sexta-feira, 4 de setembro de 2020



OS TRABALHADORES E O POVO

Carlos Rodarte Veloso

“O Templário”, 3 de Setembro de 2020

A insistência na contestação do uso das máscaras de protecção anti- coronavírus por parte de organizações diversas tanto de direita como de esquerda, um pouco por todo o mundo, é um péssimo sintoma de um pensamento retorcido que não só assume contornos no mínimo suicidários, como inscreve tais raciocínios dentro das mais absurdas teorias da conspiração.
Afirmar-se a “sujeição” à “ditadura da máscara” como uma inaceitável limitação da liberdade parece tão ilógico como o seria defender a abolição dos cintos de segurança nos automóveis ou a liberdade de usar o telemóvel na estrada, ou outros disparates que não apenas conspirariam contra a própria segurança dos seus defensores – o que seria o menor dos males, pois cada um deve ser responsável pelos riscos que assuma correr – mas principalmente das inocentes vítimas dessa criminosa imprudência, no limite vitimadora da sua própria família.
Esta argumentação tem sido abundantemente defendida nas próprias redes sociais, elas habitualmente tão avessas à simples lógica, mas neste caso exemplar, um número crescente de defensores se ergue nas grandes praças deste mundo, assumindo orgulhosa e estupidamente, a sua recusa das mínimas condições de segurança!
Dir-se-ia que esta manifestação de arrojo, de “coragem”, felizmente de uma ainda minoria, configura uma espécie de afirmação dos últimos suspiros de uma espécie condenada à extinção, nós próprios...
Talvez a tão sábia como cega Natureza que tão agredida tem sido, se apreste a conceder à espécie humana a misericórdia da sua limitação aos recursos que tão depauperados têm sido e não permitem alimentar as massas crescentes de famintos que invadem as nossas cidades e as rotas de fuga dos grandes conflitos que ensanguentam um número crescente de países.
Claro que são os pobres as suas principais vítimas, que os ricos estão bem protegidos por detrás dos muros que construíram nas fronteiras da fome, piedosamente escondidas pela nova geração de ditadores de que são vanguarda os Trumps deste mundo.
E enquanto se erguem as vozes cada vez menos tímidas dos inimigos do confinamento, eles próprios ignoram ostensivamente os perigos derivados da sua recusa, quando organizam espectáculos de massas ao arrepio de toda a prudência, preferindo preencher a sua agenda política, como se as suas festas, tanto a nível oficial como privado não oferecessem os perigos que enxergam nas actividades da concorrência!
Conteúdos diferentes e pseudo inócuos têm os desportos de massas, os bárbaros espectáculos de toiros, festas religiosas e muitas das manifestações políticas colectivas, de que é triste exemplo a Festa do Avante, que arvoram à categoria de virtude cívica, ou tradicional, ou outra coisa qualquer, a manutenção dessas actividades, como se elas representassem algo mais do que a sua simples manifestação de força, confundindo-a demagogicamente com a própria salvação da Democracia!
Esse mimetismo artificial entre grandes manifestações de massas e a defesa dos interesses dos trabalhadores e do povo, é um mal disfarçado alibi para excepcionalizar comportamentos de risco
A própria comparação, em pé de igualdade, entre as comemorações do 25 de Abril ou do 1º de Maio, com a Festa do Avante é, no mínimo, altamente tendenciosa e abusiva.
A diferença entre elas é não só de dimensão e de significado, sendo o 1º de Maio de nível planetário e o 25 de Abril a grande Festa portuguesa da Liberdade, não sendo nenhuma delas limitada aos interesses de qualquer Partido, Movimento, interesse particular ou momento político e social.
Isso não implica, obviamente, as necessárias cautelas nos comportamentos de risco. Apostamos nisso as nossas próprias vidas.
A nossa Democracia tem cometido erros, mas o menor não será decerto escamotear a realidade. E a realidade é fundamental para se enfrentar os graves problemas da Humanidade.

quinta-feira, 27 de agosto de 2020


UM MUNDO INFESTADO DE GÉNIOS
Carlos Rodarte Veloso
“O Templário”, 27 de Agosto de 2020
A proliferação de governantes autoritários um pouco por todo o mundo diz muito pouco sobre a actual tendência dominante na política internacional, contaminados que estamos pelo surgimento e/ou manutenção de pequenos e grandes ditadores que, não contentes com a nefasta acção das suas políticas populistas, deram agora em génios do pensamento “científico”, opinando tranquilamente sobre as mais diversas matérias com o atrevimento dos ignorantes, como é o caso do aconselhamento de “medicamentos” contra o coronavírus levado a cabo por Trump ou Bolsonaro, sob a forma de autêntica banha da cobra televisiva, com todos os seus ridículos tiques, pouco consentâneos com a gravidade das suas funções.
Desde o famosíssimo aconselhamento da ingestão de lixívia, por Trump, ao de vodka e sauna através do verbo poderoso de Lukashenko, presidente da Bielorrússia – felizmente agora bem apertado por um povo farto de o suportar – sem esquecer o recordista da asneira que perora do alto do Palácio do Planalto em Brasília, aquele que tira e põe a máscara de protecção conforme a disposição do momento enquanto fala da “gripezinha” que infesta o mundo como se de uma dor de dentes se tratasse, ao superpresidente da Rússia que, tal como os seus congéneres atrás mencionados, ensaia os seus recentíssimos “conhecimentos” científicos na própria família, passando por cima de todas as necessárias cautelas a ter com produtos médicos ainda não devidamente ensaiados…
Os outros ditadores ou candidatos a ditador, menos asininos mas não menos perigosos, sufocam tranquilamente os seus respectivos povos com leis antidemocráticas de todo o género, enquanto os reprimem violentamente, mas sempre arvorados em exemplos da liberdade e de progresso, casos da China, da Turquia, da Coreia do Norte, da Venezuela, das Filipinas e mais meia-dúzia deles, que infelizmente incluem algumas potências europeias.
É evidentemente chocante que assim seja, mas a verdade é que as etiquetas que cada um põe a si próprio não me autoriza a garantir a sua maior ou menor “democracia”, muito especialmente dos Estados Unidos da América, estes em queda acentuada devido ao autoritarismo de Trump que, esperamos, venha a ser aniquilado nas próximas eleições, e regressando o país às suas características mais dialogantes.
Mas fora esse caso de alguma esperança, estamos a repetir muitas das condições que conduziram aos conflitos militares do século XX, com ditadores tão férteis em ideias pseudocientíficas como Hitler com as suas sinistras teorias raciais que conduziram ao Holocausto, ou Mussolini com o seu imperialismo “romano”, além das ditaduras de Portugal e da Espanha, do Japão e todos os casos que conduziram ao reforço de uma época negra na História do Mundo.
Também nós, Portugueses, enfrentamos agora o fantasma do populismo perfeitamente artificial, manipulado por demagogos aventureiros e alimentado pelo ressurgimento de uma extrema-direita anticonstitucional, que um governo exemplarmente democrático tem alimentado pela permissividade, enquanto tendências consideradas obsoletas como o racismo, a xenofobia e outras formas radicais de preconceito são alimentadas nas redes ditas sociais, pretexto cada vez mais manifesto para com a criação de perfis falsos iludir a opinião pública sobre a “bondade” de um fascismo que o 25 de Abril apenas enfraqueceu.
Os saudosistas do Estado Novo, quais novos “génios” da ciência política, aí andam a pescar os incautos, ao mesmo tempo que mentem descaradamente sobre os quase 40 anos de desgraça que as actuais gerações felizmente não conheceram e, por isso mesmo são sensíveis à sua propaganda.
Eleições, a verdadeira vacina contra o autoritarismo, reduzirão decerto os perigos que nos ameaçam. E, acima de tudo, a verdade das coisas para combater ambas as epidemias que nos assolam: a pandemia e a mentira!

sábado, 15 de agosto de 2020


DESTRUIÇÃO MACIÇA
Carlos Rodarte Veloso
“O Templário”, 13 de Agosto de 2020
“Beirute e as armas de destruição maciça à espreita na próxima esquina da incúria”, seria um belo título para a terrível explosão registada há dias no porto de Beirute, com o seu cortejo de vítimas e a destruição da bela capital do Líbano, o velho país de comerciantes e navegadores que na Antiguidade se chamava Fenícia.
No entanto, tratou-se, não de uma explosão nuclear, mas da “simples” reacção química de várias toneladas de nitrato de amónio, composto químico salino usado na agricultura, há vários anos depositado sem controlo, em armazéns do porto de Beirute.
Ou seja, um fertilizante, que decerto também existia no Iraque de Saddam Hussein, como aliás em todos os países intervenientes, poderia ter servido de móbil muito mais consistente para o ataque norte-americano de 2003 àquele país, do que as anunciadas “armas de destruição maciça” que, afinal, se comprovou nunca terem existido…
O ridículo do apoio dos “aliados” às “teses” de Bush não poderia ser maior do que a vergonha que arrastou para cima dos subservientes lacaios dos EUA, Portugal inclusive, na pessoa do seu então Primeiro-ministro, Durão Barroso.
O problema é que o dito nitrato dificilmente poderia ser classificado como “arma”, como acontece com os depósitos de gasolina, gás butano, e outros combustíveis, líquidos ou gasosos de que dependem as economias de todo o mundo, todos eles fortemente explosivos.
Curioso é o facto do Presidente do Líbano, depois do choque manifestado perante as terríveis explosões que lhe destruíram a capital, e da sua alegada e firme decisão de abrir um inquérito impiedoso às responsabilidades pelo ocorrido, vir agora ventilar uma hipótese de a catástrofe ser, não acidental, mas motivada por um atentado através de um míssil ou de uma bomba, abandonando assim a tese do acidente, e embarcando numa hipótese apenas defendida, até então, pela reconhecida argúcia do presidente dos EUA…
Claro que a população de Beirute revolta-se nas ruas, exigindo a demissão do governo, sendo de imediato reprimida impiedosamente pelas forças policiais.
O presidente do Líbano promete agora eleições antecipadas e assistimos à impotência de uma população carente de todos os bens essenciais, sobrevivendo agora num mar de ruínas, e dependente apenas das promessas de um governante inconstante, que tenta desesperadamente salvar a face!

sábado, 8 de agosto de 2020

 CONTRADIÇÕES DA 3ª IDADE

Carlos Rodarte Veloso

“O Templário”, 6 de Agosto de 2020
Ao longo de milénios, a velhice tem sido encarada ora como sinónimo de experiência – e, como tal, valorizada ao ponto de integrar socialmente os corpos dirigentes da comunidade – ora desvalorizada como parte inútil da mesma, ou, simplesmente, como um fardo social.
O nosso tempo actual está dividido entre essas duas concepções extremas, pelo menos no que toca a Portugal: por um lado, a velhice – mais vulgarmente denominada 3ª idade – como um tempo em que as gerações mais idosas continuam a prestar apoio aos mais jovens devido ao cada vez mais difícil acesso a um emprego estável, não apenas sustentando-os, mas mantendo-os na casa familiar, por outro, a ruptura intergeracional, na melhor das hipóteses com a entrega dos idosos a instituições – lares – que os suportem até aos seus derradeiros momentos ou, na pior das hipóteses, o puro e simples abandono dos mesmos em hospitais ou outras instituições afins, situação aliás ilegal quando o internamento não corresponde à situação de doença, mas “apenas” a um alijar de responsabilidades.
Entre estes extremos, assistimos a uma desvalorização dos “maiores” – como lhes chamavam honrosamente no passado e ainda hoje em Espanha – que muitas vezes conduz a abusos e até, a maus tratos, cada vez mais denunciados nas redes sociais.
No entanto, e fugindo a esse extremar de situações, o próprio tratamento dos mais velhos no dia-a-dia corresponde a um conjunto de atitudes paternalistas, que vão desde a infantilização do tratamento, com o predomínio de diminutivos na relação para com eles, quando doentes, mas no próprio contacto informal, abarcando as simples relações comerciais, ou – o que está quase institucionalizado, nas relações entre pessoal de saúde e o “paciente”, denominação essa que diz quase tudo.
Por outro lado, essa atitude de superioridade passa pela redução de todos os doentes a um denominador comum de ignorância total em relação aos assuntos que lhes dizem respeito, quer ao nível médico, quer à simples relação humana.
São raros os técnicos de saúde que “descem” a explicações pormenorizadas sobre a situação de cada doente, como se o pessoal médico e restantes quadros medissem pela mesma bitola todos quantos lhe passam pelas mãos, desvalorizando assim toda a formação que possam – ou não – ter adquirido ao longo da vida, indiferentes a uma possível – e frequente – riqueza de conhecimentos, não poucas vezes superior à deles próprios.
Esta ignorância, por vezes escandalosa, ofende não poucos pacientes, mas é assim que o sistema funciona… lamentavelmente!

quinta-feira, 23 de julho de 2020



O INSUPORTÁVEL PESO DA IGNORÂNCIA
Carlos Rodarte Veloso
“O Templário”, 23 de Julho de 2020
O acesso universal às redes sociais tem contribuído para dar uma falsa ideia da literacia das massas que as utilizam, tanto para opinar sobre a generalidade dos temas abordados, como para uma falsa noção de igualdade dos conhecimentos, que pode equiparar qualquer utente, tenha ele um curso universitário, ou apenas noções básicas – e quantas vezes erróneas – da leitura e da sua interpretação.
Este acesso, que varia de país para país, acaba por ser manipulado, nos regimes ditatoriais, com a “simples” censura ou, mais vulgarmente, com a repressão da liberdade de expressão através sua vigilância através de diversos meios de controlo que alterarão ou, simplesmente, anularão toda a opinião considerada “subversiva” ou, em última análise, o direito de comunicar quaisquer ideias.
Nos países democráticos, como Portugal, onde tais instrumentos repressivos são inaceitáveis – pelo menos teoricamente – assistimos a uma catadupa de opiniões acerca de tudo e mais alguma coisa, dando origem à possibilidade de vários autores repetirem, com nomes diferentes, as mesmas opiniões, acabando por iludir a opinião pública sobre o peso das mesmas.
A esta manipulação política, capaz de alterar os próprios resultados eleitorais, fenómeno dia a dia mais denunciado até a nível internacional, soma-se a confusão aflitiva entre as fontes credíveis baseadas na Ciência, e as opiniões perfeitamente disparatadas acerca de assuntos seriíssimos e há muito tempo estudados, que vão da utilização de vacinas e outros medicamentos – assunto actualmente candente e vital! – às ideias sobre a evolução das espécies, à própria forma da Terra, às interpretações da História Universal, aos problemas ecológicos, nova linha da frente para a sobrevivência da Humanidade…
E enquanto as opiniões se dividem, muitas vezes por mero capricho dos “especialistas” a soldo dos média, que tudo parecem saber, agora crismados de “tudólogos”, somos submersos por uma massa infindável de opinantes que sem sequer ler mais do que os títulos dos artigos, os mimoseiam com “gostos”, “risos”, expressões de “ódio”, etc. decerto não pela concordância com as suas “teses”, mas… porque assim dão a falsa ideia de dominar assuntos de que muitas vezes não fazem a mais pequena ideia.
É ridículo “brilhar” pelas aparências, mas é tão antigo como a espécie humana…
Vanitas vanitatum et omnia vanitas…

sábado, 18 de julho de 2020


A BOLSA OU A VIDA
Carlos Rodarte Veloso
“O Templário”, 16 de Julho de 2020
Os altos e baixos do corona vírus, no caso dos países europeus, já que os Estados Unidos e o Brasil, devido ao comportamento totalmente errático e irresponsável dos seus governantes – que, atenção, não são casos únicos no mundo, “apenas” os piores exemplos – tem dado origem ao encerramento de fronteiras, ou “apenas”, à imposição de quarentenas, por vezes contra toda a lógica, como é o caso das restrições ao livre-trânsito de turistas ingleses para Portugal, mormente quando o provavelmente pior exemplo dos resultados do combate à pandemia é precisamente o da Grã-Bretanha, que assim se impõe arrogantemente ao seu mais antigo aliado, Portugal, nem por isso tão flagelado…
É sabido que estas restrições deveriam ter uma dupla face, o encerramento recíproco das fronteiras, pelo menos em pé de igualdade com os ingleses, como sabemos os melhores “clientes” do nosso turismo.
Isto põe um grave problema, de essas represálias – pois de represálias se trata - que os nossos governantes não parecem dispostos a aceitar, com a ponderosa razão dos prejuízos, especialmente para o Algarve, mas também para a actividade turística em geral, geradora do equilíbrio económico do nosso país, lançarem a pesada sombra do desemprego sobre os milhares de profissionais da hotelaria e do turismo actualmente visados pela maior das crises.
No entanto e apesar de não ser apenas o Reino Unido a restringir as viagens dos seus nacionais para Portugal, não deveríamos ver nesta autêntica chantagem económica, algumas vantagens, como a facto de ficarmos protegidos da chegada de uma perigosa invasão de infectados com o corona vírus, como se tem visto totalmente indisciplinados quanto à aceitação das regras de confinamento e, até, à autêntica selvajaria com que lidam com quaisquer proibições?
Pois é… e a actividade económica que assim fica fatalmente ferida durante todo o Verão? Na verdade temos vislumbrado uma solução que é quase intuitiva. Os portugueses, impedidos também de se deslocar livremente no espaço europeu, elegem massivamente os destinos turísticos nacionais e vemos os espaços rurais e balneares do Norte e Centro “invadidos” pelos nossos compatriotas que assim começam a descobrir Portugal… Os lucros talvez não sejam tão consideráveis, mas parecem seguros.
Quanto à nossa “galinha dos ovos de ouro”, o Algarve, porque não promover esse destino turístico junto de outros países que não o Reino Unido? Ainda restam muitos para além dos que seguiram o exemplo do “mais velho aliado”…
Assim assegurar-se-iam orçamentos mais moderados, mas porventura mais seguros.
É tudo uma questão de tempo, não será?

quinta-feira, 9 de julho de 2020


ENQUANTO ESPERAMOS
Carlos Rodarte Veloso
“O Templário”, 9 de Julho de 2020
Enquanto esperamos que a Ciência encontre a vacina ou, no mínimo, um tratamento eficaz para neutralizar o vírus que pôs a nossa vida de pernas para o ar, aos altos e baixos vamos aguentando, não “apenas” os efeitos da pandemia, os óbitos incluídos, claro, mas também o contágio galopante, os internamentos, a parafernália de efeitos secundários, de que ainda não conhecemos a totalidade, a par do impacto catastrófico na economia e, assim na vida de massas crescentes de trabalhadores que tendem, cada vez mais, para o desemprego … para miséria pura e simples.
A tudo isto acrescenta-se a tragédia que atinge milhões de migrantes, internados em condições dramáticas em campos de refugiados, que nada mais oferecem do que a “esperança” de uma sobrevivência cada vez mais penosa e desumana, uma “sobrevivência” nas fronteiras da morte.
A esperança na Ciência é sem dúvida a única que nos resta, já que todos os simulacros de medicamentos ou outras práticas, invasivas ou não, homeopáticas até, nascidos da imaginação mágica de séculos de ignorância e superstição, ressurgem agora com a máxima força, proporcionando uma ilusória segurança que não corresponde a nada de concreto, excepto – e isso é gravíssimo! – o descrédito da investigação pura e, assim, o seu aparente descrédito face a “soluções” baseadas apenas na fé supersticiosa em placebos, mais conceituados quando de origem oriental, mas sempre e sempre, fracasso garantido.
As novas religiões agora na moda, especialmente no continente americano, com os seus gurus multimilionários, controlam multidões a quem vendem gato por lebre, ultrapassando as religiões tradicionais tanto na adesão de massas pagantes politizadas que apoiam tudo quanto é irracional, desde a recusa da vacinação, sob os mais inconcebíveis pretextos, até à simples recusa de transfusões, fazendo assim recuar a própria Civilização para os estádios mais primitivos.
Cinzentas entidades políticas aproveitam esse domínio para promover os seus líderes e conquistar as massas ignorantes para o apoio a velhos sistemas que pretendem ressuscitar, como está a acontecer no Brasil de Bolsonaro, apoiante de uma nova ditadura militar, enquanto algo de semelhante se desenvolve nos Estados Unidos de Trump e numa série de países espalhados pelo mundo.
Denominador comum destas potências em crescimento, o negacionismo face às alterações climáticas, a agressividade económica contra todas as potências rivais, e o desinteresse revelado face à própria pandemia que a todos atinge pesadamente…
E, entretanto, vamos esperando!

sábado, 27 de junho de 2020



CONTEXTOS DO DIABO
Carlos Rodarte Veloso
“O Templário”, 25 de Junho de 2020

O tão necessário como urgente anti-racismo, finalmente na ordem do dia devido aos últimos e gravíssimos acontecimentos nos EUA, está paradoxalmente a dar espaço a um fanatismo absolutamente irracional que resolveu esquecer as lições da História, pior, resolveu ignorar a importância da História como testemunho de comportamentos condenáveis, assim fazendo esquecer aquilo que deveria ficar na memória da Humanidade, como lição, como exemplo a não seguir.
A destruição de estátuas de criminosos racistas e esclavagistas acaba por não apoiar a causa anti-racista, por um lado porque os vitimiza falsamente junto dos seus actuais apoiantes, por outro, devido à total ignorância dos fanáticos destruidores, que não sabendo identificar os comportamentos referentes a cada época, assim criminalizam figuras históricas notáveis que então se encontravam perfeitamente integradas em práticas hoje condenáveis ou, pelo menos, criticáveis.
Não me refiro, evidentemente, aos erros crassos desses fanáticos quando atacam figuras exemplares da nossa História, como foi o caso do padre António Vieira, ele próprio mestiço e protector dos índios brasileiros contra a sua escravização pelos colonos brasileiros, demonstração cabal da ignorância ou estupidez pura e simples destas massas ignorantes.
E que dizer da diabolização de um Gandhi, de um Winston Churchill?! Alguns pecados – mesmo graves – apagam o seu papel luminoso na História da Humanidade, um como exemplo de pacifismo militante, o outro por ter salvado o mundo do monstro nazi?
Levando ao extremo estes comportamentos iconoclásticos, porque não destruir as estátuas dos faraós e dos reis do Egipto e da Mesopotâmia, dos governantes de Atenas e das cidades-estados da Grécia Clássica, dos filósofos e políticos gregos e romanos, quase todos eles racistas e utilizadores de escravos – não necessariamente negros – muitos dos santos das Igrejas cristãs, e não vale a pena ir mais longe, porque a dinamitação dos budas e de inúmeras estátuas de Palmira pelos taliban são um excelente aviso do terreno instável em que tais criaturas se situam.
O desconhecimento dos contextos históricos não pouparia grandes figuras da nossa História, a começar pelo Infante D. Henrique, que beneficiou do comércio de escravos africanos, dos nossos primeiros reis que escravizaram muitos dos muçulmanos vencidos na Reconquista cristã, em resposta, é bom lembrá-lo, à anterior ocupação islâmica da Península Ibérica, não propriamente meiga para com os cristãos…
E ainda há quem deite o olho cobiçoso aos próprios edifícios construídos nessas épocas, como a Torre de Belém (!!!), e outros que honram o património português.
Tenho como certo que esta apropriação de bandeiras equivocamente atribuídas à extrema-esquerda não passa de uma provocação de neonazis e dos seus aliados do Chega, como forma de revoltar toda a população contra a Esquerda, assim conotada com os imbecis que lhes estão a dar tempo de antena.
Encarando com objectividade esta quanto a mim falsa questão, a fúria iconoclasta a que estamos assistir é demasiado parecida com a queima de milhares dos livros perpetrada pelos nazis no início da ditadura de Hitler, com antecedentes históricos tão “respeitáveis” como as várias destruições da Biblioteca de Alexandria por fanáticos cristãos e muçulmanos, em épocas diferentes mas com “argumentos” equivalentes…
No entanto, reconheço que devem ser retiradas – não destruídas! – do espaço público as imagens de figuras de proa do esclavagismo e do racismo, também  associadas às maiores crueldades infligidas aos povos colonizados. Ou de dirigentes políticos totalitários e seus lacaios, como os nazis e os diversos governantes fascistas, sem esquecer os estalinistas.
Como ir então ao encontro da necessidade que é real e urgente de as guardar recatadamente, para memória futura, principalmente aquelas com evidente qualidade artística?
Penso que lhes poderão ser disponibilizadas áreas reservadas nos museus, desde que devidamente contextualizadas historicamente. Pode ser um património marcado pelo estigma do ódio – caso dos campos de concentração nazis – mas não pode ser ignorado. E é muito educativo!
Não é por acaso que neonazis já tentaram destruir alguns desses campos, como forma de negar o Holocausto.
Agora, se calhar, consideram-nos campos de férias ou complexos turísticos!
Essas marcas materiais do inominável são fundamentais para que a Memória se mantenha viva e vigilante e a História não se repita, como começa a acontecer!

sábado, 6 de junho de 2020



VOLTAMOS À GRIPEZINHA?

Carlos Rodarte Veloso

“O Templário”, 4 de Junho de 2020

Parece que para um número inesperado de iluminados e face ao êxito, aliás reconhecido internacionalmente, da contenção do coronavírus em Portugal – até apesar do irresponsável relaxamento das medidas de confinamento por parte de muitos utentes do espaço público – surgiu o segundo momento de combate político da direita contra o governo…
Primeiro, as medidas tomadas tinham sido “tardias”, os erros e carências eram mais que muitas, e a crítica era apontada a alegados erros sucessivos do governo na gestão da pandemia, o mesmo governo que acabou por controlar em termos suportáveis a cavalgada mortífera, ao mesmo tempo que reformava o próprio espaço antes tão criticado do Serviço Nacional de Saúde e o reinventava, criando condições para uma nova eficácia.
Entretanto, em países bem identificados quanto à interpretação surrealista que os seus dirigentes faziam da pandemia, desde a “gripezinha” de Bolsonaro, à deriva mental de Trump e às suas “opiniões” tweetadas sem um pingo de suporte científico ou de vergonha, chegando a aconselhar a desinfecção humana com lixívia (!), às mortíferas hesitações de Boris Johnson, apenas superadas a partir da sua própria e pessoal infecção pelo vírus. Só nesse momento pareceu encarar a realidade, mas à custa de quantas vidas já perdidas!
Até então, a extrema-direita ressabiada com os êxitos das medidas sanitárias impostas pela Direcção Geral de Saúde, tentava a todo o custo encontrar argumentos com que demonstrar a “incompetência” do governo na luta contra a pandemia, mas sem pôr em causa a sua perigosidade.
Agora saem inesperadamente da sombra uma série de “especialistas” que assinam artigos nos media mais reaccionários e criticam o governo por ter tomado medidas, nãos apenas desnecessárias, mas lesivas da economia e da qualidade de vida dos portugueses, ao enfrentar a pandemia nos termos em que o fez!
Preso por ter cão e preso por não o ter!
Claro que a direita que se manifesta ruidosamente nas redes sociais e na imprensa diversifica as suas opiniões, desde os programas de televisão mais “soft”, como o “Sexta às Nove” da RTP 1, em que a “isenta” Sandra Felgueiras faz um “jornalismo de investigação” sem lugar para o contraditório, aos jornais de direita assumida que entram agora na deriva negacionista do vírus, que acabaremos por considerar ao nível da tal “gripezinha” tão acarinhada por Bolsonaro, o “dirigente” mais estúpido, ignorante e assumidamente fascista deste mundo!