sábado, 6 de junho de 2020



VOLTAMOS À GRIPEZINHA?

Carlos Rodarte Veloso

“O Templário”, 4 de Junho de 2020

Parece que para um número inesperado de iluminados e face ao êxito, aliás reconhecido internacionalmente, da contenção do coronavírus em Portugal – até apesar do irresponsável relaxamento das medidas de confinamento por parte de muitos utentes do espaço público – surgiu o segundo momento de combate político da direita contra o governo…
Primeiro, as medidas tomadas tinham sido “tardias”, os erros e carências eram mais que muitas, e a crítica era apontada a alegados erros sucessivos do governo na gestão da pandemia, o mesmo governo que acabou por controlar em termos suportáveis a cavalgada mortífera, ao mesmo tempo que reformava o próprio espaço antes tão criticado do Serviço Nacional de Saúde e o reinventava, criando condições para uma nova eficácia.
Entretanto, em países bem identificados quanto à interpretação surrealista que os seus dirigentes faziam da pandemia, desde a “gripezinha” de Bolsonaro, à deriva mental de Trump e às suas “opiniões” tweetadas sem um pingo de suporte científico ou de vergonha, chegando a aconselhar a desinfecção humana com lixívia (!), às mortíferas hesitações de Boris Johnson, apenas superadas a partir da sua própria e pessoal infecção pelo vírus. Só nesse momento pareceu encarar a realidade, mas à custa de quantas vidas já perdidas!
Até então, a extrema-direita ressabiada com os êxitos das medidas sanitárias impostas pela Direcção Geral de Saúde, tentava a todo o custo encontrar argumentos com que demonstrar a “incompetência” do governo na luta contra a pandemia, mas sem pôr em causa a sua perigosidade.
Agora saem inesperadamente da sombra uma série de “especialistas” que assinam artigos nos media mais reaccionários e criticam o governo por ter tomado medidas, nãos apenas desnecessárias, mas lesivas da economia e da qualidade de vida dos portugueses, ao enfrentar a pandemia nos termos em que o fez!
Preso por ter cão e preso por não o ter!
Claro que a direita que se manifesta ruidosamente nas redes sociais e na imprensa diversifica as suas opiniões, desde os programas de televisão mais “soft”, como o “Sexta às Nove” da RTP 1, em que a “isenta” Sandra Felgueiras faz um “jornalismo de investigação” sem lugar para o contraditório, aos jornais de direita assumida que entram agora na deriva negacionista do vírus, que acabaremos por considerar ao nível da tal “gripezinha” tão acarinhada por Bolsonaro, o “dirigente” mais estúpido, ignorante e assumidamente fascista deste mundo!

sábado, 23 de maio de 2020


PRAIA MARAVILHOSA

Carlos Rodarte Veloso

“O Templário”, 21 de Maio de 2020

Há muito que me desinteressei dos prazeres da praia, talvez porque passei a embirrar com a areia que se mete nos nossos locais mais indiscretos, com a exposição impiedosa ao sol e os consequentes escaldões, as projecções de bolas e outros objectos contundentes, além de objectos apenas adivinhados pela sua disformidade, mas só identificáveis pelo cheiro e que se colam teimosa e nojentamente às plantas dos pés, insectos zumbidores que nos picam impiedosamente, a música pimba impingida através de amplificadores topo de gama de gente que, mais que nos ouvidos, apenas pretende dar nas vistas…
Eu, que era um fanático da Praia-a-todo-o-custo, deixei de me sentir seduzido, embora o Mar, o grande Mar que cerca a Terra toda, onde mergulhamos, aí recebendo uma fracção da grande energia nele contida, continue a atrair-me, mesmo com a sabida presença nessas mesmas águas da poluição dos plásticos omnipresentes, além de outros fragmentos da nossa “civilização”, que entopem os animais marinhos e se infiltram nos próprios poluidores.
Dirão que a idade fez o resto, e me agrada muito mais a tranquilidade das serras, do campo sob uma brisa suave, de caminhadas por veredas sombreadas pela magnificência de árvores centenárias, a paisagem das sucessões de montanhas envoltas na misteriosa névoa da distância, a própria pachorra aldeã que autoriza a contemplação de coisas imperecíveis como o pairar das aves de rapina sobre os campos, os rios, lagos, a poesia do mundo…
Isso é tudo verdade, mas custa-me que a pandemia que nos atingiu como um coice, dê agora aso a que a natural paixão pela praia seja disciplinada de forma férrea e que os regulamentos de utilização que começam a divisar-se a conduzam a autênticos campos de concentração.
Sei que as estranhas experiências já encetadas em Espanha e, segundo parece, em S. Martinho do Porto, de “lavar toda a areia com lixívia” não estão felizmente previstas, mas a aproximação do Verão e os regulamentos já esboçados fazem-me temer o pior: que o lugar de liberdade que as praias significavam, apesar dos velhos inconvenientes a que fiz referência, as tornem agora num lugar assustador, vigiado por um aparato tecnológico que faz temer pelo exagero .
Sei que é necessário manter a disciplina nos contactos interpessoais, para evitar a todo o custo a difusão do contágio do coronavírus, mas considero que todas as medidas previstas devem sê-lo tendo em conta a justa medida. A disciplina começa e acaba na educação, e devem ser principalmente os jovens a sensibilizar os adultos para cumprirem eles próprios as regras de ouro que poderão salvar a espécie humana. O papel dos professores nessa sensibilização é fundamental!
Vigilância, sim, e rigorosa, mas espaço para a liberdade! É o maior dos desafios!

quinta-feira, 14 de maio de 2020



A MALDADE NO PODER

Carlos Rodarte Veloso

“O Templário”, 14 de Maio de 2020

Está a tornar-se um verdadeiro lugar-comum a identificação de um número crescente de ditaduras instaladas nos lugares de Poder em tantos países da Terra, mas esse fenómeno sinistro começa a espreitar, qual “ovo da serpente” também no nosso país.
A arma dessa gente, violentamente contrária toda e qualquer conquista da parte das massas exploradas, são agora as redes sociais, que ampliam aparentemente a expressão dessas ambições, assinando milhares e milhares de posts com identificações falsas que sugerem o apoio de massas inexistentes e que vão dar uma ideia completamente falsa de adesão por parte de percentagens totalmente falsas de aderentes.
Esse truque, fomentado por forças ligadas às camadas mais poderosas financeiramente, dão a ideia de um apoio popular totalmente fictício.
Chamando as coisas pelos nomes, a Esquerda é confrontada com os “likes” de gente aparentemente desfavorecida, não propiamente pela fortuna, mas pela inteligência, organizada em grupos de ignorantes, apoiados e financiados por igrejas evangélicas que oferecem o mesmo show-off que levou ao poder gente como Trump, mesmo com menos votos que a sua directa opositora, ou Bolsonaro, esse sim, apoiado pela imensa miséria da gente pobre e ignorante do Brasil, cuja lavagem aos cérebros se somou, mais uma vez, à gigantesca operação de desinformação levada a cabo através do elogio da sangrenta ditadura que antecedeu o domínio do PT, diabolizado através da mais fantástica campanha de mentiras algumas vez desenvolvida neste século.
Fake news que também deram o Poder, quase fifty-fifty a Boris Johnson, aproveitando o consabido nacionalismo britânico e os pretensos malefícios de uma Europa, afinal não tão má assim…
De outros países poderia falar mas, no que nos toca, estes são mais do que suficientes para reintroduzir um tema que se vai tornando cada vez mais preocupante, mormente com o efeito de contágio das ideias de extrema-direita que vão gradualmente invadindo outros governos europeus, um pouco como a infecção do corona vírus.
O nosso Portugal sofre agora um ataque directo desferido por uma espécie de partido, o “Chega” de André Ventura, que se revê no salazarismo e nas “saudosas” políticas hitlerianas do confinamento étnico, primeira fase de um apartheid que levou à perseguição aos Judeus, à sua identificação através de emblemas, a sua desclassificação social e internamento em campos de concentração, em ordem à “Solução Final” eufemismo para o Holocausto!
Como bem sabemos, os Judeus foram as suas maiores vítimas em termos numéricos, mas também os Ciganos, minorias religiosas e sexuais, e partidos políticos de Esquerda os acompanharam na deportação e nos campos de extermínio.
Vem agora André Ventura, do alto da sua arrogância racista propor o mesmo “remédio” para os Ciganos portugueses, provocação a que respondeu, e muito bem, o nosso internacional Quaresma, cigano ele próprio, que se mediu do alto da sua dignidade, “simplesmente humana”, com este espécime lamentável de troglodita.
Não é nem será a última vez que a História da Humanidade se confrontará com este tipo de ameaças. Mas estejamos atentos e não minimizemos os perigos que mais uma vez espreitam o nosso perigoso trajecto.

sexta-feira, 8 de maio de 2020



SAUDADES DO FUTURO
Carlos Rodarte Veloso
“O Templário”, 7 de Maio de 2020

A palavra que mais nos falta neste momento, não é Maré, nem Onda, nada de cíclico, pois tudo o que se repete é certo mas fugaz, e a esperança dessa repetição não encerra mais certeza que a do sabido pôr e nascer do Sol, do movimento universal das galáxias, da vertiginosa queda dos graves, da atracção universal, do galope das nuvens nos céus, da inércia que imprime o movimento perpétuo a todos os corpos celestes, do correr das águas nos grandes como nos pequenos vales, do deslizar das placas tectónicas, no fundo, nada que contribua para os avanços desta espécie ciclotímica, ora ufana das suas realizações, ora completamente desesperada.
            Nada que o livre arbítrio não ultrapasse, já que os ditames autocráticos dos grande sistemas doutrinários, geridos por vultuosas personagens, vendilhões do Templo alicerçadas no poder das armas, nada são perante a vontade destas toscas criaturas que, embora temerosas quando isoladas, conseguem contornar, em felizes momentos de unidade, esses poderes, convertendo-se elas próprias em Poder.
            O momento que vivemos dividiu-nos como espécie empreendedora, tirou-nos provisoriamente o poder em confronto com forças que ainda não compreendemos totalmente, enquanto a nossa divisão e antagonismo nos lança uns contra os outros, indiferentes aos sucessos antigos, dispostos a tudo apostar na divisão entre grupos e sistemas, na hostilidade entre semelhantes, naquilo a que chamamos Guerra.
            Por isso, as palavras que nos faltam são Saudade do Futuro, dimensão que tanto contribuiu para o êxito da Humanidade nos desafios que enfrentou, horizonte mítico que nos levou a outras e inconcebíveis paragens.
            E o actual desafio, porventura o último durante uma longuíssima época, é o mais determinante de todos, porque agora se junta uma pandemia oriunda da mais que provável acção humana, com a ameaça de desastre ambiental prevista há muito tempo, ela própria garantidamente devida à mesma acção.
            Temos agora meios de enfrentar ambas as ameaças, mas apenas a união de todos nós permitirá vencê-las, mesmo com os rostos provisoriamente ocultados por máscaras…

terça-feira, 5 de maio de 2020



APRESENTAÇÃO DE UM PAÍS
Carlos Rodarte Veloso
“O Templário”, 30 de Abril de 2020

Gravura de João Abel Manta

Desde o período da ocupação filipina, Portugal teve o “fado” de se ter tornado quase invisível no panorama histórico mundial, frequentemente confundido com a Espanha à qual concedia o seu enorme peso colonial para a engrandecer.
Era de facto o tempo do “Império onde o sol nunca se punha”, título depois da Restauração herdado pelo Império Britânico.
Da nossa História, apenas sobravam imagens espectrais duma época nebulosa de marinheiros e navegadores, descobridores, sim, mas “pés descalços”, pouco enaltecidos face à prosápia espanhola da descoberta da América e de outros feitos marítimos e militares, a que não faltava, pasme-se, o fracasso monumental de uma dita “Invencível Armada”!
Nem o domínio da Índia, a colonização brasileira e a precoce chegada à China e ao Japão foram suficientes para plasmar com verdadeiro sucesso a aventura portuguesa nas páginas da historiografia europeia.
O peso monumental da Espanha sempre se sobrepunha a nós, pequena nação, dominada depois pela concorrência neerlandesa e pelos traiçoeiros aliados ingleses, sempre atrasada, sempre retrógrada, vitimada pela superstição católica romana que, embora comum ao atraso espanhol não se alicerçava sobre um poder das armas ou prestígio internacional, para não falar do seu défice de influência religiosa junto da Santa Sé.
Tal como a Espanha tivemos a Inquisição, e momentos de grande prestígio internacional, mas com pouca continuidade, caso do reinado de D. João V, embora a reboque do ouro do Brasil, e do fugaz episódio pombalino, depressa submerso nas grandes invasões francesas e na guerra civil entre liberais e absolutistas, num século de altos e baixos dominados pela predominância económica britânica e uma apenas relativa “revolução industrial”…
O século XX, dilacerado pela Grande Guerra para a qual foi arrastada a nossa jovem República em prol da defesa do domínio colonial africano, logo seguido do gigantesco desastre humanitário da pandemia da “gripe espanhola”, ainda deu tempo para algumas importantes reformas educativas, mas marcadas pela instabilidade social e política do País, que conduziu ao golpe de Estado de 28 de Maio de 1926 e à edificação do chamado Estado Novo e do regime ditatorial de Salazar, época de férrea repressão policial, à imagem e semelhança das ditaduras nacionalistas europeias, cópia próxima dos fascismos italiano, germânico e espanhol.
Foi nesse quadro de ditadura nacional, que muito desprestigiou o País, que teve início a guerra colonial, a que apenas o 25 de Abril de 1974 pôs fim, com Portugal mobilizado colectivamente, em torno de umas Forças Armadas inesperadamente democratizadas, cujo vitorioso golpe de Estado acaba por dar origem a uma verdadeira Revolução popular.
É exactamente a edificação do regime democrático nascido em 25 de Abril mas alimentado desde a época mais repressiva da ditadura pela revolta popular dos mais diversos sectores da vida social e política, que confere ao nosso País uma imagem de modernidade e de desenvolvimento completamente nova, a que não é alheia – apesar das controvérsias a que deu aso – a adesão ao Mercado Comum Europeu e à União Europeia.
A nossa Revolução – não tenhamos medo dos nomes, pois de uma Revolução se trata – abriu aos olhos de uma Europa fortemente lusocéptica, este pequeno País em que vivemos, tornado um “caso de estudo”, tanto pelo muito que se desenvolveu no aspecto científico e tecnológico, político, artístico, literário e, até, desportivo, como pelo prestígio de muitos dos seus dirigentes que, embora de contraditórias tendências políticas, marcaram fortemente as suas áreas de influência, mesmo nos maiores areópagos internacionais.
As críticas com que, desde sempre, a nossa democracia tem sido mimoseada, nomeadamente pelos sectores politicamente mais adversos às tendências dominantes, são mais uma prova da vitalidade de um regime que nem uma pandemia como a que agora nos vitima, impede o pluralismo, verdadeiro apanágio da Democracia.



sexta-feira, 24 de abril de 2020


TURISMO DEPOIS DA PESTE
Carlos Rodarte Veloso


“O Templário”, 23 de Abril de 2020

Enquanto aguardamos uma vacina contra o coronavírus, vai-se preparando, paulatinamente como deve ser, o recomeço da actividade económica do País, de modo a evitar a precipitação da abertura a todo o custo, pelas implicações que a mesma poderá ter numa recaída sanitária catastrófica.
Sendo o comércio externo e o turismo as actividades que maiores dividendos prestam a Portugal e maiores vantagens prestam no combate ao desemprego, a praga dentro da praga, esta constatação exige o rearranque da produção industrial, evidentemente sujeita à parafernália de cuidados recomendados desde o início da pandemia.
Quanto ao turismo, a actividade que maior quantidade de empregos garante e aquela que mais contribui para o nosso prestígio internacional e o florescimento de maior diversidade de actividades, o seu regresso em força, decerto lento mas seguro, deveria obedecer a um conjunto de regras que evitassem o regresso a um conjunto de situações que principalmente enriqueceram um empreendorismo ganancioso que, a par das vantagens tão publicitadas, afastou dos grandes centros populacionais grande parte da sua população, preferindo-lhe uma invasão de turistas estrangeiros cujo maior poder económico tornou os portugueses mais estrangeiros que eles próprios dentro da sua pátria.
Não apenas o mercado de arrendamento imobiliário criou situações dramáticas para os nossos compatriotas, incapacitados de se manter nas suas residências originais, como o próprio emprego nos estabelecimentos de hotelaria e restauração se tornou manifestamente exploratório, com salários baixíssimos e condições de trabalho penosas a um ponto insuportável.
Tudo isto é bem conhecido pelas suas consequências sociais, mas a pandemia que nos aflige está agora a afligir muitos milhares de proprietários gananciosos que não hesitaram em despejar os seus antigos inquilinos, para em seguida dividir os andares devolutos em módulos destinados a albergar todo o estrangeiro endinheirado disposto a ocupar esses espaços vendidos ou alugados a preços milionários.
A aflição destes senhorios vai decerto obrigá-los a procurar de novo inquilinos de mais modestas posses o que constitui, nestes tempos pestíferos uma espécie de justiça poética… já diz o povo, na sua sabedoria, que quem tudo quer, tudo perde!
Além das consequências socioculturais de actual situação, aspectos há, no turismo, que exigem um repensar da continuação da sua actividade do ponto de vista legislativo, desde a interdição de massas caóticas de turistas nas nossas cidades, que acabam por as roubar aos seus naturais, à multiplicação de cruzeiros nos nossos portos, ao excesso de tráfego aéreo, poluente e prejudicial à vida humana.
É tudo uma questão de equilíbrio: permitir o lucro da actividade turística, mas sem esquecer o factor humano em causa, mas também o factor cultural.
As autênticas multidões que nos invadem devem ser orientadas para uma maior dispersão no nosso território, de forma serem criadas, se necessário, quotas de ocupação do espaço que protejam o nosso património, tanto construído, como natural.
Estas preocupações decerto serão resolvidas com o tempo, porque parece-me que tempo é o que não falta, dada a demora na criação de uma vacina para o coronavírus. Mas seria bom aproveitar esta pausa concedida à recuperação da natureza, já visível na diminuição da poluição em todas as latitudes.
Teremos então uma nova oportunidade para legislar a favor da humanidade e do ambiente, corrigindo as terríveis assimetrias socioculturais e económicas que têm transformado este maravilhoso planeta num inferno e não regressando ao caos capitalista que imperava nos últimos dias… ainda apenas a uns meses de distância…

quinta-feira, 16 de abril de 2020



AS TREVAS MILENARES

Carlos Rodarte Veloso

O Templário, 16 de Abril de 2020

O percurso que nós, humanidade, vaidosamente nos atribuímos como civilização, vai das trevas mais profundas à claridade mais pura, do pensamento mágico à mais pura racionalidade, da bárbara Pré-História ao predomínio da Ciência, da aproximação à compreensão de todas as coisas, liberta dos sucessivos véus que a esconderam, o famoso manto diáfano da fantasia...
Essa correcção das impressões mais imediatas nasceu em mentes visionárias cujos raciocínios corrigiram a aparência das coisas, provocando autênticas cambalhotas na observação dos fenómenos naturais, mesmo dos cósmicos, aliás, principalmente dos cósmicos, tanto na pequena como na grande dimensão.
Desde a substituição do intuitivo geocentrismo pelo menos compreensível heliocentrismo, milagre do raciocínio que projecta, com um simples olhar, o nosso Sol para o centro do nosso sistema planetário, com a Terra disciplinadamente enviada para uma órbita, de início bem circular, depois crescentemente elíptica e integrada no baile planetário e estelar de que iniciámos a exploração no último século.
Também o atomismo, genial intuição que teorizou, sem quaisquer meios experimentais, a divisão da matéria em minúsculos átomos, a base da Física actual, tão longe das quase ingénuas leis de Arquimedes, que apenas necessitava de um ponto de apoio para levantar a Terra…
Ou a compreensão da Evolução das espécies, a base para a colocação da humanidade no seu lugar na natureza, negando assim as explicações teológicas que foram – e continuam a ser – outros tantos grilhões ao avanço da espécie a que pertencemos.
Todos esses avanços criaram a Ciência, filha dilecta da Filosofia e foi o seu triunfo que trouxe o crescente domínio sobre o Planeta, as suas riquezas, as suas criaturas, mas também a crescente destruição da sua harmonia.
A administração das riquezas obtidas – roubadas, é o termo mais correcto – foi obtida pela força das armas, “justificada”, a cada momento, com os “argumentos” mais falaciosos, baseados numa pseudo-superioridade de povos e etnias sobre outros povos e etnias, religiões e filosofias sobre outras religiões e filosofias.
Os dirigentes dos diversos povos coexistiram com as sucessivas revoluções do conhecimento, geralmente a elas se opondo, procurando negá-las através dum conservadorismo nostálgico de valores ultrapassados e impô-las através das mais selvagens e sangrentas formas de repressão.
É o que ainda hoje se passa num século XXI grávido de avanços científicos e tecnológicos, mas dominantemente governado pela cegueira de criaturas ignorantes e malévolas, tentando impor a todo o custo o regresso às superstições dum passado milenar, o mesmo que é dizer, às catacumbas da humana psique.
Procuram essas criaturas paradoxais aproveitar os progressos tecnológicos tão dificilmente adquiridos sem assumir as conquistas sociais e humanas nelas implicadas.
São “cegos conduzindo outros cegos”, na extraordinária parábola de 1568 do pintor flamengo Bruhegel o Velho. O mistério é como essa massa de cegos se deixa conduzir, directamente ao abismo.


Outras alegorias de sinal equivalente foram desenvolvidas através dos tempos, nomeadamente no romance de Saramago “Ensaio sobre a Cegueira”, publicado em 1995 e levado às telas do cinema em 2008, pela mão do realizador Fernando Meireles.
Nesta obra do nosso Nobel da Literatura, é uma mulher, única sobrevivente da cegueira universal, que conduz os cegos, não para o abismo, mas para a redenção, a salvação da humanidade… Não por acaso, já que é Mulher, vítima também milenar da cegueira do poder e da ignorância.


Alvos fáceis de encontrar, em todas as épocas, para esta feroz crítica à vaga de governantes patologicamente conservadores, ignorantes de todo o conhecimento científico e estupidamente orgulhosos dessa culposa ignorância, que conduz ao negacionismo das conquistas da inteligência humana, especialmente nesta época de ameaça à própria sobrevivência da espécie.
Quando Trump continua a resistir à opinião dos cientistas sobre os cuidados a tomar quanto ao coronavírus, chegando a calar as próprias questões dos jornalistas e a emitir ridículas opiniões pseudocientíficas sobre o assunto, nomeadamente contra a Organização Mundial de Saúde, quando Bolsonaro persiste na sua teimosa e imbecil negação da necessidade de enfrentar a ameaça cada vez mais trágica da pandemia, arriscando irresponsavelmente a vida de milhões de brasileiros, quando Lukashenko, presidente da Bielorrússia aconselha vodca e sauna para tratar o terrível vírus estamos perante a manifestação inegável do grau zero da inteligência.
Cegos incuráveis, não seria urgente mandá-los para férias?

quinta-feira, 9 de abril de 2020



O BAILE DE MÁSCARAS DA SOBREVIVÊNCIA

Carlos Rodarte Veloso

“O Templário”, 9 de Abril de 2020

As medidas de isolamento que gradualmente têm sido impostas pela maior parte dos governos como forma de enfrentar o coronavírus, têm sido diferentemente aceites pelas respectivas populações, indo da franca adesão e disciplina à anarquia mais desbragada, tornando regra de comportamento a recusa de todas as regras definidas pela Ciência e pelos respectivos governos.
Exceptuando o caso de alguns governantes que teimosa e estupidamente negam as consequências da pandemia, caso de Bolsonaro, até o negacionista da Ciência que Trump ainda é se rende à gravidade da situação e procura tomar as medidas necessárias para deter o vírus e assim salvar os seus eleitores, embora as suas horríveis características pessoais o levem a actos de egoísmo inacreditáveis num tempo trágico como este, quer desviando equipamentos médicos de protecção dos outros países, mesmo de aliados, para os Estados Unidos, quer monopolizando a sua própria produção dos mesmos, ou ainda, tentando comprar o exclusivo de futuras vacinas produzidas ou previstas pelos laboratórios dos países que investigam a cura para o surto epidémico, ao mesmo tempo que mantém o bloqueio de todos os meios aos seus inimigos de estimação, o Irão e Cuba nomeadamente.
E que dizer de Erdogan que literalmente roubou – é o único termo aceitável! – um carregamento de material de protecção comprado à China por diversas comunidades autónomas espanholas, e já pago, confiscado na escala do respectivo avião em Istambul, sob o pretexto de fazer falta na Turquia?! Ou, ainda mais inacreditável, da França, que desviou igualmente material médico destinado aos países mártires que são a Espanha e a Itália?
Este salve-se quem puder não é, felizmente dominante nas relações internacionais, sendo notórios os actos de generosidade de alguns países para com outros, mesmo pertencendo a áreas políticas diferentes e até antagónicas, com o envio de médicos e outro pessoal de saúde para os países mais infectados, caso da Rússia para a Itália, e ainda facilitando o comércio e, até, a venda massiva e, até a doação de máscaras e outro material de protecção pela China.
   Quanto às populações civis dos diversos países, temos assistido incrédulos a comportamentos colectivos de alto risco, quando vemos intermináveis filas de carros invadindo as estradas para gozar os dias mais agradáveis de uma primavera que se anuncia, ou praias e outros lugares de veraneio de todo desaconselhados pela concentração de povo que propicia.
Também a fuga de muitos possuidores de segunda habitação para zonas rurais ou balneares, apesar da proibição legal de o fazerem, põe em grave risco a situação das populações rurais envelhecidas, muito mais vulneráveis à infecção pela pandemia, criando-se grave alarme social, por exemplo em França, mas também na Itália e em Espanha.
Quanto ao nosso país, apesar de uma razoável disciplina manifestada pela população em geral, relativamente às regras definidas pelo estado de emergência que vivemos, assiste-se com frequência a comportamentos desviantes, umas vezes pontualmente, outras com uma frequência preocupante.
É comum vermos pessoas equipadas com luvas de protecção e máscaras a manipular produtos alimentares nos supermercados, como se fossem suficientes para evitar o possível contágio, luvas lançadas para o chão nos parques de estacionamento, ou concentrações de pessoas em número não autorizado.
As autoridades policiais terão que suar bastante para inibir todos os comportamentos de risco propiciados pelo período da Páscoa, em que a sociabilização das festas familiares, embora condenadas pelas autoridades da Saúde, entra em choque frontal com atitudes de generosidade manifestadas por figuras públicas como Ramalho Eanes, ao disponibilizar o ventilador que lhe seria atribuído, em caso de internamento, para “chefes de família”, portanto para os responsáveis por mulheres, crianças e familiares mais jovens, pondo assim em cheque a sua própria sobrevivência.
Cabe aqui um parêntesis sobre esta atitude que, embora aparentemente muito louvável, parece menosprezar o direito dos idosos à sobrevivência em favor das camadas etárias mais jovens, como se houvesse uma linha de separação, a aceitação de um quase direito ao abandono das gerações mais velhas.
A própria utilização da expressão “chefes de família” implica a valorização do conceito de patriarcado como um direito de origem bíblica, aqui invertido do seu sentido original, em ambos os casos condenável, quer a favor, quer contra…
Senhor General, com toda a consideração e simpatia que me merece, nem oito nem oitenta! Quantos homens e mulheres idosos não têm ainda à sua responsabilidade filhos e outros dependentes, tantas vezes maiores de idade, desempregados ou em vias disso? Não seria preferível a assunção do direito à vida, independentemente da idade e, evidentemente, de acordo com os desejos de cada um?
Independentemente de todas as considerações a respeito deste tema, não estou a incluir nesta ordem de ideias os gravíssimos problemas derivados das gigantescas migrações que povoam os perigosíssimos campos de refugiados no Médio Oriente, na Turquia, na Grécia e outras regiões, bombas-relógio prontas a explodir e a agravar a um ponto inacreditável a sobrevivência das respectivas populações, com um previsível efeito de dominó em todo o mundo.
Pelo que nos cabe a nós, Portugueses, privilegiados que somos em tantos aspectos, uma bem pequena obrigação, aquela que vivemos desde o início da pandemia: fiquemos em nossas casas!

sexta-feira, 3 de abril de 2020



A ILHA QUE NÓS SOMOS

Carlos Rodarte Veloso

“O Templário”, 2 de Abril de 2020

No isolamento destes dias da Peste, os nossos hábitos vão-se retraindo, em parte por imposição da Lei, em parte – é o meu caso – por imperativo da consciência.
Apenas com as janelas abertas ao mundo, num mundo em mutação devido à maldição de um simples vírus, a casa é a minha fortaleza, cercada pela floração de uma Primavera timidamente prometedora da recuperação de uma Natureza exausta.
E os sintomas dessa restauração começam a surgir aqui e ali, não apenas nas águas de novo límpidas das lagunas de Veneza, mas nos ventos e marés, e na Esperança, esse bem precioso que sempre tem sido a última linha de defesa da Humanidade.
Teremos então que olhar esta maldição que, sabemo-lo bem, não poupará muitos de nós, como aliada do nosso ambiente e, assim da nossa própria salvação como espécie, uma segunda oportunidade, portanto.
Não há nestas contraditórias considerações qualquer laivo de optimismo em relação às virtudes da nossa espécie.
Ela decerto sobreviverá, mas não deixará de errar de novo, e de novo, e de novo… reconduzindo o nosso Planeta a novos becos sem saída, até que, se a famosa Evolução que nos conduziu a Senhores da Terra, nos torne os Cuidadores desta esfera maravilhosa em que vivemos e tanto temos martirizado.
Os nossos erros continuarão presentes nas guerras que irão muito para além das gerações actuais, nos genocídios em nome de deuses, pátrias, cores de pele, preconceitos.
Resta-nos agarrarmos com ambas as mãos a herança – essa sim, sagrada – que são o nosso Património cultural, herdado dos gigantes que construíram, com a inocência das crianças, castelos e catedrais, viajaram em todos os Oceanos, chegaram à Lua e atrevem-se a sonhar com longínquas galáxias, escreveram os mais belos textos e compuseram todas as sinfonias, inventando a Beleza, ergueram as vozes em nome de ideais inatingíveis, riram e choraram as suas fraquezas, mas também as suas forças, amaram-se e odiaram-se, desvendaram os mais recônditos segredos da Natureza, viveram e morreram semeando a Terra com as suas sepulturas, sempre prontos a multiplicá-las até ao infinito, sempre prontos a glorificá-las até aos Céus, poeira das estrelas que sempre seremos…
São essas obras a que nos devemos agora agarrar, quando voltamos a procurar razões para continuar a habitar esta Ilha de que fizemos Lar, esta casa cheia de livros, de obras de Arte, de artifício, de criaturas espantosas com que convivemos há milénios e, acima de tudo, de Gente que sofre a injustiça, a frieza, a crueldade até dos seus semelhantes.
De Beleza, de Sonho e de Pesadelo, que erra e continua a errar, procurando uma boa razão para continuar a viver.