domingo, 18 de dezembro de 2016


Um Natal no século XXI
Carlos Rodarte Veloso
Publicado no Cidade de Tomar, 12-12-2008
(Um texto corrigido que, passados 9 anos, não perde a actualidade)

            Na quadra que vivemos, neste século tido como tão esperançoso antes, como decepcionante depois do seu início, o Natal mantém ainda a imagem onírica de um Tempo do Nunca, disfarçando com os cenários diáfanos que todos os anos constrói, uma realidade cada vez mais nua e crua. Cada vez mais feia.
            E isso no aniversário fictício de um Menino que não nasceu decerto em 25 de Dezembro, nem sequer no ano 1 da nossa era, e que morreu e ressuscitou aos 33 anos, para nos salvar. A fé terá aqui a palavra definitiva, porque ninguém se pode sentir salvo apenas por causa de um exemplo de auto-sacrifício levado ao extremo, de uma individualidade cuja vida e acções são testemunhadas apenas por uns tantos Evangelhos, entre canónicos e apócrifos, na maior parte contraditórios entre si.
            E é precisamente nesta imprecisão histórica que reside o encanto poético de um nascimento cercado de profecia e sortilégio, numa terra pobre dominada por estrangeiros. Todas as épocas tiveram a sua pequena Belém, berço de ideias contrárias às do senso comum. Ideias que acabam por ganhar voz, ganhar força, ganhar poder. Porque é sempre de Poder que se trata.
            Não foi o Menino, nem o Homem a que deu lugar, que construiu esse Poder. Foram os que, mansa, melifluamente, se apoderaram do seu legado de bondade e amor, e o converteram em força. Numa grande força que tão bem soube forçar os espíritos e os corpos. Assim pôde construir um mundo à medida dos seus interesses, sempre em nome dele... Em nome Dele, porque nem a inicial minúscula permitiram à sua humildade!
            Passaram dois mil e tantos anos sobre essa noite mágica que construímos no âmago de nós próprios, daqueles que um dia se chamaram cristãos. E mesmo os cada vez mais distantes da fé original, perguntam-se se não estarão bem mais próximos dessa tradição de bondade e amor, do que os canónicos senhores da Verdade, que erguem em público as cruzes que em privado desprezam.

            Por isso, recolho o musgo e a areia com que vou cobrir os caminhos sinuosos do Presépio, como Francisco de Assis e os seus Irmãos, irmãos também dos animais e do vento, do sol e da chuva... E a Noite, a luminosa Noite, contemplará, uma vez mais, esse símbolo de paz, justiça, fraternidade.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016


VALDÉON, O ÚLTIMO LUGAR
Publicado n’O Templário de 15 de Dezembro de 2016

Há um canto da Península Ibérica que é verde todo o ano e os seus prados e arvoredos são protegidos, como por muralhas inexpugnáveis, por altas montanhas, onde restos da neve invernal se mantém pelo Verão fora. As aves de rapina, deslizam num azul docemente velado por névoas quase perpétuas ou, violentamente, por nuvens pesadas de chuva, cujas franjas exibem fantásticos jogos de luz e sombra.
Esse vale, o vale de Valdeón, é "el ultimo lugar", como nos diz, encantada, uma mulher de meia-idade, procurando as impressões dos seus visitantes, como todos pródigos em adjectivos. E não é preciso fazer qualquer esforço para acreditar nas evidências. É mesmo "o último lugar", no mundo caótico e tão perigoso em que vivemos, em que o próprio acto vital de respirar é uma aventura. Aqui é possível encher os pulmões de um ar fresco e leve, e caminhar pelas veredas do vale ou da montanha, em que cada passo, cada vista, é um desvendar de maravilhas.
A fauna, bem preservada, engloba desde a águia-real ao urso pardo, do lobo à camurça e à lontra, para citar apenas os animais mais emblemáticos. A flora é riquíssima, desde as espécies arbóreas nativas, dominadas pelo carvalho, a plantas de pequeno porte, cujas flores mais ainda embelezam estas terras.
Culturalmente, este espaço privilegiado revela fortes ligações às Astúrias, com as suas casas de varandas alpendradas e os famosos espigueiros de secção quadrangular ― os "hórreos" ― diferentes dos de Portugal e da Galiza, mas não menos belos. A língua nativa é defendida em inscrições nas paredes. Curiosamente é o nosso Mirandês a única língua oficial com estreito parentesco com o Leonês. 
É um local tão singular, que foi escolhido pelas tradições locais para ser o porto de abrigo de Europa, a bela princesa raptada por Zeus travestido num touro branco. O pai dos deuses deixou-a em Creta, depois de a fazer conceber o rei Minos, o pai longínquo da civilização helénica. Foi dessa ilha, onde era guardada pelo ciúme do deus, que um príncipe cântabro viajando pelo mundo em busca de esposa, a seduziu e resgatou, levando-a para a segurança do seu reino, cujas montanhas baptizou com o nome da bela esposa: Picos de Europa...
A história é bonita, mas o belo nome por que são conhecidas as montanhas terá antes sido dado pelos marinheiros vindos de longe que, ao avistarem os picos da Cordilheira Cantábrica, sabiam estar a chegar a casa, à Europa. Seja uma ou outra a origem do nome, a verdade é que foi neste espaço protegido pela natureza que cresceram povoados de pastores, gente dura, de espírito independente e indomável, e surgiu o nome de Valdeón. Situado na região de Leão, é vizinho próximo do Principado das Astúrias e da Região Autónoma da Cantábria.
O vale é percorrido pelo rio Cares, e vai estreitando para norte, ao mesmo tempo que a altitude passa de 950 metros, medidos na Posada de Valdeón, para 200 metros, já nas Astúrias, a quilómetros ainda da foz, no Mar Cantábrico, depois de atravessar um desfiladeiro profundo. Este desfiladeiro chama-se a Garganta Divina e é difícil conceber a beleza agreste deste percurso, que termina na aldeia de Caín, emparedada por novas montanhas e onde as águas do Cares repousam, alimentadas agora por cascatas de água fresca, preparando a continuação do longo percurso que conduz ao mar. É esse também o percurso de caminheiros de diversos países, irmanados pelo amor que esta região lhes mereceu.
Este lugar merece bem ser conhecido. Mas, se o visitar, respeite-o!
Carlos Rodarte Veloso

crodarte veloso@gmail.com


Fotografias de Jaime Martins Veloso





Fotografias de Jaime Martins Veloso

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016


SER PROFESSOR


Publicado n’O Templário de 8 de Dezembro de 2016

 

Já fui professor em quase todos os graus do ensino. Agora reformado, conto quase trinta e sete anos no Básico, no então chamado Unificado e no Politécnico. E também em formações várias nas áreas mais diversas. Algumas das experiências que guardo, que não esqueço, deixaram-me amargos de boca... e ensinamentos. Assim as tenha sabido aproveitar. As boas recordações – tantas – são hoje difusas, porque os casos felizes não têm história.
De vez em quando, inesperadamente e nos locais menos prováveis, encontro a cara reconhecida de um nome já esquecido ou ainda na ponta da língua. Agora, no Facebook, a presença virtual dessas caras materializa recordações, sentimentos, e a memória, de novo desperta, ultrapassa a falta física e preenche as lacunas do tempo. Porque os alunos não foram todos iguais, por muito isentos que sejamos na nossa avaliação. E foram tantos.
Uns, operários, muitos no comércio ou nos serviços, alguns – poucos – agora meus colegas, outros na rua, sem ocupação certa, engrossando o cancro nacional que se chama desemprego jovem.
Se fui feliz na minha profissão? Com todos os obstáculos, o cansaço mesmo, os momentos de desânimo são casos menores. A desilusão é mais com os altos poderes que partem e repartem matérias, turmas, obrigações burocráticas, com o mais inacreditável desconhecimento da matéria-prima que pensam modelar. Os que destroem sonhos. Os que esqueceram os seus próprios sonhos. Os que corrompem a própria essência do acto de ensinar, transformando-o num mero exercício de estatística.
Porque ser professor é olhar de frente, sem disfarce, esses outros olhos que interrogam ou, simplesmente, esperam. Desde a primeira aula. É bem mais fácil quando interrogam, pois fazerem-no implica, desde logo, tornarem-se membros desse mistério que se chama aprender. Aprender a pensar.
Mas para os que apenas esperam, quantas barreiras há no caminho dos olhos antes que um clarão os ilumine. De parte a parte. E quantas vezes, sem que o calor do entendimento se acenda.
Por isso, ser professor é uma lenta iniciação no caminho do outro. Num caminho que só pode fazer-se caminhando. A par, porque também o orientador é orientado. E como são sábias as palavras: orientar, ou seja, a caminho do oriente, do nascente. Que é como quem diz, das origens. Numa relação que é feita de partilha, de cumplicidade e, tantas vezes, de amizade. Onde tudo começa, rumo ao futuro. Para que haja um futuro.

 

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016


HUMBOLDT, PRECURSOR DO AMBIENTALISMO


Publicado n’O Templário de 1 de Dezembro de 2016

 

 

No tempo de Napoleão Bonaparte, Humbolt foi o segundo homem mais famoso do mundo, recebido em triunfo em nações tão díspares como os Estados Unidos da América, a França, Espanha e algumas das suas colónias americanas, a Rússia, a Grã-Bretanha e, evidentemente, a sua Prússia natal. No entanto, é hoje um quase desconhecido.

A publicação em 2015 da sua biografia e das relações que estabeleceu com outros vultos da época, bem como de quanto a sua obra influenciou cientistas e intelectuais que lhe foram posteriores, é um importante passo para a recuperação do seu lugar na história das Ciências e também da Europa e da América onde desempenhou um papel ímpar no estudo da Natureza e na defesa do Ambiente.

 Trata-se da obra, “A Invenção da Natureza. As aventuras de Alexander von Humboldt, o herói esquecido da ciência” da investigadora Andrea Wulf, já publicada em Português (Temas e Debates/Círculo de Leitores, 2016), obra essa apaixonante e apaixonada, que revela as múltiplos aptidões deste cientista que é claramente um precursor da Ecologia e da defesa do Ambiente.

O nosso herói, barão prussiano nascido e falecido em Berlim entre 1769 e 1859, foi um fabuloso “globetrotter”, não apenas pelas suas diversas viagens pelo mundo, mas no sentido mais global de “cidadão do mundo”, pela influência que exerceu na própria vida política, científica e dos países que visitou.

O carácter universalista da sua cultura abrange os mais diversos ramos do Saber, como a Física e a Química, a Mineralogia e a Geologia, a Vulcanologia, as Línguas Estrangeiras, a Anatomia e a Astronomia e conhecimento profundo dos instrumentos científicos, depois da fase da sua formação académica nas áreas das Finanças e da Economia, que odiava.

Homem de uma tenacidade inquebrantável, infatigável nas suas viagens, simpatizante e apoiante de Darwin e do Darwinismo e dos seus seguidores,  amigo de Simão Bolivar que influenciou fortemente para a libertação da América hispânica do jugo de Espanha, deixou no país natal amigos tão fiéis como Goethe, Schiller, Gauss e os irmãos Grimm e foi mecenas de outros poetas e escritores como Heinrich Heine, Ludwig Tieck e Klaus Groth. O seu irmão, Willelm vom Humboldt, hoje mais famoso que ele próprio, linguista e ministro, foi-lhe sempre muito próximo e uniu-os uma amizade inquebrantável, mesmo quando milhares de quilómetros os separavam.

O seu interesse pela Geologia, levou a uma profissão, quase imposta pela sua despótica mãe, a de assessor das Minas em Berlim, que lhe deu a possibilidade de criar uma escola de formação para mineradores, paga do seu bolso.

A morte de sua mãe em 1796 libertou-o das amarras que o impediam de sair da Alemanha, ele que desde jovem sonhava com as viagens, especialmente depois de uma estadia em Londres onde a visão dos milhares de navios que enchiam o Tamisa – cerca de 15.000 por dia – e de homens como William Bligh – comandante da “Bounty” de triste memória –  e Joseph Banks, botânico do capitão Cook na sua primeira viagem à volta do mundo, lhe aguçaram ainda mais o interesse pelas viagens.

De facto e servindo-se da sua grande fortuna, o seu interesse pelas viagens e e as ciências, levou-o a efectuar percursos históricos que, além das milhares de milhas que percorreu, incluem outros milhares de jornadas terrestres, muitas vezes a pé ou em mulas, para visitar uma das suas grandes paixões, algumas das mais famosas montanhas e todos os vulcões existentes nas rotas palmilhadas.

O seu extrordinário espírito metódico e matemático permitiu-lhe relacionar os seus achados em diversos países e continentes, elaborando teorias que se revelaram muito consistentes, ao ponto de prever e descobrir riquezas mineralógicas em estratos geológicos da Sibéria em consonância com o que observara e registara na América do Sul.

Intuiu também, genialmente, a ideia da “Deriva dos Continentes”, pondo a “mexer” as massas continentais ao longo das falhas sísmicas hoje bem conhecidas, causadoras de terramotos e da formação de montanhas, quando as teorias até então dominantes apontavam apenas para a acção da acumulação milenar de sedimentos.

Mas a sua contribuição mais consistente e que mais reflexos tem nos dias de hoje, é a percepção aguda dos malefícios que o colonialismo europeu, ao “domesticar” as suas possessões na América do Sul  ao sabor de interesses económicos que apostavam na exploração agrícola de grandes latifúndios de monocultura – algodão e açúcar por exemplo – em detrimento das culturas indígenas e das florestas tropicais, que começou a destruir, alterou radicalmente a paisagem física e humana, empobrecendo os respectivos povos.

Um dos efeitos perversos das investigações de Humboldt durante a sua estadia na América do Sul, ele que divulgou generosamente todas as suas descobertas, foi ter involuntariamente proporcionado a Jefferson, presidente dos EUA, as informações que este país depois utilizou na guerra contra o México, para ampliar consideravelmente o território estado-unidense.

A sua admiração em relação a Jefferson era apenas ensombrada pela existência de escravos nas suas propriedades, prática que este apoiava abertamente e Humboldt naturalmente repudiava.

Do mesmo modo, na Europa, a destruição da Natureza era um dado mais do que adquirido: desaparecidas algumas das suas maiores florestas, secas importantes regiões pantanosas a favor de uma agricultura intensiva destinada a alimentar uma demografia galopante, ele denunciou um evidente empobrecimento dos recursos naturais e o crescimento da poluição urbana, antecipando-se em mais de um século às conclusões preocupantes da segunda metade do século XX e aterradoras deste início do terceiro milénio.

Seria fastidioso alongar-me na relação das extrordinárias descobertas deste herói do século XIX, cujo nome foi atribuído a uma dúzia de espécies zoológicas e botânicas até então desconhecidos na Europa e que ele descreveu nas suas explorações, e também de rios, cadeias de montanhas e, até, ao “mar” lunar baptizado “Mare Humboldtianum” e ao asteróide 54, agora denominado “Alexandra”.

A sua obra mais influente foi, “Cosmo: Um Esboço da Descrição Física do Universo”, depois de tantas outras, capitais para o conhecimento do planeta Terra.

Entre cientistas e filósofos que foram seus contemporâneos, destaca-se, entre muitos outros que influenciou, Charles Darwin, outro genial cientista que com “A Origem das Éspécies” revolucionou o entendimento da Natureza e da Humanidade com o Evolucionismo. Outros se lhe seguiram, e apenas indico os referidos por Andrea Wulf: Henry Thoreau, George Perkins Marsh, Ernst Haeckel, inventor do termo Oecologie que derivou para Ecologia e John Muir.

Por todos os motivos apontados e por se tratar duma das personalidades históricas mais originais e fascinantes dos sáculo XIX, com um pé no Romantismo e outro no espírito científico mais rigoroso, é quase obrigatória a leitura desta excelente biografia cujas 544 páginas se lêem de um fôlego.

Carlos Rodarte Veloso

crodarte veloso@gmail.com


 



 

sexta-feira, 25 de novembro de 2016


O Dilúvio de 1967

Publicado n’O Templário de 24 de Novembro de 2016

Faz no próximo Sábado 49 anos sobre as terríveis cheias que atingiram a região de Lisboa, especialmente entre Sintra e Vila Franca de Xira.
A chuva iniciada às 17 horas de 25 de Novembro, foi aumentando de intensidade até à noite, , criando durante a madrugada uma torrente irresistível que tudo alagava, destruindo muros, pontes, partes de prédios ou prédios inteiros, fábricas, edifícios públicos, provocando derrocadas de terras nas encostas, submergindo caves e andares mais baixos, arrastando automóveis, pessoas e animais e acabando por matar, segundo números oficiais da época – época de censura prévia, não esqueçamos – umas 500 pessoas.
Entre outras povoações arrasadas, uma aldeia inteira atingida por uma tromba de água, ficou submersa na lama. Desaparecida do mapa, Quintas, no Ribatejo, contou com apenas 50 sobrevivente dos seus 200 habitantes.
Tendo sido a maior catástrofe natural que atingiu o nosso país desde o Terramoto de 1755, a imprensa pôde desenvolvê-la mais do que o habitual, até por não haver nessas notícias qualquer perigo contra a segurança do Estado. Causas naturais dificilmente poderiam ser atribuídas ao “Reviralho” ou aos “Comunistas”, designações habituais para todos quantos discordassem minimamente do regime salazarista...
Claro que também havia causas humanas para tamanha catástrofe: a anarquia da construção civil, que ocupava as linhas de água com edifícios de discutível qualidade que funcionaram como barragem às enxurradas, assim aumentando a subida do nível das águas para valores inacreditáveis. Também a existência dos famosos bairros de lata, cuja superpopulação era especialmente vulnerável a tal tipo de desastres e, especialmente, a pobreza e consequente péssima qualidade da habitação popular na zona atingida.
Face à grandeza do desastre e à situação calamitosa das populações atingidas e sendo manifestamente insuficientes o meios disponíveis – bombeiros, hospitais, as próprias forças armadas e militarizadas – nos dias subsequentes mobilizaram-se instituições civis, algumas das quais não estariam propriamente nas boas graças do governo. Nesse âmbito, as associações académicas das universidades e liceus de Lisboa, mobilizaram grande número de estudantes para levar auxílio às zonas mais atingidas.
Eu próprio participei nessas jornadas de solidariedade, integrado que estava no curso de Medicina e membro activo da Pró-Associação dos Estudantes de Medicina – pró-associação, porque o Ministério da Educação não a reconhecia oficialmente... – associação esta que sentia especialmente a responsabilidade dos futuros médicos em relação a causas humanitárias.
No entanto, colegas de todas as outras faculdades integraram esse movimento cívico, que levou desde logo as autoridades a acusarem-nos de estarem a aproveitar politicamente a desgraça alheia...
Seja como for, multidões de estudantes, por todos os meios disponíveis, dirigiram-se aos campos inundados e às casas sinistradas de toda a vasta área atingida, sob o olhar atento e não demasiado amigável das forças militarizadas, para limpar as lamas acumuladas nas casas e para prestar primeiros socorros e vacinar contra a cólera as populações, em grave risco de  saúde.
Curiosamente, os encontros dos estudantes com unidades das Forças Armadas também mobilizadas, pautaram-se por mútua simpatia. Havia entre eles uma noção de missão cívica que as manobras dos políticos situacionistas não impediram.
Para além do serviço prestado às populações em perigo, os estudantes, maioritariamente oriundos das classes média e alta, tiveram o seu primeiro encontro com uma realidade que o regime escondia, o país real da miséria, da privação, do desprezo pelos pobres e necessitados, da falta de recursos higiénicos e sanitários...
Prestei esse serviço cívico voluntário em Santana da Carnota, Ribatejo, e abriram-se-me mais os olhos para uma realidade que só conhecia na teoria. Agora já não era nos panfletos clandestinos que denunciavam o estado do país de Salazar que podia basear-me, mas na vida em directo. Eu e centenas de outros estudantes...
Dois anos depois, estava a estudar em Coimbra onde vivi intensamente a Crise Académica de 1969, sendo depois punido com a antecipação do recrutamento para o Serviço Militar. Esta “punição” funcionou como tudo aquilo que o regime inventou para dissuadir a “subversão”: as Forças Armadas politizaram-se e vimos os oficiais do quadro a confraternizar com os subversivos de poucos anos antes, no Continente e nas Colónias.

Em parte, considero que o 25 de Abril de 1974 teve algumas das suas raízes nesse terrível Novembro de 1967, quando centenas de estudantes, calçando galochas, entraram impetuosamente na dimensão proibida da miséria em Portugal.




Fotos de Carlos Rodarte Veloso

quinta-feira, 17 de novembro de 2016


Um branco bronco na Casa Branca

Publicado n’O Templário de 17 de Novembro de 2016

E aconteceu o impensável: o patético racista, xenófobo, machista, anti-intelectual e fanático religioso, o amante das armas e dos combustíveis fósseis, o arqui-inimigo dos Ecologistas e consequentemente, do Ambiente, o bronco que no início da campanha eleitoral estado-unidense só dava para rir a bandeiras despregadas, é o novo inquilino da Casa Branca!
Há muitas lições a tirar desta desgraça mundial, pois disso se trata:
A desunião dos defensores dos valores democráticos, que preferiram digladiar-se a unir-se a partir do momento em que Hillary Clinton, limpamente ou não, ultrapassou Bernie Sanders nas Primárias. E isto apesar dos apelos de Sanders a essa mesma união!
A ingénua crença dos democratas adversos a Hillary de que, mesmo ficando no descanso dos seus lares no dia da eleições, o próprio comportamento – ou falta dele... – de Trump o levaria à sua automática derrota. As sondagens, essa grande distorção da Democracia, ajudaram a essa crença fictícia.
A repetição “ad nausea” de todos os lugares comuns utilizados durante décadas pelos políticos dos States, que Hillary, sem brilho nem muita convicção debitou durante toda a campanha. A própria pneumonia – ou seja o que for – de que sofreu durante a campanha, o que permitiu a Trump atribuir-lhe uma suspeita de incapacidade. Os “faits divers” que abrangem o empolado assunto dos emails “contra a segurança”, além dos telhados de vidros que a Esquerda sempre viu nas negociatas, reais ou imaginárias da candidata.
Mas o que mais fortemente uniu a Direita daquele país e a levou a cerrar fileiras, foi a política de seguros de saúde (o “Obamacare”) arrancada a ferros por Obama, e a sua luta contra o ultrapoderoso lobbie das armas, o quase credo dos norte-americanos, nostálgicos ainda de um Far West de parque temático, em que os índios morriam sempre enquanto os brancos implantavam a bandeira das “stars and stripes” em territórios selvagens. Sempre de revólver em punho.
Embora em menor grau, tem sido apontado o fanatismo do “politicamente correcto” que tudo invadiu nos últimos anos, que acaba, pelo exagero e, muitas vezes, pelo ridículo, por contribuir para os seus anticorpos: o desejo do regresso aos “bons velhos tempos” em que era incentivada toda a “liberdade” de linguagem, especialmente dedicada às minorias, às mulheres, às “outras” religiões, aos socialmente desfavorecidos, aos fracos deste mundo, isto é, exactamente o linguajar que este “empresário de sucesso” utiliza a torto e a direito. Essa sua condição é mais um ponto a seu favor no país que se considera, ele próprio, uma grande empresa.
Aliás, este carácter de “vencedor” de Trump, associado à sua basófia por ter enganado propositadamente o fisco do seu país, valeu-lhe um ainda maior apoio em todos os grupos de cidadãos  ressentidos. Olha um político europeu a gabar-se de vigarice!... Mais valia abandonar de vez todos os cargos públicos! Mas nos EUA, é mais uma condição “sine qua non” do valor da chico-espertice...
Agora aqui estamos nós, Europeus, a lamber as feridas desta derrota da Democracia, causada pela arrogância e a imprudência de um povo que não é o nosso, muitas vezes aliado mas, na maioria das vezes, o “padrinho” que tudo quer controlar e que habilmente manipula, explora, despreza... Não apenas a Europa – nem por sombras o elo mais fraco na cadeia mundial – mas todo o Mundo, com a excepção dos seus poderosos concorrente – Rússia, China, Índia – e dos mais fracos, não-alinhados, de que Cuba constitui um bom exemplo.
Qual será a resposta desta Europa dividida, no seu momento mais fraco, em que apenas a Alemanha – apesar da sua tradicional submissão aos Aliados transatlânticos – e da França, exprimiram opiniões à margem dessa diplomacia servil? Infelizmente não imagino sequer a possibilidade de uma União Europeia coesa perante os novos “valores” a instituir pela Casa Branca. Na verdade já diversos países europeus se passaram para o “lado negro da força”, ao fecharem as suas portas aos refugiados instituindo ghettos, levantando muros, erigindo políticas anti-sociais... E isto chama-se Fascismo!
Em 9 de Novembro de 2016, 27 anos depois da demolição do Muro de Berlim, Dia da Liberdade, e 78 anos depois da Noite de Cristal dos nazis, é muito sintomática a eleição deste bronco como presidente do país mais poderoso do mundo. Será a História a fazer uma trágica inversão de marcha ou, antes, mais um motivo para que os Povos de todo o Mundo comecem a enfrentar os tiranos que nos crescem debaixo dos pés como cogumelos?

quinta-feira, 3 de novembro de 2016


Do desconcerto do mundo

Publicado n’O Templário de 3 de Novembro de 2016

Já não há dia em que não seja anunciada a próxima extinção de uma espécie, animal ou vegetal, em qualquer dos continentes ou nos oceanos deste nosso tão belo planeta.
As únicas coisas que parecem predestinadas à eternidade são o petróleo e a ganância humana, ambas perfeitammente dispensáveis, a primeira por haver manifestamente meios técnicos e científicos para a sua substituição por combustíveis compatíveis com o ambiente e, assim, com a nossa própria espécie, esta em crescimento contínuo, com todas as bençãos das diversas religiões, baseadas em textos bolorentos escritos quando a Terra estava ainda fresca e os animais falavam.
Quanto à ganância, é mãe de diversos outros males, o maior dos quais é o capitalismo que tudo esmaga no seu curso: vidas e dignidade, o ambiente, a liberdade, a beleza do mundo.
Assim como os frios cada vez mais glaciais no Inverno anunciam o aquecimento global, argumento demagogicamente aproveitado por todos os contentinhos do mundo que assim atacam os ecologistas ao mesmo tempo que inviabilizam as medidas que urgem para salvar o ambiente, também o crescimento descontrolado das populações do Terceiro Mundo vive paredes meias com a diminuição da população do “Primeiro Mundo”, dando argumentos à tristemente célebre divisa do “crescei e multiplicai-vos...
É este o ponto da situação em que nos encontramos, enquanto massas populacionais em fuga desesperada batem à porta dos engravatados povos da Europa e da América do Norte.
O que poderia ser uma oportunidade para os continentes em crise demográfica, ao mesmo tempo salvando as vidas de tantos dos nossos semelhantes confrontados com conflitos sangrentos atiçados pelos actuais centros de decisão mundiais, já não apoiados pelos governos nacionais, mas por uma massa obscura de interesses e lealdades ao bendito cifrão, é malbaratada em favor de egoismos locais e da recusa de apoio a este Próximo, agora denunciado como grave perigo para a “Civilização” precisamente por estar tão próximo das comodidades desfrutadas, apesar de tudo, por apenas uma pequena parcela deste cintilante “primeiro mundo”.
No fundo, trata-se do “desconcerto do mundo” que o nosso Camões tão bem caracterizou na sua famosa esparsa ao desconcerto do mundo, há quatro séculos e meio:

Os bons vi sempre passar
no mundo graves tormentos;
e, para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.

sábado, 1 de outubro de 2016


O ego de Sócrates

Publicado n’O Templário de 29 de Setembro de 2016

O nosso ex-primeiro ministro Sócrates tornou-se uma das figuras mais controversas da cena política portuguesa, em boa parte devido à sua dificuldade em controlar as emoções, por legítimas que possam ser.
É claro as acusações que lhe são feitas são de uma enorme gravidade mas, sem a conclusão do respectivo julgamento, quaisquer considerações sobre as mesmas são totalmente ilegítimas. Do mesmo modo, parece-me que as declarações públicas do juiz Carlos Alexandre deveriam ter sido mais contidas, por muito que este senhor sofra de uma excessiva pressão mediática.
A intervenção de Sócrates na Universidade de Verão do PS, parece configurar uma tentativa patética de reabilitação política levada a cabo por militantes “socráticos”, em antagonismo claro com quantos apoiam António Costa.
Que a intervenção de Sócrates trazia “água no bico” está bem patente no ataque que faz ao governo devido à proposta de lei sobre o sigilo bancário, sem se aperceber sequer de que parece estar a ser, neste caso, juiz em causa própria, quando a anunciada conferência seria sobre Política Externa e Globalização, tema bem distante do que veio a tratar.
Há aqui uma estranha defesa do sigilo, quando este apenas visa os particulares detentores de mais de 50 mil euros nas suas contas bancárias, decerto muito abaixo da média portuguesa.
Sendo assim, como encaixa aqui Sócrates o bizarro raciocínio sobre o Estado a tornar-se uma espécie de papão orweliano que tudo quer controlar, quando mais não faz do que ir ao encontro da legislação em uso em muitos dos nossos parceiros da União Europeia?
Mas adiante: Se não podemos falar de aspectos relacionados com a odisseia judicial de Sócrates, já parece muito justo que se ponha em causa o homem político que ele é e as consequências das suas políticas que, não sendo muito diferentes das dos seus antecessores, parecem coincidir com o afundamento económico do país, afundamento esse muito agravado com a “austeridade” do governo de Passos Coelho.
É exactamente o que faz a deputada Ana Gomes, quando considera prejudicial para o Partido Socialista a prematura rentrée política de Sócrates na vida partidária, não esperando ao menos “que a justiça faça o seu curso”, e quando acusa a Federação de Lisboa do PS de assim ser “conivente com as efabulações de Sócrates”.
Estas declarações, mereceram ao visado a classificação de “repugnantes”, o que mais ainda acentua o carácter pessoalíssimo com que encara a vida política e provam o quanto se encontra ressabiado com a falta de apoio que sentiu de António Costa durante a sua prisão.
Parece que Sócrates se prepara para causar o maior embaraço possível ao partido em que, pelos vistos, quem não está com ele, é contra ele. Trata-se de uma conclusão bastante salazarenta num homem que se declara, a todo o momento, como de Esquerda...
Carlos Rodarte Veloso


sexta-feira, 23 de setembro de 2016


E se Trump vence?

Publicado n’O Templário de 22 de Setembro de 2016

Uma pneumonia de Hillary Clinton foi suficente para a fazer perder a sua posição maioritária nas sondagens para as eleições estado-unidenses! Nós, que vivemos num país onde uma doença infecciosa hoje perfeitamente curável, como uma pneumonia, em nada diminui as possibilidades de acesso de um candidato a um cargo político, profissional, ou outro, temos o dever de estranhar, neste povo paradoxal de que somos os mais próximos vizinhos intercontinentais, a volatilidade das suas opiniões, maioritariamente para um cargo da responsabilidade do de Presidente.
Já seria suficientemente estranho a proximidade entre o número de intenções de voto na candidata democrata e no republicano, dadas as características inacreditáveis deste último. De facto, no pacote de anormalidades em que Donald Trump se vem notabilizando,  o menos importante é decerto o seu aspecto físico, desde a postura matarruana à inacreditável cabeleira amarela.
O que notabiliza Trump, como é por demais sabido, é a sua estupidez e o seu reaccionarismo agudo, esse decerto incurável, cuja prossecussão no mais alto cargo político dos EUA – poderia dizer, mundial – só pode fazer pensar em xenofobia com altos muros levantados na fronteira, perseguições raciais e religiosas, hostilidade para com o exterior e, paradoxalmente, uma aproximação à Rússia de Putin (!), ainda maior liberalidade quanto ao comércio de armas de fogo e ao domínio do capitalismo mais agressivo, anti-intelectualismo, anti-ciência...
Este homem, em suma, é um poço de problemas, mas não só ao nível interno. Poderíamos dizer dos estado-unidenses: se o querem, eles que se amanhem! Só que o problema é de âmbito mundial e o delicado equilíbrio de forças num Médio-Oriente a ferro e fogo, não apenas no capítulo do terrorismo, mas também no perigoso jogo levado a cabo entre a Turquia – agora só faltava a Turquia! – e as forças em presença na Síria, lembra perigosamente os pesadelos de uma Guerra que foi chamada “Fria”.
Por outro lado, este Velho Continente que pensávamos ser o exemplo mundial e moral a seguir, multiplica agora os muros transfronteiriços, anos apenas depois de celebrar estrondosamente a queda do muro de Berlim, assim voltando as costas às vítimas de séculos de política imperialista ocidental que deixou na miséria povos inteiros, que agora lhe batem à porta em grave perigo de sobrevivência.
Um Trump no poder nos EUA seria a cereja em cima do bolo nesta crise de que não se vê fim à vista. Aliás, os sintomas internacionais, geo-estratégicos, o que quiserem, cada vez mais se assemelham aos de vésperas da Segunda Guerra Mundial, embora com o “tempero” do terrorismo e de novidades tecnológicas que tornam a situação ainda mais perigosa, de que faz também parte a política agressiva e cada vez mais armada, de uma Coreia de Norte cujo actual líder em muito se assemelha ao candidato republicano.

Assim, as eleições nos EUA são tudo menos inócuas para o resto do mundo. Delas dependem a manutenção daquele país como um relativo factor de estabilidade ao nível mundial ou, pelo contrário, o seu mergulho de cabeça na vertigem de uma guerra que, pelos piores motivos, poderá ser a última travada pela espécie humana.