sexta-feira, 16 de novembro de 2018



O ÓDIO AOS POBRES (2)
Carlos Rodarte Veloso

“O Templário”, 15 de Novembro de 2018


(CONTINUAÇÃO) 

Há também um número razoável de africanos, decerto descendentes dos antigos escravos que por aqui trabalhavam nas charqueadas, a indústria da salga da carne. Aqui bem perto existem ainda as ruínas de um quilombo, o do Morro de Quinongongo, local de fuga e resistência dos escravos fugidos, hoje apenas do interesse de historiadores e arqueólogos. São hoje evidentemente “livres”, mas mantém-se a sua herança de pobreza, vivendo a maioria na periferia. 

Relativamente às casas de habitação mais representativas, estas raramente ultrapassam um piso de altura, com uma fachada que pouco excede a largura de uma porta e duas janelas, são invariavelmente rematadas por uma platibanda recortada e esculpida. Também as cores, geralmente vivas e contrastantes, aumentam o pitoresco das ruas de Pelotas. Um exemplo pobre desta tipologia está aí, em imagem, uma sede local do PT, o Partido do Trabalhadores, então a três anos de distância do poder, que depois, tão dramática e polemicamente perdeu.


Mas para saborear os gostos e os olhares que marcam as diferenças, nada melhor que o comércio popular, dos restaurantes às lojas de produtos religiosos afro-católicos, como a Iemanjá da figura anexa, do mercado municipal ao comércio paralelo. 


Ver a recolha do lixo é um espectáculo desportivo, os funcionários a correr, à vez, atrás do camião, a apanhar os sacos em corrida… E os subúrbios nada têm que ver com a regularidade urbana do centro de Pelotas. Ruas que são caminhos serpenteantes de terra batida, ladeados por casas pequenas de um andar, muitas delas em cimento.
Em chocante contraste, aqui e ali, prédios altos com os telhados revestidos de arame farpado e torres de vigilância, algo que recorda graves clivagens sociais, aliás ilustradas por chocantes declarações de três jovens rio-grandenses das classes médias-altas, evidentemente brancas e racistas a um ponto inacreditável, que se horrorizaram no ano seguinte, ao visitar a nossa luminosa Lisboa, por ter que atravessar, “cheias de medo” um Rossio “cheio de pretos”!
Mais do que ódio racial, aqui bem documentado, o que me pareceu muito óbvio e bastantes vezes declarado, foi a atitude de “ódio aos pobres” revelado por gente bem colocada socialmente nessas comunidades do Sul. Inacreditável, no País do multiculturalismo! Entre os jovens estudantes que contactámos, essas atitudes negativas pareciam mais diluídas, embora se não possam comparar com as relações mais abertas existentes nos Estados do Norte.
Isto não explica nada, no contexto destas tão estranhas eleições brasileiras, em que os pobres forneceram todas as armas – literalmente! – aos seus inimigos mais figadais…

quinta-feira, 8 de novembro de 2018


O ÓDIO AOS POBRES (1)
Carlos Rodarte Veloso


“O Templário”, 8 de Novembro de 2018


Visitei, no final do ano 2000, a cidade de Pelotas, no Estado mais meridional do Brasil, Rio Grande do Sul, integrado num grupo académico do Instituto Politécnico de Tomar. Comemorava-se, então, o quinto centenário da chegada de Pedro Álvares Cabral a “Terras de Vera Cruz”, um dos nomes com que foi baptizada essa terra que ainda nem sonhava a extensão, nem a riqueza que o futuro lhe destinava.
Nesse ano do achamento, era ainda um país de sonho que emergia das brumas de um éden reconquistado, quem sabe se uma derradeira oportunidade de iludir o pecado original, de apaziguar o tremendo Velho dos Dias e fundar o Reino de Deus na Terra… Mas era tudo ilusão, ou melhor, era quase tudo ilusão… Passaram-se os anos e novos herdeiros desse pecado, já tão pouco original, encheram a terra e povoaram-na. Terra Prometida, como toda a América, acolheu gente de todo o mundo, em busca de fortuna, acotovelando-se e acotovelando os últimos nativos, que se foram retirando, na ponta de baionetas, para o sertão, depressa substituídos, no trabalho escravo, por milhares de africanos, os escassos sobreviventes de viagens de pesadelo no bojo das nossas naus transatlânticas.
Às cidades de raiz portuguesa foram-se juntando novas cidades, de influência italiana, alemã, espanhola, enquanto libaneses, japoneses, ingleses, descendentes dos escravos africanos e gente de mil outras desvairadas origens, juntavam as suas culturas a esse efervescente caldo cultural que, é afinal, todo o Brasil.
Pela beira da estrada sucediam-se manadas intermináveis de bovinos, enquanto junto às chácaras, improvisados postos de venda expunham cebolas e outros produtos agrícolas, enquanto espaços arborizados nos mostravam oliveiras, figueiras, pinheiros, tudo bem ao nosso jeito, sinal de que este território, embora com características subtropicais, se encontra na zona temperada do sul.
As origens portuguesas e a posterior fixação de numerosos imigrantes provenientes dos Açores e outras províncias lusas, dá-lhe um certo ar familiar, visível em muitas das suas casas
No mercado, bem parecido com as nossas feiras, em que o plástico e o “made in China” dominam cada vez mais todo o comércio popular, algumas barracas rompem com a “invasão” asiática vendendo chás, ervas diversas, cascas de árvores e raízes e, claro, o mate, erva de que se faz a famosa bebida gaúcha que constitui um hábito bem enraizado em toda a população.
A praia atlântica mais próxima da velha cidade de Rio Grande é Cassino, pequena povoação que acompanha a extensa faixa de areia, plana como uma larga estrada, que vai morrer nos molhes da barra, grandes pedras amontoadas penetrando quatro quilómetros pelo mar dentro.
A primeira coisa que vimos, à entrada da povoação, foi uma grande imagem de Iemanjá, a venerada deusa africana das Águas, a quem rezavam, ajoelhadas, duas mulheres. As semelhanças com o culto mariano não se ficam pelas aparências imediatas e exteriores. Há mesmo um paralelismo assumido, na religião afro-americana a que se chama Macumba, entre esta divindade marinha e a catolicíssima Nossa Senhora, como o há entre as outras deidades africanas, para aqui trazidas pelos escravos negros, e o próprio Cristo e muitos dos santos do calendário litúrgico, o Diabo incluído… Religião popular, religião de resistência
Marca desses cultos, que já conhecia das saborosas leituras de Jorge Amado, ramos de flores e moedas depositadas na areia, na orla das ondas, constituem respeitosa oferenda que a leve ondulação marinha vem beijar. E é agora o extenso areal que percorremos, com o chão tão plano e tão duro como uma pista de aviação, que bicicletas e carros de todos os tamanhos nele deslizam como na auto-estrada! … Até o nosso ónibus, bem pesado, nele desliza, bem rente à orla da maré baixa, até que o distante molhe se torna próximo e se vislumbram estranhas caranguejolas deslizando sobre carris, munidas de vela triangular, como se de barcos se tratasse…

Foto de C. Veloso - À vela sobre carris

É este mais um indício dos recursos inesperados a que uma população em dificuldades pode lançar mão para melhorar a vida. As vagonetes à vela (ver imagem), como que tiradas das páginas de Júlio Verne, são decerto um complemento para os magros meios de muitos, mesmo nestes bem pouco estivais meses de Verão.
Além de História e estórias, que são tantas, é nas ruas da cidade de Pelotas que encontramos aquele sabor único que só o Brasil pode proporcionar, principalmente nesse tempo quente que Dezembro oferece, tão em contraste com a quadra natalícia que se anunciava em cada “camelô” do Calçadão, com as gambiarras a acender e a apagar, presépios, estrelas e outros enfeites e uns Pais Natal (Papais Noel!) bem em carne-e-osso, suando copiosamente debaixo dos deslocados gorros e casacões vermelhos, guarnecidos de golas bem peludas!
E nesta terra gaúcha é a carne de bovino a imagem de marca em todos os restaurantes, nos grandes rodízios, em que a refeição não é barata como nos pequenos restaurantes populares, bem em conta, em que vimos uma mãe de família a negociar o preço do almoço, dela e de uma filha e em que se encontra o prato regional, carne na panela, de vaca, claro, cozinhada com feijão, e que feijão! …
Mas falta falar, mais detidamente, da gente que aqui se desloca num vaivém ininterrupto. Nestes estados do Sul predominam as etnias europeias, com predomínio dos luso-descendentes, mas também um bom número de descendentes de italianos, espanhóis, alemães, libaneses e, também, africanos e índios. Estes, que eram os senhores das terras do antigo Território das Missões, expulsos para outros lados depois das sangrentas campanhas luso-espanholas do século XVIII, estão reduzidos à miséria, e é fácil identificá-los nas bermas das estradas, em acampamentos improvisados com miseráveis tendas de lona e pedaços de plástico, a vender os seus artísticos cestos multicolores e as redes, vestígios de uma identidade que teima em sobreviver. (...)

quinta-feira, 1 de novembro de 2018



TEMPOS PARA D. QUIXOTE
Carlos Rodarte Veloso

“O Templário”, 1 de Novembro de 2018

Há uma ideia-feita, construída ao longo de quatro séculos, de que o herói de Cervantes, D. Quixote da la Mancha, o leitor que desvairou os sentidos na leitura dos livros de Cavalaria medievais e acabou por encarnar um desses cavaleiros, era louco varrido. Na verdade, o magnífico texto dessa obra imortal parece apontar para um grave problema de percepção da personagem principal, que confunde moinhos com gigantes e vê inimigos e injustiças a todo o momento, actuando em conformidade e por isso sofrendo as consequências.

"D.Quixote e Sancho Pança, 
gravura de Lima de Freitas

Necessariamente complementar a presença a seu lado do seu fiel “escudeiro”, Sancho Pança, um burguês que o segue sem qualquer convicção, antes movido pelas promessas de feudos, dinheiro e glória, bolas de sabão que a sua ignorância não identificava como logros, embora visse claramente vistas as armadilhas da razão que assolavam o entendimento do seu amo.
Um e outro ignorantes:  D. Quixote, do “novo mundo” em que vivia, de que há muito se tinham evaporado os Lancelotes, Percivais, Rolandos e outros cavaleiros andantes das fábulas medievais, fumo dentro do fumo, criados ou recriados apenas pela imaginação de férteis aedos, que confundiram misericordiosamente a brutalidade e venalidade dos barões com as regras da Cavalaria – posteriormente inventadas… – que aliás, nunca corresponderam à verdade histórica. Do outro lado, a ignorância de Sancho Pança que, embora provido de uma dose considerável de senso comum, era completamente analfabeto culturalmente.
Esta associação aparentemente espúria de idealismo com calculismo, da ideologia cristã medieval com a ideologia capitalista moderna é uma excelente e muito expressiva construção dos vícios e virtudes de duas épocas que chocam frontalmente uma com a outra.
Será então D. Quixote apenas uma figura patética, cómica ao ponto de ridícula, como é vista – e tratada – por outras personagens que com ela contracenam, e Sancho Pança a voz da razão, a crítica interna ao “sono da razão” a que se referiu o grande Goya, anos mais tarde? O tal “sono da razão” que produziu monstros?
Mas, afinal, que monstros aparecem nesta obra literária, nascidos do desvario da razão? Os moinhos, tomados por gigantes ameaçadores, perfeitamente impávidos perante a heroicidade do cavaleiro, entes mecânicos imbuídos de maldade, uma premonição da civilização das máquinas que hoje nos invade, nos nivela como uma multidão de súbditos de novos Sanchos Pança?
Mas D. Quixote não se rebaixou ao seu poder, não se rebaixaria jamais, antes daria o peito ao golpe fatal para não ser escravo. Como dizia Dolores Ibárruri, La Passionaria uma sua compatriota do século XX, “mais vale morrer de pé, do que viver de joelhos” ou Unamuno, pouco depois, também no contexto da Guerra Civil de Espanha, assinou a sua sentença de morte ao responder a Millan Astrey, o dirigente fascista que gritara “Viva la muerte!” na Universidade de Salamanca:
“Há circunstâncias em que calar-se é mentir. Acabo de ouvir um grito mórbido e desprovido de sentido: Viva a morte! Este paradoxo bárbaro é para mim repugnante. O general Millan Astray é um doente. Isto não é falta de cortesia. Cervantes era-o também. Infelizmente, há hoje, em Espanha, demasiados doentes. Eu sofro ao pensar que o general Millan Astray possa lançar as bases de uma psicologia de massas. Um doente que não tem a grandeza espiritual de um Cervantes procura habitualmente conforto nas mutilações que produz à sua volta.” Dirigindo-se em seguida pessoalmente a Millan Astray : “Vencereis, porque possuís força bruta mais do que a suficiente. Mas não convencereis. Porque, para convencer, seria necessário que persuadísseis. Ora, para persuadir, precisaríeis de ter o que vos falta em absoluto: a Razão e o Direito na luta. Considero inútil exortar-vos a pensar na Espanha. Tenho dito.”
Para revelar coragem não é necessário ser um D. Quixote, mas ajudaria muito, mais ainda num mundo que vê ressurgir os monstros de eras julgadas passadas, definitivamente passadas… Mas os pacatos moinhos que ainda restam em La Mancha podem descansar em paz. Os monstros do nosso tempo são bem outros!
Moinhos de Consuegra, Castilla La Mancha 
(foto de C.Veloso)

sexta-feira, 26 de outubro de 2018


QUANDO OS HINOS E OS SLOGANS CHEIRAM A SANGUE
Carlos Rodarte Veloso
“O Templário”, 24 de Outubro de 2018

            Todas as atitudes nacionalistas da história mundial dos dois últimos séculos requereram um poema épico que sublinhasse a sublimidade de cada nação e a sua vocação ao mesmo tempo libertadora e imperialista. É desses paradoxos que tem sido construída a história mundial, e são os hinos nacionais, muitos deles extraordinariamente belos e inspiradores, da autoria até de génios da música e da literatura, que hoje ouvimos muito prosaicamente nas finais olímpicas ou futebolísticas como símbolo dos países vitoriosos.
            Da glorificação das diversas nações, em termos desportivos ou para solenizar grandes realizações, não virá decerto mal ao mundo e esses hinos representam o elo de união entre comunidades por vezes separadas geograficamente, acalentando ao mesmo tempo a ideia da herança cultural única que cada povo representa.
            Vem isto a propósito do aproveitamento que um hino nacional concreto, o da Alemanha, veio a ter em contextos completamente diferentes da sua motivação original. Com a letra retirada da terceira estrofe do poema “Das Lied der Deutschen” (A canção dos Alemães) da autoria de Hoffmann von Fallersleben e a música extraída do “Quarteto do Imperador” de Joseph Haydn, foi o hino nacional popular do Império Alemão até ao fim da 1ª Guerra Mundial, sendo elevado a hino nacional oficial em 1922, sob a República de Weimar.
Com Hitler, a primeira estrofe da “Canção dos Alemães”, “Deutschland, Deutschland über alles” (Alemanha, Alemanha acima de tudo), de carácter fortemente nacionalista e agressivo, foi utilizada como hino nacional da Alemanha nazi. Em 1952 no rescaldo da vitória aliada na 2ª Guerra Mundial, a “Canção dos Alemães” foi reconhecida definitivamente como hino nacional da Alemanha Ocidental, sendo omitida a primeira e referida estrofe, considerada ofensiva.
A ideia de superioridade nacional – que vai gerar a ideia de superioridade racial – contida exactamente na versão nazi do hino alemão, ressurge em 2016, pela boca de Donald Trump, com “America First”, depois de desde o presidente Woodrow Wilson (1916) e de diversos movimentos isolacionistas contra a intervenção dos Estados Unidos nos assuntos europeus terem surgido naquele país.

Esse isolacionismo, recorrente em todos os momentos de crise internacional, mas nunca até aqui triunfante, parece agora bem cimentado pela ideologia de Trump e pelo apoio popular que lhe deu a presidência. Se ele se mantém só o futuro o dirá, mas o seu exemplo deu frutos amargos e, como temos visto, os recuos internacionais das democracias em diversos países, são sem dúvida inspirados neste “Big Brother” que envia testas de ferro para todo o mundo.
O efeito de imitação evidente surge agora no sul do continente americano, quando o candidato à presidência do Brasil, Jair Bolsonaro, baptizou a coligação que lidera como “Brasil Acima de Tudo, Deus Acima de Todos”. O carácter nacionalista, militarista, racista, xenófobo e ao mesmo tempo populista deste candidato, soma-se às suas atitudes falsamente cristãs, à imagem e semelhança do seu ridículo modelo estado-unidense.


Como se fosse pouco, ao mesmo tempo que Trump manifesta despudorada e estupidamente a sua ignorância ao gabar-se de ter “um instinto natural para a Ciência” herdado de um tio que dá aulas no MIT(!!!), que o faz negar as alterações climáticas, Bolsonaro segue na sua esteira prometendo o abandono pelo Brasil do Tratado de Paris, assim como de quase todas as medidas antes tomadas a favor do ambiente e dos direitos dos indígenas.
Trump ainda não tem forças paramilitares nas ruas dos Estados Unidos, mas Bolsonaro já as tem no Brasil. Parece que o imitador está “ultrapassando” o imitado, enquanto do alto das nuvens o espectro do Führer estende freneticamente o braço, numa ameaçadora saudação.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018


MAR E MARINHEIROS. 
O LADO AMARGO DAS DESCOBERTAS
Carlos Rodarte Veloso
"Correio Transmontano", 24 de Outubro de 2018
A extraordinária familiaridade entre Portugal e o mar parece explicar a precocidade da aventura portuguesa nos mares de todo o mundo, a bordo de frágeis embarcações, assim abrindo a uma Europa ainda estremunhada, horizontes bem mais vastos do que as lendas e fábulas medievais deixavam adivinhar.
Nau de Vasco da Gama na 1ª viagem à Índia
O prestígio que se encontra associado a esta aventura intercontinental não impediu que o seu principal agente, o Marinheiro, perdesse rapidamente, nos textos literários nacionais, a imagem francamente positiva dos primeiros escritos, nomeadamente d’Os Lusíadas. Passa então a assumir aspectos francamente negativos, em que se associam a brutalidade com a ignorância, a impiedade e a agressividade mais básicas. Essa imagem veio a ser radicalmente alterada com o advento dos nacionalismos dos séculos XIX e primeiro terço do XX, em total consonância com as ideologias romântica e nacionalista então em voga.
Porto de Lisboa em gravura de Theodore de Bry
A verdade é que, em plena época da Expansão, a “Carreira da Índia”, organização de poderosas esquadras destinadas a transportar as riquezas asiáticas para Lisboa e a Europa, corresponde a um surto crescente de naufrágios, em que tem um importante papel o factor humano: a negligência ou, até, a incompetência de muitos pilotos e outros responsáveis pela tripulação, o envelhecimento dos navios e seus equipamentos somadas à ganância de quase todos, tripulantes, militares e passageiros, prejudicam a estabilidade e a segurança indispensáveis a viagens de longa duração, em mares ora tempestuosos, ora com longas e mortíferas calmarias em climas insalubres. Aos erros humanos soma-se a violência organizada da pirataria e do corso, e o criminoso negócio da escravatura, fenómenos generalizados a nível planetário e a que nenhum povo marítimo escapou. 

As más condições de navegação dos navios portugueses são comentadas com uma curiosa mistura de indignação e admiração pelos corsários holandeses que se apoderaram do galeão Santiago, em 16 de Março de 1602, na Ilha de Santa Helena, depois de um combate de três dias:
“[…] que nação haverá no mundo tão bárbara e cobiçosa que cometa passar o cabo da Boa Esperança na forma que todos passais, metidos no profundo do mar com carga, pondo as vidas a tão provável risco de as perder, só por cobiça; e por isso não é maravilha que percais tantas naus e tantas vidas […].”

Dessa realidade multifacetada e contraditória, tanto no que se refere às causas de naufrágio, quanto à imagem do marinheiro português da Expansão, nos dão conta os diários de bordo, a literatura de viagens e de divulgação de naufrágios e curiosidades náuticas, a literatura popular ¬¬(mais conhecido como “literatura de cordel”) a própria religiosidade popular nas suas atitudes de devoção, e ainda a hagiografia associada às viagens e à protecção divina dos viajantes.
Mas tudo isso seria revisto no século XIX, quando ressurge a ideia da vocação marítima do povo português e das suas virtudes náuticas, com o seu auge no XX, com o ultra-nacionalismo de Salazar, que transformou a gente do mar em heróis e em santos, em figuras hieráticas, estátuas apenas…

Hoje começa-se a desmitificar as coisas. Nem santos, nem demónios… ou, melhor, anjos e demónios, ao mesmo tempo. Ou, simplesmente, seres humanos. Com os seus vícios e virtudes, culpados de naufrágios trágicos, culpados do encontro, tantas vezes trágico, de civilizações, culpados de ganância, crentes que ousam afrontar o desconhecido. Os marinheiros portugueses desvendaram o mundo, por isso não será herético falar em Descobertas. De parte a parte. Mais do que qualquer outro povo, eles abriram uma nova era, a da globalização. Para o melhor e para o pior.
NOTA FINAL: Este texto é a adaptação e resumo de diversos textos que publiquei entre 2004 e 2005, em comunicações a seminários e congressos, nomeadamente a conferência “Causes de naufrage dans les routes maritimes portugaises de l'ancien regime - de l'erreur humaine à la violence organisée” apresentada ao 4th International Congress of Maritime History, que decorreu em Corfu, Grécia, entre 22 e 27 de Junho de 2004.

A PROPÓSITO DE OBRIGAR (OU NÃO) AS CRIANÇAS A BEIJAR OS AVÓS

Carlos Rodarte Veloso

Acima de tudo, deixem as crianças em paz. Os beijinhos virão - ou não... - naturalmente e de acordo com a vontade delas. E deixem em paz quem tem uma opinião diferente da vossa... Principalmente, não ofendam gratuita e grosseiramente quem quer que seja. Podemos discordar - é um direito nosso, inalienável - mas é no diálogo civilizado e racional que reside a essência de milénios de civilização. O Paleolítico Inferior é uma época interessante, mas regressar a um estado de grunhido é, no mínimo, GRUNHO!

quinta-feira, 18 de outubro de 2018


E AGORA, ALGO COMPLETAMENTE DIFERENTE…
(AINDA A "DEMOCRACIA ORGÂNICA" DE SALAZAR)

Carlos Rodarte Veloso 

“O Templário”, 18 de Outubro de 2018

Qualquer resposta a um artigo de opinião deve corresponder minimamente à essência do discurso a que responde. Por só muito pontualmente corresponder a uma verdadeira resposta, e evitando a armadilha do combate de ideias em torno de “informações semi-confidenciais e muito pessoais em que o Dr. Sérgio Martins (doravante, SM) é fértil e que eu não poderei contestar pelos motivos óbvios, não vou responder à avalancha de “informações” nascidas do seu contacto pessoal com as mais diversas individualidades de antes e depois do 25 de Abril. Não por as negar – seria chamar mentiroso a SM! – mas pelo relativismo que implicam e a discutível interpretação que ele lhes empresta. 
Apenas num caso as contesto, e é em relação ao papel que atribui a Cavaco Silva entre os grupos que fundaram a tendência social-democrata dentro da SEDES, de que ele próprio, SM – não o porei em dúvida! – foi parte, e cito: “social-democratas (Sá Carneiro, Pinto Balsemão, João Salgueiro, outros, eu próprio, e, se não erro, no final juntou-se Cavaco e Silva”. Isto é, ou não é, uma interessante interpolação, sem quaisquer provas, bastante útil ao “zero à esquerda” – literalmente – que foi, e é Cavaco Silva?
Tenho também o direito de pôr em dúvida diversas declarações ou améns às próprias opiniões, como as relata SM no artigo de 11 de Outubro a propósito do relatório que lhe teria sido encomendado pelo PM António Costa, a propósito dos incêndios de Outubro de 2017. Não acredito que António Costa ou sequer Marcelo Rebelo de Sousa tenham aceitado a ideia “de que ainda vivemos em “’democracia’ orgânica do salazarismo”! SM faz a festa e deita os foguetes, reiteradamente…




No entanto, não deixa de arremessar mais uma seta envenenada ao actual regime, “dito democrático” no seu dizer! E aí surge a minha principal discordância em relação ao seu arrazoado: a tal “democracia orgânica” que atribui ao actual regime e a pobreza que lhe inculca, pelo menos igual à do passado!!!
Também não sou analfabeto em relação aos acontecimentos anteriores à Revolução de 1974, e a verdade é que conheci-os in loco, não por interpostas “personalidades”, mas directamente, no fogo de um movimento que cresceu à margem de negociatas de bastidores, e de opiniões puramente teóricas e benevolentes para com um regime corrupto a um ponto abissalmente maior que o actual. Eu vivi pessoalmente essa época, perigosa para quem se movia fora do círculo do poder, conheci muitos dos intervenientes na revolta e arrisquei a liberdade e a vida em diversas situações, tanto no Movimento Estudantil como no Serviço Militar. Poderá dizer o mesmo, Dr. SM?
Também conheci in loco a miséria da população e para isso tive que sair da redoma em que a minha média situação social me confinava. Não foi em gabinetes insonorizados com vista para o Tejo – ou para outra qualquer paisagem inspiradora – à volta de compridas mesas polidas, acompanhado de circunspectas personagens engravatadas, alinhadas como os pinos de bólingue, tão iguais como gotas de água…
Pondo o pontos nos ii, a minha crítica ao artigo de 27 de Setembro radica em dois pontos essenciais, de que não me desviarei: a interpolação da figura de Cavaco nos antecedentes do Partido Social Democrata – a faço aqui o favor de não lhe chamar o seu nome original e bem mais verdadeiro, Partido Popular Democrático – e as completas enormidades que representam a denominação de “democracia orgânica” ao nosso actual sistema e a declaração surrealista de hoje se manter a miséria do “antigamente”. 
No artigo de 4 de Outubro, indiquei as diferenças entre o regime salazarista, de essência claramente fascista, e o democrático representativo, nascido do 25 de Abril, sem esquecer as vantagens sociais nascidas da igualdade de direitos, da liberdade de expressão, do acesso aos vários graus de ensino independentemente das possibilidades económicas, da alfabetização, do acesso à saúde, etc. direitos obtidos na luta contra as forças que sobraram do salazarismo e marcelismo e que continuam bem vivas.
Não endeuso a situação actual, e sabemos bem as deficiências que foram ultrapassadas e as que se mantêm, a todos os níveis. E sabemos bem que pesadas ameaças incidem sobre o nosso país e sobre o próprio planeta, tanto política como ecologicamente. Mas não irei por aí, que de chorar estamos todos fartos.
Lembro apenas que há ainda muita gente que recorda saudosamente, os “bons velhos tempos” do chamado “Estado Novo”, tempo mítico em que “tudo corria bem”, em que os políticos eram “honestos e devotados servidores da Nação”, em que “a criminalidade passava despercebida”, os preços estáveis, e a própria guerra provocava “menos baixas que os acidentes de viação”, enquanto o País era governado pela mão firme e paternal do inefável Professor Salazar e, depois, pelas simpáticas “conversas em família” de Marcelo Caetano. Era o tempo de “a minha política é o trabalho”, dos “três F’s” de Fátima, Fado e Futebol (esta trilogia ainda não foi ultrapassada…), do “tudo pela Nação, nada contra a Nação”… E, no entanto, esse tempo idílico foi sempre uma farsa, encenada perante uma Nação “informada” por uma imprensa amordaçada e/ou conivente. Diversos autores têm desmitificado, uma a uma, as “maravilhas” desse regime em que a corrupção foi bem mais longe do que os casos hoje tão badalados… Em que a origem de muito do ouro armazenado era mais vil ainda do que o dito metal mereceria… Em que a criminalidade era estatal e isso prova-o a então popular oração “Meu Deus, livra-nos da polícia, que dos malfeitores nos livramos nós”… Em que os “inexistentes” bairros de lata eram vedados à fotografia dos turistas em busca de “cor local”… Em que os milhares de mortos em África morriam, quase todos, em “acidentes de viação“… Em que… Enfim!…
Embora seja vasta a bibliografia sobre o assunto, convidaria, quem tiver dúvidas, a ler o magnífico trabalho de Fernando Dacosta, “As Máscaras de Salazar”, em que é traçado o retrato, apesar de tudo piedoso, de um homem em tudo pequenino, que quis moldar um país antes grandioso à sua imagem e semelhança.
Mas adiante: a verdade é como o azeite e seria curioso avivar a memória dos indefectíveis do “antigamente” numa comparação, ponto por ponto, entre o ante e o após 25 de Abril, mesmo com todos os seus erros e contradições. Mas mais do que tudo, é bom recordar que a grande fraqueza da democracia é, simultaneamente, a sua maior grandeza: a generosidade que lhe permite conviver com todos aqueles que a todo o momento a refutam, atraiçoam e difamam… Esses mesmos que, no Poder, nunca permitiriam qualquer oposição…
Pede-se, exige-se aos políticos, honestidade, transparência, competência. Pede-se, exige-se aos partidos políticos, que representem os interesses e propostas dos cidadãos que representam, mas que defendam sobretudo os interesses mais gerais da população. Mas não tenhamos ilusões: O preço da democracia passa pelo envolvimento pessoal de cada um e de todos na vida política e, assim, por algum incómodo e possíveis desilusões. Será que não vale a pena?
Não tenho a pretensão de ter convencido o Dr. Sérgio Martins de coisa alguma. Mas aqui fica a opinião de alguém que viveu na pele momentos únicos da história do seu país e se orgulha de ter sido e continuar a ser coerente com os seus ideais.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018



A PRAIA, OU FIM DE FÉRIAS

Carlos Rodarte Veloso

“O Templário”, 11-10-2018

Está a terminar o período dito de férias e este é um dos primeiros anos em que esse conceito se esbate perante a lógica da minha nova situação perante o trabalho e os tempos livres que, agora, teoricamente, são todo o tempo do mundo.
É essa a lógica da aposentação, da qual me julgo totalmente merecedor, mas o facto de dificilmente esse direito vir a beneficiar, em toda a sua extensão, as futuras gerações, confere a toda a situação um amargo de boca, uma sensação de injustiça, de fim de época, que vai reflectir-se no futuro da nossa descendência.
Diz-se que a falta de recursos se deve à quebra da demografia e, consequentemente, à diminuição dos rendimentos investidos na segurança social, e a verdade é que, sendo isso verdade, não adoça minimamente a pílula da quebra dos direitos das futuras aposentações.
Os meus filhos não terão condições tão vantajosas como os pais, e os meus netos ficarão bem pior, enquanto os recursos – que os há! – que poderiam corrigir a situação são canalizados para a capitalização de uma banca irresponsável e já criminosamente habituada aos favores do Estado.
Mas isto são apenas pormenores e, paradoxalmente, o panorama do gozo de férias parece ser drasticamente melhor que o dos tempos passados, em que a organização de uma simples viagem ou de uma estadia de família num local turístico, mesmo no estrangeiro, parece não ter limites. Claro que a panaceia para as limitações económicas das famílias é o crédito todo-poderoso, facilitado a um ponto inacreditável pelas instituições financeiras, muitas vezes sem exigir sequer garantias suficientes para evitar o papão real do “crédito malparado”. Para viagens, para compra de viaturas, para compra de casas…
Apesar os péssimos resultados dessa política, ainda hoje invocados a todo o momento. Mas cada vez menos, que a memória prega-nos partidas, e é humano reincidir nos erros do passado!
Estas considerações, talvez de algum mau gosto no momento em que milhares de famílias começam a enfrentar as dívidas à banca assumidas pelas suas discutíveis escolhas, levam-me a recordar a férias de há uns anos, pagas dificilmente com um orçamente muito apertado, mas que correspondiam quase a papel-químico, às condições das actuais férias da classe média, sempre e sempre focadas na loucura do turismo de mar e praia.
E para quê? Para nos enervarmos dentro do carro, enquanto os miúdos gritavam no banco de trás, na fila que nunca mais andava… Para esturricar na areia a ferver a procurar caminho no meio de outros felizes veraneantes… Para pagar couro e cabelo por uma cerveja morna… Para queimar os pés a saltitar entre corpos queimados e arranjar um espaço onde pudéssemos alimentar tranquilamente o melanoma. Para sermos felizes!

quinta-feira, 4 de outubro de 2018



A “DEMOCRACIA ORGÂNICA” DO SALAZARISMO

Carlos Rodarte Veloso


“O Templário”, 4 de Outubro de 2018

"A boa vida do antigamente"
No artigo de Sérgio Martins publicado n’O Templário da semana passada sob o título “50 Anos depois de Salazar”, a par de diversa informação de duvidosa credibilidade sobre a evolução política dos últimos anos do regime e a criação do PPD/PSD, é introduzida, muito “oportunamente”, a figura do patético Cavaco Silva, na frase pouco clara e dificilmente comprovável: “e, se não erro, no final juntou-se [ao grupo-base de formação daquele partido] ”…
Cavaco Silva na oposição à ditadura, aquele cuja “coragem” é comprovada pela sua famosa declaração de fidelidade e cumplicidade para com o regime corporativo e a sua tibieza perante as críticas de governos estrangeiros quando Presidente da República de Portugal, o seu alinhamento com todos os poderes capitalistas?!
Para além desta declaração pouco fiável, evidentemente destinada a manter em estado de latência o cadáver adiado de Cavaco, apenas “ressuscitado” pelas suas declarações surrealistas recentemente surgidas de além-túmulo a propósito da substituição da Procuradora Geral da República, são feitas algumas considerações sobre o tipo de “democracia” anterior ao 25 de Abril de 1974, a famosa “democracia orgânica” de Salazar.
Essa “democracia orgânica”, cujas características são transcritas ipsis verbis da Wikipedia, teria sido continuada até aos nossos dias, segundo o articulista, mantendo-se, não só o regime autoritário – mas não fascista, diz ele! - dominado pelos grupos patriarcais de origem medieval, com o predomínio do “chefe de família”, como pelas corporações profissionais que aqui são assimiladas aos sindicatos de classe (!), mantendo-se o estado de atraso da população, “comprovado” pelo aumento da emigração, enquanto o nível e a qualidade de vida  regridem, e a desigualdade social se acentua!…
Ou seja: é de toda ignorada a abolição de instituições como a Câmara Corporativa, as instituições locais e autárquicas de nomeação governamental, a legalização dos partidos políticos e a independência dos sindicatos perante o poder político, os direitos das mulheres, a Democracia representativa, essa de facto a Democracia verdadeira e não a sua máscara, o julgamento de corruptos e criminosos poderosos... Com o esforço dos partidos de direita para o retrocesso dos direitos fundamentais e a manutenção e aprofundamento de todas as desigualdades…

"Banho do povo"

Não é preciso enunciar todas as melhorias introduzidas nestes 50 anos porque toda a população com mais de 60 anos, se quiser ser sincera e tiver olhos na cara, sabe demasiado bem do que estou a falar. Basta recordar as cenas pungentes das nossas aldeias miseráveis, dos miúdos subalimentados e descalços, com as “lamparinas” ranhosas a escorrerem do nariz, das estradas nacionais que mais pareciam campos de minas, da esquálida e miserável “dieta” rural, dos compadrios políticos e económicos então irresponsabilizados e protegidos pelas “forças da ordem”, a vigilância e a repressão sobre as palavras e as ideias. Quer mais, Dr. Sérgio Martins?