urgente legitimar o príncipe herdeiro junto das Cortes portuguesas e pôr termo à agitação que grassava em Portugal. À cautela, a visita régia era discretamente acompanhada por forças militares terrestres e navais…
           A Câmara de Lisboa viu-se obrigada, face à falta de apoio das restantes câmaras do País, a contrair um pesado empréstimo para pagar as despesas, na ordem dos 700.000 cruzados. De facto, para além das esperanças portuguesas no cumprimento das promessas de 1581, muitos defendiam — e pensavam ser possível convencer disso o rei — a elevação de Lisboa a Capital do Reino Unido de Portugal e Espanha, por ser uma cidade com muito melhores condições estratégicas, climáticas, económicas e políticas do que Madrid.
            Um dos grandes defensores desta ideia, apoiada por numerosos autores da época, foi o lisboeta João Baptista Lavanha, um dos cronistas desta jornada filipina em terras portuguesas, cujo relato e gravuras que o acompanham documentam exemplarmente as decorações armadas para esta Entrada Régia. De trinta e três descrições conhecidas da viagem, muitas impressas, esta é a única ilustrada.
            A primeira estátua alegórica com que Filipe III deparou, ao desembarcar, foi a de Lisboa, acompanhada de outras relacionadas com os sentimentos pretensamente acalentados pela população relativamente a Sua Majestade Católica: Zelo, Verdade, Amor e Obediência, acompanhadas por um soneto inscrito no pedestal que, tal como o discurso de seguida proferido pelo representante da Cidade, defendia a primazia de Lisboa entre todas as Cidades da Península, e a sua relevância para Capital.
            Um desenho de Domingos Vieira Serrão, pintor régio natural de Tomar, mostra a Lisboa ribeirinha com a frota festivamente engalanada, os cais construídos junto aos Paços da Ribeira para receber o desembarque do rei e os arcos triunfais e outros aparatos dispostos no Terreiro do Paço (Fig.1). É a imagem que melhor visão de conjunto proporciona sobre este evento …


            Sendo evidente o parentesco dos arcos construídos com os retábulos de talha, ao gosto maneirista, não será de admirar a sua obediência aos tratados arquitectónicos publicados durante o século XVI. Os artistas que os riscaram e executaram seriam provavelmente os mesmos que adornaram os altares das igrejas portuguesas com a mestria que ainda hoje podemos admirar.
            Quanto ao sabido reaproveitamento de arcos da Entrada de 1581, não será decerto o caso do Arco dos Flamengos, um dos mais majestosos, mas não correspondendo à descrição de 1581 que o apresentava sob a forma de castelo. As principais colónias estrangeiras em Lisboa procuram claramente conquistar as boas graças do soberano, numa adulação sem limites, em que Filipe III é comparado a Hércules, pelos flamengos, a Júpiter, pelos italianos, a Beleforonte, pelos alemães… 
            Os arcos portugueses, pelo contrário, com excepção de um grupo escultórico que mostrava Filipe III como “Júpiter Espanhol” aniquilando quatro titãs que simbolizam os mouros, são bem mais discretos nos louvores, apresentando até pequenas “provocações”. Há de tudo, desde a natural glorificação da História e dos antigos reis de Portugal, à muito mais directa alusão à velha aliança com a Inglaterra, lembrada nas imagens e emblemas do Arco dos Mercadores (Fig.2), com as suas quatro frentes, de uma das quais saía a Rua das Virtudes, marginada por estátuas dos heróis portugueses, que conduzia ao Arco dos Ingleses. Para a construção do Arco dos Mercadores a Câmara de Lisboa teve de ordenar a demolição de algumas casas, o que mostra a sua importância no conjunto simbólico promovido pela autarquia. Kubler vai mais longe e defende que “esta posição de destaque dada aos Ingleses se destinava a recordar ao rei que o pretendente ilegítimo ao trono de Portugal, D. António (prior do Crato) conseguira com os Ingleses, em 1580, uma aliança contra Filipe II. Outras alusões à importância da ilegitimidade na histórica dinástica do País eram sublinhadas nas cenas representadas no interior do arco dos mercadores.”


            Não ficou a visita de Filipe III por Lisboa. Abandonada a ideia original de reunir as Cortes em Tomar — a exemplo de 1581 — e reunidas estas na Capital, o rei não deixou de visitar a Vila do Nabão. Pretendendo recepção idêntica à que seu pai recebera, enviou instruções à Câmara, tanto quanto às cerimónias pretendidas e seu aparato, como quanto às decorações, folguedos públicos e arranjos nas casas e ruas degradadas…  Não se cumpriu tudo de acordo com os régios desejos, pois a verba era curta… Mas lá se deu andamento ao que foi possível, e é Lavanha que descreve a Entrada de Filipe III em Tomar, em 15 de Outubro de 1619: “O rei entrou pela Várzea Grande, um espaçoso campo com muitas danças, e desde o lugar onde se apeou do coche ao começo da linda Alameda, e tomou o cavalo, até à entrada da Vila, estava feita uma alameda de copadas árvores, e ao fundo dela um arco galantemente ornado, cujos remates eram as Armas Reais de Portugal, a Cruz da Ordem de Cristo e em meio a Imagem de Santa Iria, Padroeira de Tomar. Houve à entrada do Arco as costumadas cerimónias das chaves, o discurso e Pálio, levando de rédea o cavalo em que ia Sua Majestade, D. João de Sousa, Alcaide-Mor de Tomar […]”. Findas as cerimónias da praxe, o cortejo prosseguiu caminho para o Convento de Cristo, sempre no meio das decorações festivas que se podem adivinhar pela referida carta de instruções: janelas ornamentadas com “alcatifas e colchas boas, e com sedas, as melhores que se puderem achar” já que foi permitido não se armarem as ruas “por não haver para isso o material necessário”…
            As Embaixadas ao papa ou a outros grandes príncipes assim como os casamentos reIs e até os monumentos fúnebres são outras tantas formas de proporcionar uma especial forma de Triunfo, voltado para a propaganda de um País através da figura reinante, o monarca. Como no caso das Entradas Régias, trata-se de um espectáculo alegórico da sua fama e poder.

IMAGENS:
1. Lisboa “As Festas do Mar” de 1619, na Entrada Régia de Filipe III (desenho de Domingos Vieira Serrão, gravura de Hans Schorkens)
2. Arco dos Mercadores, na mesma Entrada (gravura de Juan Bautista Lavanha).

domingo, 2 de junho de 2019



HOMENAGEM À NATUREZA POR UMA 
CRIANÇA DE 8 ANOS

HÁ 64 ANOS, MAIS COISA MENOS COISA


quinta-feira, 30 de maio de 2019



ARQUITECTURA EFÉMERA EM PORTUGAL. 

DAS ORIGENS AO RENASCIMENTO

Carlos Rodarte Veloso

“O Templário”, 30 de Maio de 2019


             Sempre sentiram todos os governantes do mundo a necessidade de glorificar os seus actos, de conquista ou de afirmação do poder político. Daí nasceram algumas das mais famosas obras da História da Arte: templos e palácios, acompanhados de grande número de obras menores— estelas, obeliscos, lápides — e majestosos monumentos funerários de que as pirâmides foram o cúmulo, glorificação do herói morto, ressuscitado para a glória eterna.
            Os povos da Antiguidade exaltaram as suas sangrentas vitórias militares com a construção de portas cerimoniais, como as de Babilónia, os pilones dos templos egípcios e os arcos triunfais dos Romanos. Estes arcos em pedra são réplica de outros construídos em materiais perecíveis como o eram os elementos festivos — pendões, escudos e outros ornatos — dispostos ao longo dos Triunfos, longos cortejos festivos em que os generais e legiões vitoriosas, acompanhadas pelos magistrados, exibiam perante o povo de Roma os troféus conquistados, os povos escravizados e os chefes vencidos destinados ao sacrifício. Os arcos de triunfo em materiais duráveis viriam a ser construídos na sequência desses Triunfos, para os comemorar e perpetuar (Fig.1).
            Um milénio depois, com o Renascimento, vai a Itália ressuscitar esses antigos ritos, em cortejos e procissões bem mais pacíficas, como as de Carnaval, ou em Triunfos quase apenas simbólicos, sob a forma de carros alegóricos ricamente decorados dedicados às Virtudes, ao Amor, a Cidades, Rios, Mares ou Continentes, misturando elementos pagãos e cristãos, bem como os provenientes das Descobertas, tudo sob formas clássicas. Arcos levantados ao longo do percurso transfiguravam a paisagem urbana, apesar dos materiais “pobres” de que eram feitos: madeira, pano, gesso, um pouco como os elementos decorativos ainda hoje usados em festas populares como arraiais, procissões, comemorações… Muitos deles são conhecidos através de documentos escritos ou iconográficos, alguns de grandes pintores como Ghirlandaio, Botticelli, Mantegna, Rafael ou o português Domingos Vieira Serrão, ou presentes na grande arquitectura que neles se inspirou, como em Alberti e Bramante.
            Depois do triunfo de César Bórgia, em 1500, ao longo das ruas de Roma, a moda destas encenações invade a Itália e, logo, toda a Europa. Pequenos e grandes artistas contribuem com a sua criatividade para o êxito destas festas. Veronese, Vasari, Dürer, Perugino, Pontormo, Bronzinho, Verrocchio, Palladio, João de Ruão, Canevari e Ludovice, estes três em Portugal, e tantos outros, são os construtores desta arquitectura fictícia, hoje desaparecida como é de sua natureza.
            Há um tipo de cerimónia medieval que mantém a continuidade entre os triunfos romanos e as encenações renascentistas. São as Entradas régias, festas associadas ao fortalecimento do centralismo monárquico que vão prolongar-se, sob formas cada vez mais faustosas, no período absolutista. Estas “entradas” tinham lugar quando um monarca visitava uma cidade ou vila pela primeira vez no seu reinado ou em qualquer ocasião especial, como um casamento real ou uma vitória militar.
            Tratava-se, como explica Ana Maria Alves, de um cerimonial que incluía duas componentes: “a primeira é a do conjunto de rituais que dramatizam a situação contratual entre o Poder Real e a Cidade, ou seja, entre o rei e a burguesia urbana; a segunda, a do conjunto de festas de hospitalidade e boas vindas. Da primeira encarregavam-se o rei e a Câmara, da segunda a Câmara, os ofícios e eventualmente as freguesias e comunas de judeus e mouros”.
            A “espontaneidade” medieval, mais teórica do que real pois era descrita pelos cronistas de serviço como a manifestação mais espontânea e pura da alegria popular perante a paternal visita de Sua Majestade, vai sendo gradualmente substituída por uma intervenção cada vez mais directa da propaganda régia. Essa tendência coincide com o reforço do estado absolutista, que vai dar origem a uma tal teatralização do Poder que, no final do século XVI e em toda a Europa, surge o libreto de entrada descrevendo a decoração construída em honra do régio visitante, com um relevo muito especial para a arquitectura efémera, seus encomendantes e significado simbólico, acompanhado, frequentemente, de poesia apologética das altas virtudes e vitórias, reais ou imaginárias, do monarca. Esta memória dos festejos permitiu superar parcialmente a precaridade própria da Festa e dos seus suportes materiais
            Em Portugal verifica-se uma muito lenta introdução destas novidades, mantendo tais manifestações, até à época filipina, um carácter marcadamente medieval. Mais que por uma arquitectura efémera, apenas excepcionalmente utilizada, estes festejos caracterizam-se pelo uso de carros alegóricos e, obviamente, pelo rico vestuário utilizado pelos participantes.  


            A construção da Porta Especiosa da Sé Velha de Coimbra (Fig.2) integra-se num conjunto de obras de reestruturação urbana ordenadas pelo bispo D. Jorge de Almeida, nos princípios de Quinhentos. É seu autor João de Ruão, que a teria edificado a partir de 1530.
            Relacionado — ou não — com isso, teria sido a Entrada solene de D. João III em Coimbra, em 1526. Esta Entrada foi precedida de alguns meses de preparativos e adiamentos e deixou boa memória na Cidade por ter preparado a reforma do Mosteiro de Santa Cruz e, assim, a instalação definitiva da Universidade em Coimbra, em 1536.
            As celebrações e festividades, repetidas no ano seguinte com a Entrada da Rainha, foram marcadas, sabemo-lo, pela representação de três Autos por Gil Vicente. A construção da referida porta, plenamente integrada no gosto da Renascença Coimbrã, poderá ser marca dessas visitas.
            Esta possibilidade, autorizada ainda pelo facto de ter sido construído, na Sé de Lisboa, aquando do casamento do infante D. João, em 1551, um portal fingido “de Romano”, em pano de algodão, fez Rafael Moreira pensar que a “Porta Especiosa” seria precisamente a passagem à pedra de uma estrutura efémera ao gosto renascentista.
            A dar força a essa hipótese, o gosto extraordinário de D.João III por tudo quanto vinha de Itália e a presença como vereador da Câmara de Coimbra, do grande humanista Francisco de Sá de Miranda, acabado de chegar da sua célebre viagem a Itália (1521-26), durante a qual percorreu Milão, Veneza, Florença, Roma, Nápoles e a Sicília. De facto, “será caso para perguntarmos que outra espécie de decoração poderia Sá de Miranda ter desejado para a sua cidade que não fossem os arcos-de-triunfo e as armações ‘à antiga’ que se usavam em Itália… E já agora, ainda sem sair do domínio das hipóteses: não teria João de Ruão, que poucos meses depois nos aparece plenamente integrado na vida coimbrã, sido o responsável pela parte artística do programa, autor das tão vistosas quão efémeras arquitecturas alegóricas em madeira e pano, de que as ruas e casas, nessas ocasiões se revestiam — trabalho que lhe serviria de 'lançamento', e bastaria, porventura, para justificar a brilhante carreira que veio a ter?”
            As Entradas Régias da época renascentista ganham gradualmente, em toda a Europa, uma cada vez maior importância no quadro das relações entre os cidadãos que as pagavam e os soberanos, adquirindo um carácter de “fête bourgeoise” destinada, muito claramente, à obtenção do favor real em troca de hospitalidade. Esse favor real podia passar pela correcção de abusos das classes privilegiadas, a confirmação de determinados privilégios ou isenções das comunas ou concelhos, abolição de impostos, concessão de novos direitos…

IMAGENS:
1.      Arco de triunfo de Tito, Roma.
2.      Porta Especiosa da Sé Velha de Coimbra (Obra de João de Ruão).

sábado, 25 de maio de 2019


DUAS CARTAS DE RESPOSTA À DESAVERGONHADA "DEFESA" DE 
JOSÉ HERMANO SARAIVA NO "EXPRESSO" DE 12 DE JANEIRO DE 1996
Carlos Rodarte Veloso para Orgulho do 17 de Abril
uele jornal sobre a sua "inocência" no tratamento dos estudantes de Coimbra na crise de 1969 e o "mito" das cargas policiais! Junto envio a página do "Expresso" com as referidas cartas. Para que a "pequena História"não esqueça.

quinta-feira, 23 de maio de 2019



A EUROPA NUMA ELEIÇÃO PEQUENINA

Carlos Rodarte Veloso

“O Templário”, 23 de Maio de 2019

As próximas eleições para o Parlamento europeu têm-se caracterizado, pelo menos em Portugal, por uma campanha anémica em termos da abordagem do tema principal em causa, ou seja, a política que se deseja para este órgão colegial, num momento em que a própria ideia da União Europeia se encontra fragmentada entre os diversos poderes políticos dos 28 estados que (ainda) a compõem.
Esta oportunidade única de fazer inflectir a teoria e a prática desta comunidade de Estados tão poderosa económica e demograficamente, como frágil em termos políticos e estratégicos, no sentido de ocupar o lugar que lhe compete no concerto das nações, depende única e exclusivamente de nós todos, os Portugueses incluídos, na definição da natureza política, social e cultural que a Europa deve assumir.
São bem conhecidas as divisões que opõem as políticas dos diversos estados europeus, hoje não limitadas à clivagem Esquerda/Direita tradicionais, mas abrangendo a Extrema-direita populista, manifestamente em crescimento sob a pressão de uma opinião pública manipulada pelo medo de uma anunciada “invasão” de imigrantes, dominantemente muçulmanos, desejosos de nos converter à sua religião e aos seus costumes e, assim, de alterar radicalmente a nossa maneira de viver.
Se bem que as massas de imigrantes em causa manifestem muito maior fragilidade do que agressividade, e até utilidade em termos económicos, junto de populações europeias em grave crise demográfica, os lamentáveis casos da pressão de minorias fanáticas que convertem algumas zonas urbanas em territórios em grave conflito étnico, servem de pretexto para ondas de xenofobia que não olham às diferenças entre os culpados e as vítimas.
É evidente a importação dos maiores medos em relação aos “outros” que “invadem” o Ocidente ter a marca do grande “dedo” norte-americano, desde a instalação na Casa Branca de Donald Trump, inimigo confesso da União Europeia – e não só – e que tem promovido a união das diversas forças antieuropeístas – dentro da própria União Europeia! – através do seu caixeiro viajante da intriga, Steve Bannon, cuja ideologia próxima da nazi lhe valeu a alcunha de “Leni Riefenstahl” do movimento de extrema direita “Tea Party”.
Mas voltando ao caso português e dado que até ao momento não parecemos atingidos por esses males, na nossa campanha eleitoral para o Parlamento europeu, os diversos partidos com representação parlamentar têm-se entretido quase exclusivamente a zurzir o PS, incluindo os partidos da Esquerda associados à chamada “Geringonça”! É evidente que tanto o PCP como o Bloco de Esquerda procuram assim distanciar-se minimamente do Governo para uma de duas coisas: tomar como mérito exclusivamente seu todas as medidas do Governo favoráveis às classes trabalhadoras e acusar obsessivamente a alegada aproximação entre o mesmo Governo e o PSD, para assim ganharem um espaço eleitoral que lhes permita ganhar posição para outras eleições – as eleições “importantes” – que serão as Legislativas. PSD e CDS limitam-se a atacar permanentemente todas as iniciativas do PS, assim como os seus “erros” passados, presentes e futuros!
Mas falar da política europeia, do Brexit e da sua incidência sobre a economia da União e, ao menos, da situação dos nossos emigrantes no Reino Unido, da gravíssima questão da imigração, da própria representatividade dos diversos Estados no Parlamento europeu e das suas regras de funcionamento, dos grandes problemas internacionais como as relações com os Estados Unidos da América, a Rússia, a China, a Turquia ou o Brasil, da situação na Venezuela, do crescimento da influência da Extrema-direita e das limitações à Democracia, da questão climática e das energias alternativas, nada disso!
E nem uma palavra sobre os doze partidos nacionalistas europeus reunidos em Milão por Matteo Salvini para preparar uma aliança nacionalista parlamentar após as eleições europeias, que poderá vir a ser a terceira força política no futuro Parlamento europeu…
Com estas e outras ameaças sobre as nossas cabeças, vemos a ridícula presidente do CDS e o seu valete, Nuno Melo, a pavonearem a sua irresponsabilidade em relação à sua “brilhante” acção na coligação com Passos Coelho, enquanto Rui Rio procura distanciar-se desse legado, mas com o lamentável acompanhamento de Paulo Rangel, o mais demagógico, incompetente e destituído dos agentes masculinos desta Direita inconcebível… mas sempre atacando o PS por tudo e mais alguma coisa! Um PS com um brilhante desempenho nacional, mas também quase omisso quanto à questão europeia, aquela que devia ocupá-lo dominantemente neste momento.
Vamos conversar sobre a Europa?

quinta-feira, 16 de maio de 2019



JÁCOME RATTON E TIMÓTEO VERDIER: SEU 

PAPEL NA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL EM TOMAR

Carlos Rodarte Veloso
“O Templário”, 16 de Maio de 2019

No 135º Centenário da Escola Jácome Ratton

            O arranque da revolução industrial em Tomar data da época pombalina, mas há importantes antecedentes: de há muito se utilizava a energia hidráulica na moagem de cereais e da azeitona, e nas chamadas ferrarias, manufacturas de armamento diverso cujas ruínas viriam a ser reaproveitadas, já no século XIX, para a criação de diversas fábricas de papel, área de produção hoje em crise mas de grande tradição nesta região.
            A criação, em 1759, da Real Fábrica de Chapéus, marca o início da actividade manufactureira em Tomar. Em 1789, o governo de D. Maria I entrega a Jácome Ratton e ao Engº. Timóteo Verdier a administração da Fábrica de Meias de Lã e Algodão, que viria a converter-se na Real Fábrica de Fiação e Tecidos de Tomar.
            Em 1793 e devido ao desentendimento entre os sócios, ambos interessados no controlo total da empresa, Verdier fica senhor da fábrica, o que não lhe evitou o peso de problemas de diversa índole, especialmente económicos. A causa residiria especialmente na concorrência do fio inglês que entrava livremente em Portugal. Seja como for, Verdier viu-se obrigado a alargar a sociedade, o que viria a trazer novos conflitos pela hegemonia que, por fim, acabariam, principalmente, por atingi-lo.
            Em Dezembro de 1798, uma grande cheia no Nabão causou importantes estragos no açude que movia as respectivas máquinas, facto já antes ocorrido.
            É pouco antes que o naturalista alemão Link, em viagem científica por Portugal, se encontra com Verdier, provavelmente em Agosto de 1798.
            Verdier é personagem verdadeiramente controversa: homem de grande cultura, insigne camonista, industrial empreendedor, pessoa conflituosa e dotada de grande orgulho e teimosia, ficou desacreditado e, por isso, expulso de Portugal sem processo nem sentença por ter dado apoio à primeira tentativa de criação de um regime constitucional no nosso país, quando, em 1808, durante a 2ª invasão francesa, assinou com os diversos vereadores da Câmara de Tomar uma petição dirigida a Napoleão Bonaparte solicitando uma Constituição para Portugal que, na prática, levaria à entrega do Reino nas mãos de “príncipe” da sua confiança, provavelmente Junot.
            Na verdade, fosse ou não a ideia da sua autoria, acabou por ser o bode expiatório deste acto de traição que, sendo colectivo, acabou por lhe ser assacado individualmente, já que os restantes vereadores, na sessão de 29 de Outubro desse ano, decidiram em reunião do Senado Municipal, que fossem riscadas de modo “a que jamais se possa ler a coacta e violenta emissão de votos e suas assinaturas” o que, convenhamos, foi bastante oportuno para os “patrióticos” senadores, deixando o orgulhoso Verdier isolado, para mais sendo de origem francesa…
Seja como for, Verdier foi exilado, indo primeiro para Marrocos e depois para França, onde colaborou com o Morgado de Mateus na sua edição d’ “Os Lusíadas” que, segundo consta – embora sem provas documentais – teria traduzido para o Grego antigo. Publicou, ainda em Paris, entre outros escritos, a 1ª edição de “O Hissope” do cofundador da Arcádia Lusitana, António Diniz da Cruz e Silva, poema heroi-cómico que prefaciou e anotou, redigido ao estilo épico da obra-prima de Camões. O tema do poema é uma conflito de cariz fortemente ridículo sobre o cerimonial litúrgico, entre o bispo de Elvas e o deão da mesma Sé, temática anticlerical muito do agrado de Verdier, segundo o testemunho de Link e de um outro visitante de Tomar, o poeta britânico Robert Southey, que relatam o seu espírito crítico em relação às procissões, ao espírito beato do povo e ao fenómeno dos flagelantes, então ainda praticado em Tomar (VELOSO, Carlos, Tomar setecentista na obra de viajantes estrangeiros, História, Arte, Indústria, Tomar 1988).


Southey descreve o encontro com Verdier, numa carta dirigida a Charles Denvers, em 28 de Março de 1801:
“Em Tomar fomos recebidos por um Francês, o Sr. Verdier, a quem eu já escrevera, – um homem com uma erudição e um espírito fora do comum, que desperdiçou os seus talentos e fortuna para montar uma grande manufactura de fiação de algodão. A esposa é muitíssimo inteligente. Têm vários filhos, os quais falam quatro línguas que a mãe lhes ensinou, assim como música e desenho. Aqui pude festejar com os meus pratos predilectos de conversação [com os meus temas de conversa preferidos]. Esta era uma família como algumas que surgem, por vezes, nos romances, mas que, na verdade, nunca tinha encontrado. Ao diabo a manufactura! Um homem que devia estar à frente de uma grande nação, a manejar moinhos e rodas”.
Além destes actos de cariz cultural com que difundiu e elevou os valores literários de Portugal em França, foi um dos que, com o Duque de Lafões, fundaram a Academia Real das Ciências de Lisboa, instituição fundamental para o progresso na investigação e difusão da Ciência e da Técnica no nosso país.
Tido como arquitecto de talento, “edifícios ainda hoje existentes na [extinta] Fábrica de Fiação e o canal da mesma que lhe são atribuídos, atestam indiscutivelmente q sua competência […] Teria também prestado serviço dessa especialidade no Convento de Cristo, em virtude dos laços de amizade que o ligavam ao D. Prior ” (GUIMARÃES, Manuel da Silva, História de uma Fábrica. A Real Fábrica de Fiação de Thomar, Santarém, 1976). Também o Palácio Alvaiázere, construído no lugar onde fora fundada, em 1771, a antiga Fábrica de Meias de Le Maître, junto à Várzea Grande, será, provavelmente, obra de Verdier, tendo sido escritório da Fábrica de Fiação e, de 1911 a 1975, Quartel-general da Região Militar de Tomar. Destruído por um incêndio nesse ano, foi parcialmente reconstruído.
Uma palavra acerca da mulher de Verdier, Helena Frizioni Verdier, também de origem francesa, atrás referida pela sua inteligência e cultura, que conseguiu a reabertura da Fábrica, encerrada após a expulsão do seu marido, mantendo-se na sua direcção até 1819.
A sua direcção foi prejudicada pela hostilidade dos ingleses, depois da expulsão das tropas francesas dominantes nos órgãos o poder, a quem não interessava qualquer concorrência industrial, para mais num sector estratégico como era o têxtil.
O “pecado” de Verdier, o ser liberal convicto, não impediu a muitos outros, alguns dos quais chegaram a acompanhar Napoleão nas suas derradeiras campanhas militares, a obtenção de altos cargos, prestígio e poder, com o advento do Liberalismo. Até cargos políticos de monta. Os seus nomes são celebrados na toponímia de todo o país, quando não foi o bronze dos escultores a imortalizá-los. Mas Verdier, homem notável e que soube ser coerente com os seus ideais, um dos que ajudaram Tomar a crescer, e defendeu e divulgou no Estrangeiro a nossa Cultura, um dos criadores da primeira das instituições científicas de Portugal, aqui, em tempos recentes, apenas lhe deram direito à “sua” rua, próximo da fábrica, continuando, contudo, quase desconhecido e marginalizado!
Criador com Ratton da Real Fábrica de Fiação e Tecidos de Tomar, que foi, até ao seu encerramento em 1993 e à sua dissolução em 2012, a mais antiga fábrica de fiação do mundo, a memória de Verdier dissolveu-se na poeira do tempo. Com o seu encerramento é virada uma importante página na revolução industrial portuguesa.
No entanto, estes dois homens, unidos pelos valores do progresso tecnológico e social e apesar das suas diferenças que ditaram o afastamento mútuo, marcaram poderosamente a época anterior às invasões francesas.

quinta-feira, 2 de maio de 2019


ORIGENS DO TURISMO
Carlos Rodarte Veloso
"O Templário", 2 de Maio de 2019


Para além dos muitos viajantes que na Antiguidade se deslocavam, não apenas como aconteceu com mercadores, soldados, pastores ou aventureiros, muitas cidades, monumentos ou eventos ganharam uma tal notoriedade que justificavam, só para os ver, viagens a grandes distâncias: Babilónia, Delfos, Olímpia, Atenas, Alexandria, Roma, ou as Sete Maravilhas do Mundo eram outros tantos pólos de atracção de multidões.
Um interesse muito “moderno” pela viagem como factor de formação, encontramo-lo já em Heródoto de Halicarnasso, conhecido como “o pai da História”, que visitou no século V a.C. o Egipto, a Babilónia, a Pérsia e outros países do Próximo Oriente pela pura e simples razão de querer conhecer e registar “os feitos dos homens, com o tempo”. Ele próprio conta a história do célebre governante ateniense Sólon, famoso pela sua sabedoria – um dos “Sete Sábios da Grécia”- que antes dele viajou para fora do seu país, para o Egipto e Sardes, “movido pelo gosto de saber e pela vontade de conhecer muitos países”…
Marco Polo, o famoso veneziano que atravessou toda a Ásia no século XIII, deu continuidade a gerações de viajantes que, umas vezes comerciando, outras combatendo, foram conhecendo outros povos e culturas, cidades lendárias e impérios desconhecidos. O seu famoso livro, que constava da biblioteca do Infante D. Pedro, filho de D. João I e um dos homens mais cultos do seu tempo, em muito contribuiu para criar nos Europeus uma curiosidade que só a descoberta do mundo poderia saciar… e bem sabemos o quanto esse apelo foi sentido e correspondido pelos Portugueses!
Mas a ideia de Turismo como hoje o entendemos, nasceu muito mais tarde, já entre o século XVII e o XVIII, quando entre os filhos da aristocracia e da alta burguesia britânicas se institucionalizou o costume, já com raízes antigas e não só na Inglaterra — o caso do nosso Infante D. Pedro, ainda no século XV, é exemplar —, de ser considerada incompleta a educação de um homem que não tivesse viajado pelo Estrangeiro.
Um famoso príncipe europeu do século XVII, Cosimo de Médicis, herdeiro do Grão-Ducado da Toscana, viajou também pela Europa acompanhado por um brilhante séquito de 27 pessoas, terminando o seu último périplo em Portugal em 1669.
A viagem tinha manifestado objectivos diplomáticos, procurando o príncipe documentar-se sobre a recentemente assinada paz de Portugal com Castela, na sequência da Guerra da Restauração, em que a inesperada vitória de um pequeno país após 28 anos de guerra com uma potência de primeira grandeza, espantava toda a Europa. Entretanto, quatro dos seus acompanhantes elaboraram interessantíssimos diários de viagem e um pintor deixou uma riquíssima colecção de vistas de todas as cidades e vilas visitadas…
Interessa-nos especialmente o relato oficial da viagem, da autoria do conde Lorenzo Magalotti e a colecção de aguarelas do pintor Pier Maria Baldi, por incluírem a passagem por Tomar e uma vista panorâmica da nossa cidade - v. imagem (VELOSO, Carlos, “Um príncipe florentino em Tomar, no rescaldo da Guerra da Restauração”, Boletim Cultural e Informativo da C. M. Tomar, pp.47-55).




Eram o príncipe florentino e os seus acompanhantes legítimos precursores do Grand Tour, expressão francesa universalmente aceite no século XVIII designando a viagem de enriquecimento cultural a que apenas uma elite tinha acesso e que daria origem à palavra turismo.
Dizia nas suas Memórias publicadas em 1746, o viajante português Pedro Norberto d’Aucourt e Padilha, decerto resumindo o sentir da sua época: “Não poderás negar que as jornadas foram as primeiras escolas, e os que corriam terras, os primeiros sábios”. Do mesmo modo expandia-se entre as classes dominantes da Europa a ideia de que conhecer na prática outras geografias, outros povos e as suas maravilhas artísticas era o atributo do verdadeiro cavalheiro, do “gentleman”, tornado verdadeira imagem de marca do Reino Unido.
Como vemos, o turismo, na época em que nasceu, associava os objectivos culturais mais exigentes com a fruição da viagem como prazer, o que não seria difícil a pessoas que viajavam com grande desafogo económico. Mas, para estes pioneiros, viajar era um caso muito sério: era uma escola do mundo e da vida, fundamental para a sua preparação para as funções que os esperavam no regresso à pátria, como dirigentes políticos, diplomatas, armadores, grandes negociantes, administradores, quando se não limitassem a gozar os rendimentos, mas sempre brilhando em sociedade…
Os alvos mais procurados dos britânicos eram, por ordem aproximada de preferência, a Itália, a França, seguindo-se o Império, alguns estados germânicos e só depois, muito depois, os países periféricos como a Espanha e Portugal, mesmo assim em segundo plano perante escolhas mais “exóticas” como a Terra Santa, o Egipto ou a Grécia…
De facto, a travessia dos Pirenéus era considerada aventura de monta, a que não faltavam perigos bem reais: estradas impraticáveis, assaltos frequentes, instabilidade política e social, intolerância religiosa, prepotência das autoridades, burocracia levada aos limites do… impossível! E se a Espanha, mesmo assim, era relativamente bem conhecida, o nosso País era tido como uma província espanhola e a nossa língua um idioma do Castelhano!
A esse turismo sofisticado, de elites, sucedeu o de massas, ao mesmo tempo que o Planeta como que se contraía… A actual afluência a Portugal de milhões de turistas, embora enriqueça o país em preciosas divisas, trouxe um sem-número de problemas com que actualmente nos defrontamos, nomeadamente ao nível da degradação do património, construído e natural, mas principalmente na área social, com a população mais modesta das grandes cidades a ser empurrada dos centros urbanos para as periferias pela ocupação das suas casas pela próspera e gananciosa indústria turística.