sexta-feira, 17 de novembro de 2017


ÍNDICE DOS ARTIGOS PUBLICADOS NESTE BLOGUE
EM 17 DE NOVEMBRO DE 2017

-                           Passagem da Linha, (Blogue – Passagemdalinha.blogspot.pt)
·        “Passagem da Linha”, 23 de Outubro de 2011.
·        “A guerra para acabar com todas as guerras”, 23 de Outubro de 2011.
·        “O Referendo”, 3 de Novembro de 2011.
·        “O famoso referendo grego”, 19 de Novembro de 2011.
·        “Humor Lusitano”, 9 de Janeiro de 2012.
·        “Os direitos dos animais”, 5 de Agosto de 2014.
·         “Regresso à cinzenta realidade”, 5 de Setembro de 2014.
·        “O século XXI”, 28 de Agosto de 2014.
·        “Voltaire e a Tolerância”, 4 de Setembro de 2014.
·        “O Banco Bom e o Banco Mau”, 11 de Setembro de 2014.
·        “Primárias”, 28 de Setembro de 2014.
·        Descrédito e descaramento”, 2 de Outubro de 2014.
·        “Lições da História”, 19 de Outubro de 2014.
·        “O Património do nosso Descontentamento”, 26 de Outubro de 2014.
·        “A Festa de Finalistas”, 19 de Novembro de 2014.
·        “Restauração”, 30 de Novembro de 2014.
·        “A paciência dos pacientes”, 7 de Dezembro de 2014.
·        “Charlie somos todos nós”, 17 de Janeiro de 2015.
·        “Sobreviver no Inverno”, 29 de Janeiro de 2015.
·        “Cobardia”, 15 de Fevereiro de 2015.
·        A Choldra”, 16 de Março d de 2015.
·        “Mariano Gago e a Ciência em Portugal”, 26 de Abril de 2015.
·        “O meu 25 de Abril – Uma semana prodigiosa”, 1 de Maio de 2015.
·        “Palmira, património mundial em perigo”, 7 de Junho de 2015.
·        “Sinais dos Céus”, 18 de Setembro de 2015.
·        “Mitos urbanos”, 27 de Junho de 2015.
·        “O que nós devemos à Grécia”, 30 de Julho de 2015.
·        “Palmira e a Civilização”, 25 de Agosto de 2015.
·        “Os Refugiados, a Esquerda e as Eleições Legislativas”, 13 de Setembro de 2015.
·        “A obsessão de Passos Coelho”, 19 de Setembro de 2015.
·        “O mistério das sondagens”, 26 de Setembro de 2015.
·        “Um cofre cheio de mentiras”, 1 de Outubro de 2015.
·        “O que faremos a estes votos?”, 8 de Outubro de 2014.
·        “Humildade”, 15 de Outubro de 2015.
·        “Se isto é um Presidente”, 1 de nOvembro de 2015.
·        “Terror absoluto”, 16 de Novembro de 2015.
·        “Um mundo para salvar”, 20 de Dezembro de 2015.
·        “Remake hard core de ‘Os Pássaros’ de Hitchcock”, 23 de Junho de 2016.
·        “A última oportunidade da Europa”, 7 de Julho de 2016.
·        “Jogos Olímpicos na ‘Cidade Maravilhosa’”, 6 de Agosto de 2016.
·         “E se Trump vence?”, 22 de Setembro de 2016.
·        “O ego de Sócrates”, 29 de Setembro de 2015.
·        “Do desconcerto do mundo”, 3 de Novembro de 2016.
·        “Um branco bronco na Casa Branca”, 17 de Novembro de 2016.
·        “O Dilúvio de 1967”, 25 de Novembro de 2016.
·        Humboldt, precursor do ambientalismo”, 1 de Dezembro de 2016.
·        “Ser Professor”, 7 de Dezembro de 2016.
·        “História e Verdade”, 21 de Dezembro de 2016.
·        “A Odisseia: onde nascem os contos, 22 de Dezembro de 2016.
·        “Corfu, a ilha dos Feaces”, 30 de Dezembro de 2016.
·        “Arte e Cultura Geral”, 31 de Dezembro de 2016.
·        “Seis horas em Atenas”, 7 de Janeiro de 2017.
·        “Retábulos e portais barrocos transmontanos”, 7 de Janeiro de 2017.
·        “Mário Soares o combatente sem medo da Liberdade”, 8 de Janweiro de 2017.
·        “Olhar, ver e sentir: a génese do gosto artístico”, 12 de Janeiro de 2017.
·        “O Manuelino, arte do Tardo-Gótico português”, 22 de Janeiro de 2017.
·        “Associação de malfeitores”, 24 de Janeiro de 2017.
·        “Gravuras animadas do Paleolítico em Foz Côa”, 25 de Janeiro de 2017.
·        “À beira do abismo”, 27 de Janeiro de 2017.
·        “Camões e o seu Tempo”, 30 de Janeiro de 2017.
·        “Identidade nacional e globalização”, 2 de Fevereiro de 2017.
·        “As Capelas de Ossos em Portugal”, 6 de Fevereiro de 2017.
·        “Iconografia do Índio Brasileiro na arte quinhentista portugue”A Mulher na Arte”, 9 de Fevereiro de 2017.
·        “Montesinho, Trás-os-Montes”, 12 de Fevereiro de 2017.
·        “A Mulher na Arte I”, 16 de Fevereiro de 2017.
·        “Do carpe diem à vanitas”, 22 de Fevereiro de 2017.
·        “A Mulher na Arte II”, 25 de Fevereiro de 2017.
·        “Perspectiva e ‘Trompe l’Oeil’ ”, 28 de Fevereiro de 2017.
·        “Mulher”, 8 de Março de 2017.
·        “A Cidade das Flores - I”, 9 de Março de 2017.
·        “Os dois ‘Cristos Ressuscitados’ de Miguel Ângelo”, 14 de Março de 2017.
·        “A Cidade das Flores - II”, 16 de Março de 2017.
·        “O ‘antigamente’ da nossa vida colectiva”, 19 de Março de 2017.
·        “A Cidade das Flores- III”, 23 de Março de 2017.
·        “Pigmalião e Galateia, um mito intemporal”, 27 de Março de 2017.
·        “A Cidade das Flores – IV, 6 de Abril de 2017.
·        “Marginalia integrada em edifícios religiosos portugueses”, 10 de Abril de 2017.
·        “O Plátano de Cós”, 11 de Abril de 2017.
·        “Coimbra, 17 de Abril de 1969 – A caminho da Revolução” (Actualização de artigo publicado no Cidade de Tomar de 17-4-1998)
·        “O Farol-Torre da Corunha”, 26 de Abril de 2017.
·        “A Toscana”, 27 de Abril de 2017.
·        “Historial do Primeiro 1º de Maio”, 1 de Maio de 2017.
·        “Borboletário tropical no Parque Ambiental de Santa Margarida”, 6 de Maio de 2017
·        “Apontamento sobre a arquitectura templária”, 9 de Maio de 2017.
·        “Esclavagismo e racismo no Portugal das Descobertas”, 11 de Maio de 2017.
·        “Vamos proteger as nossas árvores!!!”, 12 de Maio de 2017.
·        Vitória de Portugal sem ser no futebol!!! Ou O triunfo da simplicidade”, 13 de Maio de 2017.
·        “Pequeno apontamento sobre a história da porcelana europeia”, 14 de Maio de 2017.
·        “Tomar e o Cerco de 1190 ou Como se conta a História”, 14 de Maio de 2017.
·        “Assassinos diplomados da Língua Portuguesa, 17 de Maio de 2017.
·        “Habemus Papam”, 18 de Maio de 2017.
·        “Finisterra”, 28 de Maio de 2017.
·        “António Barreto a caminho da ribalta pelos piores motivos”, 31 de Maio de 2017.
·        “Dia Mundial da Criança, 1974”, 1 de Junho de 2017.
·        “O Convento de Cristo alvo de vandalismo devido a filmagens”, 3 de Junho de 2017.
·        “Êxtase de Santa Teresa de Ávila, de Bernini”, 3 de Junho de 2017.
·        “Património da Humanidade em perigo”, 8 de Junho de 2017.
·        “O desgosto de Marine Le Pen”, 15 de Junho de 2017.
·     “Os incêndios, última ‘janela de oportunidade’ da direita: intriga, boato e calúnia, a única linguagem que conhece”, 20 de Junho de 2017”
·        “Fontes de Roma”, 24 de Junho de 2017.
·        “Igrejas Rupestres do Vale do Ebro”, 26 de Junho de 2017.
·        Independentemente das culpas de alguns responsáveis que devem ser inquiridos e culpabilizados”, 2 de Julho de 2017.
·        “O Templo Ecuménico da Serra da Lousã”, 9 de Julho de 2017.
·        “228 Anos da Tomada da Bastilha”, 14 de Julho de 2017.
·        “Tomar: o espaço e o tempo - Da Romanização à Idade Média”, 22 de Julho de 2017.
·        “Tomar: o espaço e o tempo – Destruição do Património Edificado”, 29 de Julho de 2017.
·        “Um campo de extermínio nazi em França”, 30 de Julho de 2017.
·        “Os media de referência, os eucaliptos e a chicana política”, 4 de Agosto de 2017.
·        “Monstros em Veneza ou A Galinha dos Ovos de Ouro”, 10 de Agosto de 2017.
·        “A Torre-Mirante de Santa Cruz, um ar da Toscana na região Oeste de Portugal”, 10 de Agosto de 2017.
·        “A Torre-Mirante de Santa Cruz, um ar da Toscana na região Oeste de Portugal – Adenda”, 11 de Agosto de 2017.
·        “O terrorismo incendiário”, 14 de Agosto de 2017.
·        “Batalha de Aljubarrota”, 14 de Agosto de 2017.
·        “Manuscrito, uma página autobiográfica”, 15 de Agosto de 2017.
·        “Traquinices apocalípticas”, 19 de Agosto de 2017.
·        “Vigo e as Rias Baixas”, 24 de Agosto de 2017.
·        “Por quem os Sinos Dobram”, 24 de Agosto de 2017.
·         “Os ratos estão a sair das sarjetas”, 31 de Agosto de 2017.
·        “A ‘Universidade’ dos despeitados e dos candidatos aos belos tachos”, 7 de Setembro de 2017.
·        “Fabulário 1 – A Invenção da Lira”, 13 de Setembro de 2017.
·        “Duas greves muito pouco exemplares”, 15 de Setembro de 2017.
·        “Portugal e o Mundo nas Vésperas das Autárquicas”, 24 de Setembro de 2017.
·        “Portugal e a Catalunha, de 1640 a 2017”, 28 de Setembro de 2017.
·        “Rajoy, o novo ‘Caudillo’ da Espanha”, 5 de Outubro de 2017.
·        “Uma igreja românica no Alto Minho: Bravães”, 8 de Outubro de 2017.
·        “Assunção e água benta cada um toma a que quer”, 12 de Outubro de 2017.
·        “Belas-Artes e Artes Aplicadas, a falsa hierarquia do gosto”, 19 de Outubro de 2017.
·        “Arte e utilidade”, 2 de Novembro de 2017.
·        “Arte e poder”, 9 de Novembro de 2017.
·        “Arte e Propaganda da Antiguidade ao século XIX”, 16 de Novembro de 2017.
·        “A propósito de Darwin e da Evolução: a estratégia da aranha”, 17 de Novembro de 2017.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017


ARTE E PROPAGANDA DA ANTIGUIDADE

AO SÉCULO XIX

Carlos Rodarte Veloso

“O Templário”, 9 de Novembro de 2017

A Arte como instrumento do poder, manifestado pela produção de objectos artísticos a ele associados simbolicamente – tronos, ceptros, coroas – manifestou-se também através da narrativa gráfica das acções de semi-deuses, heróis, reis, sacerdotes, mártires ou combatentes, atribuindo-lhes acções ou qualidades excedendo ou manipulando de forma laudatória a realidade histórica.
A arte assim produzida podia manifestar-se na magnificência dos monumentos ou na representação plástica falseada de eventos significativos destinados a exaltar a figura de poder.
Dentro desta lógica inclui-se a descrição de vitórias militares nem por isso muito conclusivas, como êxitos estrondosos. É o caso do grande número de representações da batalha de Kadesh  travada c. 1300 a.C. entre o faraó Ramsés II e o rei dos Hititas, apresentada como uma vitória indiscutível dos egípcios. Na verdade tratou-se de um “empate” em termos militares, já que as posteriores negociações e o tratado de paz que se lhe seguiu equiparam os dois monarcas, sendo ambos agraciados pelo adversário com ricos presentes e a oferta em casamento de uma das respectivas filhas como forma de garantir a paz entre as duas potências. Mas os baixos-relevos, pinturas murais e em papiro  (fig. 1) sobreviveram até aos nossos dias, alimentando o mito de faraó invencível, um dos mais antigos exemplos conhecidos da propaganda política na História da Humanidade.


Todos os povos da Antiguidade, mas também os das restantes épocas até aos nossos dias tiveram o cuidado de difundir uma imagem, geralmente muito exagerada dos seus êxitos e da  justeza do seu programa político, social ou religioso.
Os Romanos , depois de concluído o cortejo monumental pelas ruas de Roma  – o “triunfo” – destinado a homenagear o general vitorioso numa batalha ou numa campanha militar decisiva, construíam arcos de triunfo comemorativos, como o de Tito (fig.2), filho do imperador Vespasiano, ele próprio posterior governante do Império, destinado a fixar para a posteridade a sua vitória sobre os Hebreus no ano 70.


Este tipo de monumentos comemorativos não ficou limitado à época romana, mas foi utilizado durante a época contemporânea, ao serviço de governantes como Napoleão Bonaparte, promotor dos arcos de triunfo parisienses “du Carrocel” e de “l´´Étoile”, comemorando as suas vitórias, embora também o bélico rei da Prússia Frederico Guilherme II tenha feito erigir, em Berlim, a famosa Porta de Brandenburgo, entre 1788 e 91, como símbolo da paz!
Também a Igreja católica se apropriou da Arte como meio de propaganda religiosa, quer edificando igrejas cada vez mais esmagadoras em termos de grandiosidade e beleza, de que a Basílica de S. Pedro em Roma e a grande praça que a envolve (fig. 3) são o exemplo cimeiro, quer difundindo imagens dos mártires e santos do catolicismo, em atitudes patéticas, quer incluindo chocantes cenas de martírio, imagens essas que passam a ser “regulamentadas” pelas decisões do Concílio de Trento no ano de 1563 sobre o culto dos santos, as quais são impostas a todos os artistas de imagens sacras.


No entanto, a componente religiosa da propaganda é indissociável da componente política, já que o poderoso clero católico intervinha nas decisões dos monarcas através do conselho e influência dos seus padres confessores, possuindo ainda a tenebrosa arma repressiva do tribunal da Inquisição que nem os governantes poupava, contribuindo para a manutenção do atraso económico e social dos estados de obediência à Santa Sé, de que Portugal é um dos exemplos máximos.



quinta-feira, 9 de novembro de 2017


ARTE E PODER

Carlos Rodarte Veloso

“O Templário”, 9 de Novembro de 2017

Uma das mais reiteradas utilizações da Arte, mesmo que sob a capa da estética pura e simples, foi a sua aplicação às manifestações de poder, fosse ele político ou religioso, o que, em termos históricos, geralmente coincidiu.
Das armas cerimoniais, mesmo letais, destinadas apenas à exibição de um poder possuído por poucos, à construção de tronos, já correspondentes ao poder de um só, assim elevado a um nível superior ao dos seus súbditos, esses mesmos objectos tiveram equivalente nas armas de uso comum, assim acessíveis ao comum dos mortais, enquanto que os tronos se foram muito gradualmente vulgarizando até darem origem à peça de mobiliário que conhecemos como cadeiras.
Entre estes dois casos essa equivalência não é total: as armas dos comuns mortais antecederam a sua nobilitação através de uma decoração que quase as inutilizava como instrumento de morte. Os famosos propulsores paleolíticos,

Propulsor paleolítico

 destinados a multiplicar a potência do braço humano no arremesso de projécteis, são um caso muito evidente dessa reconversão, sendo evidente que os mais elaborados artisticamente seriam decerto objectos de prestígio embora pouco funcionais nos termos tradicionais. Do mesmo modo os ceptros, espadas cerimoniais, coroas e afins não escondem a sua primitiva finalidade, possivelmente cacetes e outras armas contundentes, espadas comuns ou capacetes de guerra.
Inversamente, os tronos não correspondem a objectos preexistentes, dado que, como está documentado abundantemente através da iconografia, as primeiras civilizações não se sentavam em cadeiras ou bancos, mas no chão, na melhor das hipóteses sobre esteiras, tapetes ou cochins. O trono só muito mais tarde é vulgarizado como “móvel de sentar”, isto é, cadeira, especialmente nas culturas europeias.
O trono, documentado na Suméria através das famosas estátuas do patesi (rei) Gudeia de Lagash (séc. XXI a.C.), 

O "Patesi" Gudeia de Lagash

tem equivalentes no Egipto dos faraós e nas restantes civilizações da Antiguidade. Na Idade-Média, o trono coexistia com diversos tipo de assentos, apenas acessíveis aos escalões mais altos da hierarquia, situação que se prolongou até ao fim do Absolutismo, já no século XVIII. Tem assim o trono um lugar literalmente cimeiro na História do Mobiliário.
Também símbolos do poder são as representações de certos animais especialmente associados à força ou ao seu hipotético domínio sobre os restantes animais. Os casos mais conhecidos são o Leão e a Águia, embora em diversas civilizações surja também o Dragão e outros animais, reais ou imaginários.
Sendo o trono um símbolo de poder, a maior altura que proporcionava a quem nele se sentava acaba por ter um equivalente no “assento vivo” que os reis, nobres e altos clérigos utilizavam, o cavalo. Por isso são tão importantes em termos da propaganda do poder as estátuas equestres, que se multiplicaram por todo Império Romano a coroar os arcos de triunfo, depois deles despojados pela necessidade do bronze em que essa estatuária estava fundida, já na época de decadência e queda do mesmo império.
Esse costume teve depois expressão nos diversos países do mundo, como forma de glorificar reis e heróis.

Estátua equestre de D. José
de Machado de Castro


Ao falar de “propaganda do poder”, afloro outro tema para o qual a Arte foi convocada e é ainda comum nas muitas culturas deste mundo global. A ele voltaremos.







quinta-feira, 2 de novembro de 2017


ARTE E UTILIDADE

Carlos Rodarte Veloso

“O Templário”, 2 de Novembro de 2017

"Folha de loureiro" paleolítica

"Vénus" de Willendorf

Poderão as ideias de Arte e utilidade ser associadas sem que a nossa consciência da sublimidade dos valores estéticos não se sinta vítima de uma autêntica heresia? É que a Arte atingiu um estatuto em muito superior à "vulgaridade" da utilidade.
No entanto tudo leva a crer que nos primeiros tempos da Arte, isto é, na Pré-História, todos os artefactos eram fabricados com uma finalidade essencialmente útil. O interesse material na produção de objectos úteis preponderava assim sobre a ideia “desinteressada” da produção artística.
Isso implicava a noção de um conjunto de práticas desenvolvidas com vista a ultrapassar os perigos de uma natureza hostil e incompreensível que punha em causa a sobrevivência daquela humanidade primitiva.
Para isso foram desenvolvidas duas actividades destinadas a transformar, por vias diametralmente opostas, esses perigos e angústias: a Técnica, forma racional de superar as dificuldades materiais, e a Magia, a prática de rituais puramente irracionais para dominar ou, pelo menos, pacificar, as perigosas forças da Natureza.
Ambas as abordagens tiveram um extraordinário desenvolvimento, a primeira dando origem à Ciência, a segunda à Religião.
Mesmo as belíssimas gravuras e pinturas rupestres e as estatuetas pré-históricas que chegaram aos nossos dias podem ser englobadas na ideia de utilidade, na medida em que tudo leva a crer que teriam finalidades úteis à sobrevivência dos grupos humanos que as produziram.
Por um lado, a fabricação de utensílios letais, lâminas e pontas de sílex, de osso ou de outros materiais resistentes, extremamente afiados, destinadas à caça e à transformação dos produtos resultantes dessa actividade: raspadores, furadores e agulhas para o tratamento das peles dela resultantes, ferramentas que se vão diversificar e aplicar a novas actividades económicas, surgidas em épocas posteriores.
Por outro lado, os artefactos esculpidos ou pintados, representando animais de caça e mulheres grávidas, as famosas “vénus” paleolíticas. A sua finalidade estaria possivelmente associada à magia, quanto mais não seja à magia “simpática” destinada a obter, no caso da representação de animais feridos por pontas de flecha, o futuro êxito da caçada dos mesmos. No caso das “vénus”, uma protecção à fertilidade da tribo, condição essencial à sua sobrevivência.
Por isso, Raymond Bayer, no seu livro “História da Estética”, insiste na ideia de que a Arte, nos seus primórdios, não é desinteressada, não existindo assim “uma Arte pela Arte”, conceito relativamente moderno e não universalmente reconhecido por Artistas e Críticos.
Segundo o mesmo historiador de Arte, “A criação consiste em modificações intencionais  que o espírito humano imprime em objectos da natureza”,  o que se pode aplicar tanto ao fabrico de armas, como de estátuas ou de magníficos edifícios e, até, às extraordinárias “capelas de ossos” barrocas, de que existem várias em Portugal, tendo por matéria-prima ossadas humanas.
“Além disso” – e  citando ainda Bayer – “se olharmos um pouco mais de  perto os instrumentos pré-históricos e verificarmos que eles se mostram a cada  momento  mais apropriados ao seu objectivo, compreendemos  a satisfação que deve ter sentido o homem quando conseguiu fazer um utensílio corresponder ao seu fim.”
Este raciocínio constitui, quanto a mim, a ponte existente entre o utilitarismo dos primórdios da Arte e o nascimento da satisfação, do gozo estético que passou a ser indissociável da produção artística.
No entanto, os dois povos mais representativos da Antiguidade Clássicas, os Gregos e os Romanos, defendiam concepções totalmente opostas sobre a finalidade da Arte: diziam os primeiros que “tudo o que é útil deve ser belo”, enquanto os segundos argumentavam que “tudo o que é belo deve ser útil”.
Esta oposição “militante” entre o Idealismo e o Utilitarismo continua a caracterizar as atitudes dominantes perante a Arte e a Sociedade. Sempre opostas, sempre complementares.


            

sábado, 21 de outubro de 2017


BELAS-ARTES E ARTES APLICADAS, 

A FALSA HIERARQUIA DO GOSTO

Carlos Rodarte Veloso

(“O Templário”, 19 de Outubro de 2017)

Só a partir do Renascimento surge, dentro das concepções de gosto artístico, a oposição entre Belas-Artes, que englobam a Arquitectura, a Escultura e a Pintura, e as Artes Aplicadas, também chamadas Ornamentais ou Decorativas, que abrangem todas as restantes artes, da Ourivesaria ao Mobiliário, da Talha ao Azulejo.
É bem verdade que já na Antiguidade Clássica os grandes artistas produziram obras  de tal forma apreciadas pelos seus contemporâneos, que estes foram equiparados às grandes figuras da cultura universal. Como é óbvio, sem o conhecimento dos seus nomes, as obras ficavam relegadas ao estatuto de “anónimas”, o que acabava por diminuir a sua importância.
O nome de Fídias, escultor do Parténon de Atenas, ficou para a História como o mais “divino” dos artistas e assim também os seus seguidores como Policleto, Lisipo e Praxíteles na Escultura, Ictino e Polícrates na Arquitectura, Exéquias e Eutímedes na Pintura, embora apenas na decoração de vasos, pois frescos e outras obras de pintura sobre grande superfícies não chegaram até nós.
A inferiorização dos valores estéticos humanistas durante a Idade Média, quando a  Igreja católica diaboliza o corpo humano como nada menos do que uma “porta do pecado”, relega todos os artistas para a condição, tida como inferior, de simples artesãos, não havendo diferença entre um pintor de barcos ou de paredes e um pintor de frescos ou de retábulos.
A revalorização do corpo humano como objecto estético e, associado ao antropocentrismo renascentista, o principal objectivo de toda a Arte surge, como acima afirmei, com o Renascimento artístico, quando os “simples artífices”, associados em corporações, ganham vulto entre os seus pares e são protegidos por mecenas, embora o seu estatuto os mantenha num nível pouco superior ao da servidão
É com o reconhecimento social de artistas como Leonardo da Vinci, Miguel Ângelo e Rafael, disputados por grandes senhores e por papas, que as suas obras ganham a preponderância que viria a destacá-las em relação às “outras” artes.
Estas não são propriamente “pobres”, como se deduz facilmente do suporte material da Ourivesaria e da Joalharia, o mais valioso, mas também da Talha dourada, revestida a folha de ouro, ou o Mobiliário riquíssimo dos séculos XVII em diante, e a Porcelana importada da China e depois produzida na Europa, paga a preço de ouro.
Por outro lado, a mestria exigida aos artistas das Artes Aplicadas é muitas vezes tão exigente como a dos melhores pintores, escultores e arquitectos. Aliás, a associação de todas estas Artes confere-lhes um papel globalmente uno, como acontece com a obra de arte global que representam edifícios barrocos como o Palácio de Versalhes, a Basílica de S. Pedro de Roma ou o Convento de Mafra onde, não o esqueçamos, outras Artes não plásticas se evidenciaram majestosamente, especialmente a Música.

No entanto e à parte estas considerações, o termo estava consolidade e as Belas-Artes passaram a gozar de um estatuto de superioridade que se reflecte nas exposições e respectivos catálogos em Museus de todo o mundo, nos leilões e no senso comum.
Sendo assim, considero que o reconhecimento das Artes Aplicadas como equiparáveis às Belas-Artes mais não é do que a prestação da justiça mais elementar à qualidade e à beleza de obras de arte que revestem paredes e tectos, os pavimentos, portas e janelas, os vastos espaços de igrejas, palácios, teatros e outros edifícios públicos em Portugal e em todo o mundo.

Por falar em Portugal, o estudo do nosso Património artístico é indissociável do estudo e valorização da Talha, do Azulejo, do Vitral, dos Estuques e Embrechados – ainda escassamente estudados – da Faiança e da Porcelana, dos Marfins, do Mobiliário, da Tapeçaria, Paramentaria, Tecidos e Bordados, e da própria Iluminura, arte intermédia entra a Pintura e a Caligrafia, que produziu algumas das mais belas obras da Idade Média.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017



ASSUNÇÃO E ÁGUA BENTA, CADA UM TOMA A QUE QUER

Carlos Rodarte Veloso

(“O Templário”, 12 de Outubro de 2017)

Enquanto o PSD lambe as feridas do combate autárquico em que comprometeu irremediavelmente algum resto de prestígio que ainda pudesse conservar, os outros derrotados assumem atitudes diametralmente opostas em relação ao seu caso particular:
            Assunção Cristas, cujos votos decresceram desde as últimas eleições, grávida da transferência de votos de que beneficiou em Lisboa à custa dos erros de Passos Coelho e seus apoiantes, dançou e deu espectáculo na noite eleitoral, com os seus jovens apoiantes, enquanto a “isenta” comunicação social afecta à Direita, a coloca – quase! – como a verdadeira vencedora destas Autárquicas em que a vitória do Partido Socialista é de tal forma indesmentível!
            E já vimos claramente, na sua atitude perante as forças políticas com que virá a conviver, uma atitude de arrogância e de paternalismo – ou maternalismo? – de quem se considera já o eixo do mundo autárquico português! É ridículo, eu sei, mas a táctica de negar as derrotas à custa de “verdades alternativas” já há muito tempo, mesmo antes das famosas “teorias” de Donald Trump, mesmo antes de Adolf Hitler e de Joseph Goebbels, sempre surtiram o efeito pretendido, isto é, transformar os derrotados em virtuais vencedores.
            De facto, a “vitória” dos vencidos tem sido um divertido “fait divers” que tem acompanhado a maior parte dos balanços eleitorais. Curiosamente, Jerónimo de Sousa, que desde sempre apresentou os resultados da CDU como  “avanços” significativos na luta a favor do povo português, nunca como derrotas, e apesar de superar largamente o número de autarquias conquistadas pelo CDS, apresenta-se como “derrotado” devido à perda de câmaras municipais e  juntas de freguesia que justifica, atenção(!), como erro crasso dos eleitores que, diz ele, virão a arrepender-se deste seu erro fatal. E o despeito é tanto, que dias depois assaca a assumida derrota a uma suja campanha de difamação conduzida pelo PS!
            Devo dizer que não fiquei com a menor ideia de uma tal campanha. Pelo contrário, as declarações pós-eleitorais de António Costa de forma alguma misturam o PCP com o desastre da Direita, antes mostrando um grande respeito e consideração pelo partido de Jerónimo de Sousa, que continua a considerar como aliado e imprescindível à Democracia, assim como ao Bloco de Esquerda, também não propriamente um vencedor nestas eleições.

            Mas as coisas são como são, e o regresso da época dos fogos vai devolver algum fôlego a uma Direita exangue, sempre pronta a embarcar na demagogia e na mentira, se isso parecer dar-lhe alguns dividendos políticos.         

domingo, 8 de outubro de 2017



UMA IGREJA ROMÂNICA NO ALTO MINHO: BRAVÃES

Carlos Rodarte Veloso

(“Correio Transmontano”, 8 de Outubro de 2017)



        Praticamente inexistentes a sul do Tejo, o que se explica por a sua construção ter terminado em finais do século XII, quando o grande rio foi atravessado em definitivo pela Reconquista cristã, as igrejas românicas serão substituídas, no século seguinte, por uma nova concepção arquitectónica, o Gótico. 
           As principais características dos edifícios religiosos românicos variam conforme a sua implantação se faça no meio urbano, ou no rural. Em qualquer dos casos, são caracterizadas pelo uso do arco romano de volta inteira, quer nas portas , quer nas janelas, integrando arcos concêntricos a que se chamou arquivoltas e uma extraordinária robustez das suas muralhas. Herdeiras da basílica, edifício romano destinado a actividades não religiosas,  podem ter uma ou várias naves, contendo assim um considerável número de frequentadores. Essa mesma característica explica a sua adopção como templo cristão.
As igrejas urbanas, de maior dimensão, geralmente protegidas pelas muralhas da vila ou cidade onde se situam, são igrejas matriz ou catedrais, consoante a sua importância, dispensando o aspecto defensivo das fortalezas medievais, embora as suas aberturas, em forma de estreitas frestas, dificulte também o seu acesso a partir do exterior.
Nas igrejas rurais, geralmente afastadas de um povoado fortificado, a sua construção aposta exactamente na autosuficiência em termos defensivos: rarefacção de aberturas, geralmente situadas nos pontos mais altos do edifício, contrafortes maciços reforçando a solidez dos muros, sólidos portões chapeados a ferro ou bronze, menor dimensão.
Se há bons exemplos desta tipologia em território português, a Igreja de S. Salvador de Bravães, próxima de Ponte da Barca, é um dos melhores. De uma só nave, a sua forma  paralelipipédica, a escassez de aberturas e a solidez das paredes contribuem para ser uma autêntica fortaleza em território inseguro. Aqui, perante uma possível invasão, os habitantes locais encontrariam um refúgio, pelo menos provisório, enquanto aguardavam o desfecho dessas frequentes guerras privadas que ensombraram a Alta Idade Média.
Nada disso impediu a fruste tentativa dos seus construtores, situados entre os séculos XI e XII, de curarem a sua estética e os aspectos doutrinais da decoração, o que é sublinhado pela riqueza de pormenores iconográficos dos três portais da igreja e dos capitéis de colunas interiores.





Logo na porta principal, o respectivo tímpano apresenta um Cristo Pantocrator rodeado da “mandorla”, a “amêndoa mística”, rodeado de duas personagens que têm sido interpretadas como anjos ou como os apóstolos Pedro e Paulo. Nos colunelos que rodeiam o portal, além de macacos, serpentes e outros animais ao tempo considerados diabólicos, o anjo Gabriel em frente de Maria, representando a Anunciação.
No portal norte, uma representação da Árvore da Vida, ladeada por dois animais. A sul, o portal do Agnus Dei, representando Cristo na sua forma de Cordeiro sacrificial.
Como sempre acontece, um edifício secular como este não poderia deixar de ser recheado posteriormente por outras obras de arte, nomeadamente pinturas. As que sobraram do envio de um fresco representando o orago, Jesus Cristo Salvador do Mundo e de diversas pinturas levadas para o Museu Nacional de Arte Antiga, são uma Nossa Senhora com o Menino e um Martírio de S. Sebastião, que têm sido datadas, conforme os estudiosos, do século XIV ao XVI, além de decoração padronizada ainda não estudada. Também motivo de interesse é uma pia baptismal cilíndrica.

Por todos os motivos, esta jóia rústica do nosso património das origens da Nacionalidade merece ser conhecida, protegida e reintegrada com o seu recheio primitivo.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017


RAJOY, O NOVO "CAUDILLO" DA ESPANHA

Carlos Rodarte Veloso

(“O Templário”, 5 de Outubro de 2017)

No passado dia 1 de Outubro, três países ibéricos puseram em prática os mecanismos políticos da participação popular. Três países?! Eu explico.
De Portugal já sabemos: a esperada e esmagadora vitória do Governo e a triste actuação do PSD e do seu ainda líder, Passos Coelho, reconhecendo a derrota com o seu neurónio semi-activo e hesitando na desistência com o outro, um tanto deficiente... Por outro lado, a alegada vitória de uma Assunção Cristas bastante mais espevitada do que o mais elementar bem-senso autorizaria, embandeirando em arco com a claríssima transfusão dos votos do PSD para o seu pequeno partido, que continua a ser um pequeno partido por muitos saltos que ela e os seus jovens apoiantes dêem, por muita gritaria com que tentem disfarçar o enorme vazio desse “sucesso”... Mas a comunicaçãozinha social da Direita apoia essa ficção, “logo existe”!
Os dois restantes países são a Espanha e a Catalunha, a primeira parece que esquecida momentaneamente da Democracia aí instaurada após a morte do “Caudillo”, o sanguinário ditador, o Generalíssimo Franco, esquecida dos cravos rubros herdados do Portugal de Abril, regressando à violência pela mão do seu primeiro ministro, o tresloucado Mariano Rajoy, disposto a considerar todo um povo como criminoso. Um pequeno político  infectado pelo vírus do autoritarismo, repetindo em nome da “legalidade constitucional” as lições dos ditadores dos anos trinta do século XX. Para ele, tal como para Franco, tudo é permitido em nome de uma “Espanha una, grande e livre”, até as cargas da Guardia Civil contra uma população indefesa, balas de borracha, a mais selvagem repressão que não poupou sequer idosos, mulheres e crianças. Mais de oitocentos feridos parece ser um preço demasiado alto para proclamar a “grandeza da Espanha”. E o que mais virá, pois as cenas ocorridas na Catalunha do Primeiro de Outubro são a vergonha de um país dito civilizado, enquanto a União Europeia se alheia em parte deste “susto”, reconhecido como muito grave por muitos dos seus dirigentes, e a ONU, honra lhe seja feita, exige um diálogo entre as partes, que Madrid nem sequer teve em consideração.
O outro país, a Catalunha, resgatada pela sua coragem da subalternidade de “região autónoma” ao enfrentar pacificamente, de peito descoberto, a repressão das “forças de ocupação” de Castela, mobilizadas para evitar a todo o custo o referendo que o seu povo deseja há tão longos anos. O referendo que, embora algo ferido na sua legalidade pela destruição de muitos boletins de voto – não decerto devido à declaração de “inconstitucionalidade” com que Rajoy o crismou – o encerramento dos locais de votação, a repressão mais sangrenta, conquistou mais de dois milhões de votantes e ganhou o direito de se autoproclamar um Estado independente e Republicano, pela voz do seu Presidente do Governo, Puigdemont, que para isso aguarda apenas o resultado da contagem dos votos.

Assim vai a Península Ibérica, a “Jangada de Pedra”, como José Saramago lhe chamou num dos seus momentos mais brilhantes de inspiração. Mas não tenham ilusões os aprendizes de ditador: o milhão de mortos de uma guerra civil que terminou há quase 80 anos e preparou uma outra guerra, ainda mais terrível, a segunda mundial, serão – parece-me – suficientemente trágicos e assustadores, para que uma réstea de esperança subsista acima do nacionalismo desenfreado de um “Arriba España” que parece estar no espírito deste galego tão arrogantemente castelhano que domina o governo de Madrid.