quinta-feira, 14 de maio de 2020



A MALDADE NO PODER

Carlos Rodarte Veloso

“O Templário”, 14 de Maio de 2020

Está a tornar-se um verdadeiro lugar-comum a identificação de um número crescente de ditaduras instaladas nos lugares de Poder em tantos países da Terra, mas esse fenómeno sinistro começa a espreitar, qual “ovo da serpente” também no nosso país.
A arma dessa gente, violentamente contrária toda e qualquer conquista da parte das massas exploradas, são agora as redes sociais, que ampliam aparentemente a expressão dessas ambições, assinando milhares e milhares de posts com identificações falsas que sugerem o apoio de massas inexistentes e que vão dar uma ideia completamente falsa de adesão por parte de percentagens totalmente falsas de aderentes.
Esse truque, fomentado por forças ligadas às camadas mais poderosas financeiramente, dão a ideia de um apoio popular totalmente fictício.
Chamando as coisas pelos nomes, a Esquerda é confrontada com os “likes” de gente aparentemente desfavorecida, não propiamente pela fortuna, mas pela inteligência, organizada em grupos de ignorantes, apoiados e financiados por igrejas evangélicas que oferecem o mesmo show-off que levou ao poder gente como Trump, mesmo com menos votos que a sua directa opositora, ou Bolsonaro, esse sim, apoiado pela imensa miséria da gente pobre e ignorante do Brasil, cuja lavagem aos cérebros se somou, mais uma vez, à gigantesca operação de desinformação levada a cabo através do elogio da sangrenta ditadura que antecedeu o domínio do PT, diabolizado através da mais fantástica campanha de mentiras algumas vez desenvolvida neste século.
Fake news que também deram o Poder, quase fifty-fifty a Boris Johnson, aproveitando o consabido nacionalismo britânico e os pretensos malefícios de uma Europa, afinal não tão má assim…
De outros países poderia falar mas, no que nos toca, estes são mais do que suficientes para reintroduzir um tema que se vai tornando cada vez mais preocupante, mormente com o efeito de contágio das ideias de extrema-direita que vão gradualmente invadindo outros governos europeus, um pouco como a infecção do corona vírus.
O nosso Portugal sofre agora um ataque directo desferido por uma espécie de partido, o “Chega” de André Ventura, que se revê no salazarismo e nas “saudosas” políticas hitlerianas do confinamento étnico, primeira fase de um apartheid que levou à perseguição aos Judeus, à sua identificação através de emblemas, a sua desclassificação social e internamento em campos de concentração, em ordem à “Solução Final” eufemismo para o Holocausto!
Como bem sabemos, os Judeus foram as suas maiores vítimas em termos numéricos, mas também os Ciganos, minorias religiosas e sexuais, e partidos políticos de Esquerda os acompanharam na deportação e nos campos de extermínio.
Vem agora André Ventura, do alto da sua arrogância racista propor o mesmo “remédio” para os Ciganos portugueses, provocação a que respondeu, e muito bem, o nosso internacional Quaresma, cigano ele próprio, que se mediu do alto da sua dignidade, “simplesmente humana”, com este espécime lamentável de troglodita.
Não é nem será a última vez que a História da Humanidade se confrontará com este tipo de ameaças. Mas estejamos atentos e não minimizemos os perigos que mais uma vez espreitam o nosso perigoso trajecto.

sexta-feira, 8 de maio de 2020



SAUDADES DO FUTURO
Carlos Rodarte Veloso
“O Templário”, 7 de Maio de 2020

A palavra que mais nos falta neste momento, não é Maré, nem Onda, nada de cíclico, pois tudo o que se repete é certo mas fugaz, e a esperança dessa repetição não encerra mais certeza que a do sabido pôr e nascer do Sol, do movimento universal das galáxias, da vertiginosa queda dos graves, da atracção universal, do galope das nuvens nos céus, da inércia que imprime o movimento perpétuo a todos os corpos celestes, do correr das águas nos grandes como nos pequenos vales, do deslizar das placas tectónicas, no fundo, nada que contribua para os avanços desta espécie ciclotímica, ora ufana das suas realizações, ora completamente desesperada.
            Nada que o livre arbítrio não ultrapasse, já que os ditames autocráticos dos grande sistemas doutrinários, geridos por vultuosas personagens, vendilhões do Templo alicerçadas no poder das armas, nada são perante a vontade destas toscas criaturas que, embora temerosas quando isoladas, conseguem contornar, em felizes momentos de unidade, esses poderes, convertendo-se elas próprias em Poder.
            O momento que vivemos dividiu-nos como espécie empreendedora, tirou-nos provisoriamente o poder em confronto com forças que ainda não compreendemos totalmente, enquanto a nossa divisão e antagonismo nos lança uns contra os outros, indiferentes aos sucessos antigos, dispostos a tudo apostar na divisão entre grupos e sistemas, na hostilidade entre semelhantes, naquilo a que chamamos Guerra.
            Por isso, as palavras que nos faltam são Saudade do Futuro, dimensão que tanto contribuiu para o êxito da Humanidade nos desafios que enfrentou, horizonte mítico que nos levou a outras e inconcebíveis paragens.
            E o actual desafio, porventura o último durante uma longuíssima época, é o mais determinante de todos, porque agora se junta uma pandemia oriunda da mais que provável acção humana, com a ameaça de desastre ambiental prevista há muito tempo, ela própria garantidamente devida à mesma acção.
            Temos agora meios de enfrentar ambas as ameaças, mas apenas a união de todos nós permitirá vencê-las, mesmo com os rostos provisoriamente ocultados por máscaras…

terça-feira, 5 de maio de 2020



APRESENTAÇÃO DE UM PAÍS
Carlos Rodarte Veloso
“O Templário”, 30 de Abril de 2020

Gravura de João Abel Manta

Desde o período da ocupação filipina, Portugal teve o “fado” de se ter tornado quase invisível no panorama histórico mundial, frequentemente confundido com a Espanha à qual concedia o seu enorme peso colonial para a engrandecer.
Era de facto o tempo do “Império onde o sol nunca se punha”, título depois da Restauração herdado pelo Império Britânico.
Da nossa História, apenas sobravam imagens espectrais duma época nebulosa de marinheiros e navegadores, descobridores, sim, mas “pés descalços”, pouco enaltecidos face à prosápia espanhola da descoberta da América e de outros feitos marítimos e militares, a que não faltava, pasme-se, o fracasso monumental de uma dita “Invencível Armada”!
Nem o domínio da Índia, a colonização brasileira e a precoce chegada à China e ao Japão foram suficientes para plasmar com verdadeiro sucesso a aventura portuguesa nas páginas da historiografia europeia.
O peso monumental da Espanha sempre se sobrepunha a nós, pequena nação, dominada depois pela concorrência neerlandesa e pelos traiçoeiros aliados ingleses, sempre atrasada, sempre retrógrada, vitimada pela superstição católica romana que, embora comum ao atraso espanhol não se alicerçava sobre um poder das armas ou prestígio internacional, para não falar do seu défice de influência religiosa junto da Santa Sé.
Tal como a Espanha tivemos a Inquisição, e momentos de grande prestígio internacional, mas com pouca continuidade, caso do reinado de D. João V, embora a reboque do ouro do Brasil, e do fugaz episódio pombalino, depressa submerso nas grandes invasões francesas e na guerra civil entre liberais e absolutistas, num século de altos e baixos dominados pela predominância económica britânica e uma apenas relativa “revolução industrial”…
O século XX, dilacerado pela Grande Guerra para a qual foi arrastada a nossa jovem República em prol da defesa do domínio colonial africano, logo seguido do gigantesco desastre humanitário da pandemia da “gripe espanhola”, ainda deu tempo para algumas importantes reformas educativas, mas marcadas pela instabilidade social e política do País, que conduziu ao golpe de Estado de 28 de Maio de 1926 e à edificação do chamado Estado Novo e do regime ditatorial de Salazar, época de férrea repressão policial, à imagem e semelhança das ditaduras nacionalistas europeias, cópia próxima dos fascismos italiano, germânico e espanhol.
Foi nesse quadro de ditadura nacional, que muito desprestigiou o País, que teve início a guerra colonial, a que apenas o 25 de Abril de 1974 pôs fim, com Portugal mobilizado colectivamente, em torno de umas Forças Armadas inesperadamente democratizadas, cujo vitorioso golpe de Estado acaba por dar origem a uma verdadeira Revolução popular.
É exactamente a edificação do regime democrático nascido em 25 de Abril mas alimentado desde a época mais repressiva da ditadura pela revolta popular dos mais diversos sectores da vida social e política, que confere ao nosso País uma imagem de modernidade e de desenvolvimento completamente nova, a que não é alheia – apesar das controvérsias a que deu aso – a adesão ao Mercado Comum Europeu e à União Europeia.
A nossa Revolução – não tenhamos medo dos nomes, pois de uma Revolução se trata – abriu aos olhos de uma Europa fortemente lusocéptica, este pequeno País em que vivemos, tornado um “caso de estudo”, tanto pelo muito que se desenvolveu no aspecto científico e tecnológico, político, artístico, literário e, até, desportivo, como pelo prestígio de muitos dos seus dirigentes que, embora de contraditórias tendências políticas, marcaram fortemente as suas áreas de influência, mesmo nos maiores areópagos internacionais.
As críticas com que, desde sempre, a nossa democracia tem sido mimoseada, nomeadamente pelos sectores politicamente mais adversos às tendências dominantes, são mais uma prova da vitalidade de um regime que nem uma pandemia como a que agora nos vitima, impede o pluralismo, verdadeiro apanágio da Democracia.



sexta-feira, 24 de abril de 2020


TURISMO DEPOIS DA PESTE
Carlos Rodarte Veloso


“O Templário”, 23 de Abril de 2020

Enquanto aguardamos uma vacina contra o coronavírus, vai-se preparando, paulatinamente como deve ser, o recomeço da actividade económica do País, de modo a evitar a precipitação da abertura a todo o custo, pelas implicações que a mesma poderá ter numa recaída sanitária catastrófica.
Sendo o comércio externo e o turismo as actividades que maiores dividendos prestam a Portugal e maiores vantagens prestam no combate ao desemprego, a praga dentro da praga, esta constatação exige o rearranque da produção industrial, evidentemente sujeita à parafernália de cuidados recomendados desde o início da pandemia.
Quanto ao turismo, a actividade que maior quantidade de empregos garante e aquela que mais contribui para o nosso prestígio internacional e o florescimento de maior diversidade de actividades, o seu regresso em força, decerto lento mas seguro, deveria obedecer a um conjunto de regras que evitassem o regresso a um conjunto de situações que principalmente enriqueceram um empreendorismo ganancioso que, a par das vantagens tão publicitadas, afastou dos grandes centros populacionais grande parte da sua população, preferindo-lhe uma invasão de turistas estrangeiros cujo maior poder económico tornou os portugueses mais estrangeiros que eles próprios dentro da sua pátria.
Não apenas o mercado de arrendamento imobiliário criou situações dramáticas para os nossos compatriotas, incapacitados de se manter nas suas residências originais, como o próprio emprego nos estabelecimentos de hotelaria e restauração se tornou manifestamente exploratório, com salários baixíssimos e condições de trabalho penosas a um ponto insuportável.
Tudo isto é bem conhecido pelas suas consequências sociais, mas a pandemia que nos aflige está agora a afligir muitos milhares de proprietários gananciosos que não hesitaram em despejar os seus antigos inquilinos, para em seguida dividir os andares devolutos em módulos destinados a albergar todo o estrangeiro endinheirado disposto a ocupar esses espaços vendidos ou alugados a preços milionários.
A aflição destes senhorios vai decerto obrigá-los a procurar de novo inquilinos de mais modestas posses o que constitui, nestes tempos pestíferos uma espécie de justiça poética… já diz o povo, na sua sabedoria, que quem tudo quer, tudo perde!
Além das consequências socioculturais de actual situação, aspectos há, no turismo, que exigem um repensar da continuação da sua actividade do ponto de vista legislativo, desde a interdição de massas caóticas de turistas nas nossas cidades, que acabam por as roubar aos seus naturais, à multiplicação de cruzeiros nos nossos portos, ao excesso de tráfego aéreo, poluente e prejudicial à vida humana.
É tudo uma questão de equilíbrio: permitir o lucro da actividade turística, mas sem esquecer o factor humano em causa, mas também o factor cultural.
As autênticas multidões que nos invadem devem ser orientadas para uma maior dispersão no nosso território, de forma serem criadas, se necessário, quotas de ocupação do espaço que protejam o nosso património, tanto construído, como natural.
Estas preocupações decerto serão resolvidas com o tempo, porque parece-me que tempo é o que não falta, dada a demora na criação de uma vacina para o coronavírus. Mas seria bom aproveitar esta pausa concedida à recuperação da natureza, já visível na diminuição da poluição em todas as latitudes.
Teremos então uma nova oportunidade para legislar a favor da humanidade e do ambiente, corrigindo as terríveis assimetrias socioculturais e económicas que têm transformado este maravilhoso planeta num inferno e não regressando ao caos capitalista que imperava nos últimos dias… ainda apenas a uns meses de distância…

quinta-feira, 16 de abril de 2020



AS TREVAS MILENARES

Carlos Rodarte Veloso

O Templário, 16 de Abril de 2020

O percurso que nós, humanidade, vaidosamente nos atribuímos como civilização, vai das trevas mais profundas à claridade mais pura, do pensamento mágico à mais pura racionalidade, da bárbara Pré-História ao predomínio da Ciência, da aproximação à compreensão de todas as coisas, liberta dos sucessivos véus que a esconderam, o famoso manto diáfano da fantasia...
Essa correcção das impressões mais imediatas nasceu em mentes visionárias cujos raciocínios corrigiram a aparência das coisas, provocando autênticas cambalhotas na observação dos fenómenos naturais, mesmo dos cósmicos, aliás, principalmente dos cósmicos, tanto na pequena como na grande dimensão.
Desde a substituição do intuitivo geocentrismo pelo menos compreensível heliocentrismo, milagre do raciocínio que projecta, com um simples olhar, o nosso Sol para o centro do nosso sistema planetário, com a Terra disciplinadamente enviada para uma órbita, de início bem circular, depois crescentemente elíptica e integrada no baile planetário e estelar de que iniciámos a exploração no último século.
Também o atomismo, genial intuição que teorizou, sem quaisquer meios experimentais, a divisão da matéria em minúsculos átomos, a base da Física actual, tão longe das quase ingénuas leis de Arquimedes, que apenas necessitava de um ponto de apoio para levantar a Terra…
Ou a compreensão da Evolução das espécies, a base para a colocação da humanidade no seu lugar na natureza, negando assim as explicações teológicas que foram – e continuam a ser – outros tantos grilhões ao avanço da espécie a que pertencemos.
Todos esses avanços criaram a Ciência, filha dilecta da Filosofia e foi o seu triunfo que trouxe o crescente domínio sobre o Planeta, as suas riquezas, as suas criaturas, mas também a crescente destruição da sua harmonia.
A administração das riquezas obtidas – roubadas, é o termo mais correcto – foi obtida pela força das armas, “justificada”, a cada momento, com os “argumentos” mais falaciosos, baseados numa pseudo-superioridade de povos e etnias sobre outros povos e etnias, religiões e filosofias sobre outras religiões e filosofias.
Os dirigentes dos diversos povos coexistiram com as sucessivas revoluções do conhecimento, geralmente a elas se opondo, procurando negá-las através dum conservadorismo nostálgico de valores ultrapassados e impô-las através das mais selvagens e sangrentas formas de repressão.
É o que ainda hoje se passa num século XXI grávido de avanços científicos e tecnológicos, mas dominantemente governado pela cegueira de criaturas ignorantes e malévolas, tentando impor a todo o custo o regresso às superstições dum passado milenar, o mesmo que é dizer, às catacumbas da humana psique.
Procuram essas criaturas paradoxais aproveitar os progressos tecnológicos tão dificilmente adquiridos sem assumir as conquistas sociais e humanas nelas implicadas.
São “cegos conduzindo outros cegos”, na extraordinária parábola de 1568 do pintor flamengo Bruhegel o Velho. O mistério é como essa massa de cegos se deixa conduzir, directamente ao abismo.


Outras alegorias de sinal equivalente foram desenvolvidas através dos tempos, nomeadamente no romance de Saramago “Ensaio sobre a Cegueira”, publicado em 1995 e levado às telas do cinema em 2008, pela mão do realizador Fernando Meireles.
Nesta obra do nosso Nobel da Literatura, é uma mulher, única sobrevivente da cegueira universal, que conduz os cegos, não para o abismo, mas para a redenção, a salvação da humanidade… Não por acaso, já que é Mulher, vítima também milenar da cegueira do poder e da ignorância.


Alvos fáceis de encontrar, em todas as épocas, para esta feroz crítica à vaga de governantes patologicamente conservadores, ignorantes de todo o conhecimento científico e estupidamente orgulhosos dessa culposa ignorância, que conduz ao negacionismo das conquistas da inteligência humana, especialmente nesta época de ameaça à própria sobrevivência da espécie.
Quando Trump continua a resistir à opinião dos cientistas sobre os cuidados a tomar quanto ao coronavírus, chegando a calar as próprias questões dos jornalistas e a emitir ridículas opiniões pseudocientíficas sobre o assunto, nomeadamente contra a Organização Mundial de Saúde, quando Bolsonaro persiste na sua teimosa e imbecil negação da necessidade de enfrentar a ameaça cada vez mais trágica da pandemia, arriscando irresponsavelmente a vida de milhões de brasileiros, quando Lukashenko, presidente da Bielorrússia aconselha vodca e sauna para tratar o terrível vírus estamos perante a manifestação inegável do grau zero da inteligência.
Cegos incuráveis, não seria urgente mandá-los para férias?

quinta-feira, 9 de abril de 2020



O BAILE DE MÁSCARAS DA SOBREVIVÊNCIA

Carlos Rodarte Veloso

“O Templário”, 9 de Abril de 2020

As medidas de isolamento que gradualmente têm sido impostas pela maior parte dos governos como forma de enfrentar o coronavírus, têm sido diferentemente aceites pelas respectivas populações, indo da franca adesão e disciplina à anarquia mais desbragada, tornando regra de comportamento a recusa de todas as regras definidas pela Ciência e pelos respectivos governos.
Exceptuando o caso de alguns governantes que teimosa e estupidamente negam as consequências da pandemia, caso de Bolsonaro, até o negacionista da Ciência que Trump ainda é se rende à gravidade da situação e procura tomar as medidas necessárias para deter o vírus e assim salvar os seus eleitores, embora as suas horríveis características pessoais o levem a actos de egoísmo inacreditáveis num tempo trágico como este, quer desviando equipamentos médicos de protecção dos outros países, mesmo de aliados, para os Estados Unidos, quer monopolizando a sua própria produção dos mesmos, ou ainda, tentando comprar o exclusivo de futuras vacinas produzidas ou previstas pelos laboratórios dos países que investigam a cura para o surto epidémico, ao mesmo tempo que mantém o bloqueio de todos os meios aos seus inimigos de estimação, o Irão e Cuba nomeadamente.
E que dizer de Erdogan que literalmente roubou – é o único termo aceitável! – um carregamento de material de protecção comprado à China por diversas comunidades autónomas espanholas, e já pago, confiscado na escala do respectivo avião em Istambul, sob o pretexto de fazer falta na Turquia?! Ou, ainda mais inacreditável, da França, que desviou igualmente material médico destinado aos países mártires que são a Espanha e a Itália?
Este salve-se quem puder não é, felizmente dominante nas relações internacionais, sendo notórios os actos de generosidade de alguns países para com outros, mesmo pertencendo a áreas políticas diferentes e até antagónicas, com o envio de médicos e outro pessoal de saúde para os países mais infectados, caso da Rússia para a Itália, e ainda facilitando o comércio e, até, a venda massiva e, até a doação de máscaras e outro material de protecção pela China.
   Quanto às populações civis dos diversos países, temos assistido incrédulos a comportamentos colectivos de alto risco, quando vemos intermináveis filas de carros invadindo as estradas para gozar os dias mais agradáveis de uma primavera que se anuncia, ou praias e outros lugares de veraneio de todo desaconselhados pela concentração de povo que propicia.
Também a fuga de muitos possuidores de segunda habitação para zonas rurais ou balneares, apesar da proibição legal de o fazerem, põe em grave risco a situação das populações rurais envelhecidas, muito mais vulneráveis à infecção pela pandemia, criando-se grave alarme social, por exemplo em França, mas também na Itália e em Espanha.
Quanto ao nosso país, apesar de uma razoável disciplina manifestada pela população em geral, relativamente às regras definidas pelo estado de emergência que vivemos, assiste-se com frequência a comportamentos desviantes, umas vezes pontualmente, outras com uma frequência preocupante.
É comum vermos pessoas equipadas com luvas de protecção e máscaras a manipular produtos alimentares nos supermercados, como se fossem suficientes para evitar o possível contágio, luvas lançadas para o chão nos parques de estacionamento, ou concentrações de pessoas em número não autorizado.
As autoridades policiais terão que suar bastante para inibir todos os comportamentos de risco propiciados pelo período da Páscoa, em que a sociabilização das festas familiares, embora condenadas pelas autoridades da Saúde, entra em choque frontal com atitudes de generosidade manifestadas por figuras públicas como Ramalho Eanes, ao disponibilizar o ventilador que lhe seria atribuído, em caso de internamento, para “chefes de família”, portanto para os responsáveis por mulheres, crianças e familiares mais jovens, pondo assim em cheque a sua própria sobrevivência.
Cabe aqui um parêntesis sobre esta atitude que, embora aparentemente muito louvável, parece menosprezar o direito dos idosos à sobrevivência em favor das camadas etárias mais jovens, como se houvesse uma linha de separação, a aceitação de um quase direito ao abandono das gerações mais velhas.
A própria utilização da expressão “chefes de família” implica a valorização do conceito de patriarcado como um direito de origem bíblica, aqui invertido do seu sentido original, em ambos os casos condenável, quer a favor, quer contra…
Senhor General, com toda a consideração e simpatia que me merece, nem oito nem oitenta! Quantos homens e mulheres idosos não têm ainda à sua responsabilidade filhos e outros dependentes, tantas vezes maiores de idade, desempregados ou em vias disso? Não seria preferível a assunção do direito à vida, independentemente da idade e, evidentemente, de acordo com os desejos de cada um?
Independentemente de todas as considerações a respeito deste tema, não estou a incluir nesta ordem de ideias os gravíssimos problemas derivados das gigantescas migrações que povoam os perigosíssimos campos de refugiados no Médio Oriente, na Turquia, na Grécia e outras regiões, bombas-relógio prontas a explodir e a agravar a um ponto inacreditável a sobrevivência das respectivas populações, com um previsível efeito de dominó em todo o mundo.
Pelo que nos cabe a nós, Portugueses, privilegiados que somos em tantos aspectos, uma bem pequena obrigação, aquela que vivemos desde o início da pandemia: fiquemos em nossas casas!

sexta-feira, 3 de abril de 2020



A ILHA QUE NÓS SOMOS

Carlos Rodarte Veloso

“O Templário”, 2 de Abril de 2020

No isolamento destes dias da Peste, os nossos hábitos vão-se retraindo, em parte por imposição da Lei, em parte – é o meu caso – por imperativo da consciência.
Apenas com as janelas abertas ao mundo, num mundo em mutação devido à maldição de um simples vírus, a casa é a minha fortaleza, cercada pela floração de uma Primavera timidamente prometedora da recuperação de uma Natureza exausta.
E os sintomas dessa restauração começam a surgir aqui e ali, não apenas nas águas de novo límpidas das lagunas de Veneza, mas nos ventos e marés, e na Esperança, esse bem precioso que sempre tem sido a última linha de defesa da Humanidade.
Teremos então que olhar esta maldição que, sabemo-lo bem, não poupará muitos de nós, como aliada do nosso ambiente e, assim da nossa própria salvação como espécie, uma segunda oportunidade, portanto.
Não há nestas contraditórias considerações qualquer laivo de optimismo em relação às virtudes da nossa espécie.
Ela decerto sobreviverá, mas não deixará de errar de novo, e de novo, e de novo… reconduzindo o nosso Planeta a novos becos sem saída, até que, se a famosa Evolução que nos conduziu a Senhores da Terra, nos torne os Cuidadores desta esfera maravilhosa em que vivemos e tanto temos martirizado.
Os nossos erros continuarão presentes nas guerras que irão muito para além das gerações actuais, nos genocídios em nome de deuses, pátrias, cores de pele, preconceitos.
Resta-nos agarrarmos com ambas as mãos a herança – essa sim, sagrada – que são o nosso Património cultural, herdado dos gigantes que construíram, com a inocência das crianças, castelos e catedrais, viajaram em todos os Oceanos, chegaram à Lua e atrevem-se a sonhar com longínquas galáxias, escreveram os mais belos textos e compuseram todas as sinfonias, inventando a Beleza, ergueram as vozes em nome de ideais inatingíveis, riram e choraram as suas fraquezas, mas também as suas forças, amaram-se e odiaram-se, desvendaram os mais recônditos segredos da Natureza, viveram e morreram semeando a Terra com as suas sepulturas, sempre prontos a multiplicá-las até ao infinito, sempre prontos a glorificá-las até aos Céus, poeira das estrelas que sempre seremos…
São essas obras a que nos devemos agora agarrar, quando voltamos a procurar razões para continuar a habitar esta Ilha de que fizemos Lar, esta casa cheia de livros, de obras de Arte, de artifício, de criaturas espantosas com que convivemos há milénios e, acima de tudo, de Gente que sofre a injustiça, a frieza, a crueldade até dos seus semelhantes.
De Beleza, de Sonho e de Pesadelo, que erra e continua a errar, procurando uma boa razão para continuar a viver.

quinta-feira, 26 de março de 2020



O VÍRUS ASSASSINO E A UNIDADE NACIONAL
Carlos Rodarte Veloso
“O Templário”, 26 de Março de 2020

Têm sido ouvidos com êxito os apelos de governantes e cientistas para unir as forças da Humanidade em torno da defesa da nossa sobrevivência face à ameaça invisível de um micro-organismo, mais um entre tantos os que, desde tempos imemoriais, têm assombrado e enlutado a nossa espécie.
Mas agora, passado o período arcaico das “explicações” das epidemias através do “castigo dos deuses” ou de misteriosos “miasmas” que infectariam os nossos organismos, podemos finalmente estudá-los, compreendê-los, e combatê-los com êxito.
Por isso, apesar das naturais falhas devido ao imprevisto da invasão do coronavírus, os diversos países do mundo, entre os quais Portugal, aprendendo uns com os outros, têm coordenado esforços para lutar pela nossa sobrevivência, ultrapassando aparentemente insanáveis diferenças políticas e programando medidas, por um lado para combater esses agentes patogénicos, por outro para salvar a economia à beira de uma crise arrasadora.
A indispensável unidade nacional não pode ser hipotecada a atitudes de fanatismo partidário, como o que é fomentado por diversos meios de comunicação social, não apenas os mais marginais, associados a redes sociais fanatizadas pela extrema-direita, mas também programas muito populares na própria televisão oficial, caso da “Sexta-Feira às 9”, que Sandra Felgueiras transformou num autêntico libelo permanente contra o governo, dando sistematicamente preferência a todas as críticas, das mais demolidoras, à sua política, actuação e aos próprios governantes.
A quase total ausência de contraditório que caracteriza este programa televisivo, nestes tempos em que a própria declaração do estado de emergência deveria impor uma atitude mais construtiva e positiva em relação às medidas tomadas para salvaguardar o futuro do nosso País, apela, não a uma atitude de unidade nacional para debelar a crise, mas ao pessimismo mais sombrio, sendo vincados apenas os erros, os defeitos de quaisquer medidas tomadas pelo governo, mesmo que perfeitamente compreensíveis dadas as circunstâncias.
Não se vai para uma Guerra, que é o caso presente, com as tropas desmoralizadas, já derrotadas à partida. António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa bem caracterizaram a situação: É a nossa própria sobrevivência que está em causa. Sem de forma alguma defender qualquer forma de censura, exijo um comportamento minimamente imparcial por parte dos órgãos de comunicação social, mormente quando são pagos pelos nossos impostos!

sábado, 1 de fevereiro de 2020



OS MONSTROS DE GUILLERMO DEL TORO

Carlos Rodarte Veloso

“O Templário”, 23 de Janeiro de 2020



             O cineasta mexicano Guillermo del Toro deixou já marcas luminosas na história do Cinema ao realizar, entre muitos outros, dois dos filmes mais fascinantes que me invadiram a inteligência e os sentidos, “O Labirinto do Fauno” (de 2006) e “A Forma da Água” (de 2017).
            Num tempo em que o mundo é governado por verdadeiros monstros, fruto de uma tendência que vem do passado e teve o seu apogeu no “civilizado” século XX, é salutar compará-los com os “monstros” das fábulas, da mitologia, da imaginação, alguns muito antigos e nascidos das profundezas da psique, do inconsciente colectivo, outros radicados nas fantasias urbanas de um desbravar das fronteiras do universo, intra ou extra terrestres.
            É esse o caso destes dois filmes, o primeiro situado no pós Guerra Civil de Espanha, o outro em plena Guerra Fria, ambos dominados pela crueldade de sádicos torcionários, um, capitão das forças franquistas impondo a ferro e fogo a nova ordem fascista, o outro, um coronel norte-americano, possuidor de todos os estigmas antidemocráticos do macarthismo, ambos associados ao “apropriado” comportamento em relação às mulheres, ao preconceito contra todos os “diferentes”, dos negros e dos estrangeiros aos inimigos políticos…
            O Fauno e as Fadas, criaturas lendárias do “Labirinto”, ajudam a pequena Ofélia a reconquistar o mundo fantástico das suas origens, obrigando-a a ultrapassar todos os medos, sujeita que é a duras provas destinadas a testar a sua coragem e integridade, tudo no ambiente da resistência dos últimos guerrilheiros republicanos que combatem nas montanhas, a utopia política pura.
            Por outro lado, a criatura aquática que dá o nome e a razão de ser à “Forma da Água”, por quem se apaixona Elisa, a empregada muda do laboratório ultra-secreto onde está encerrado, aparece como o “monstro” destinado a ser vítima do sadismo do coronel Strickland dos serviços secretos, e das torturas associadas às experiências “médicas” que deveriam culminar no seu assassínio puro e simples.
Também neste caso é a mulher corajosa e pura, Elisa, que enfrenta o Mal no seu estado mais medonho, sujeita ela própria aos perigos bem reais deste outro labirinto em que se perdem as melhores intenções.
            Para não revelar mais do que é esperado do enredo, por outras palavras, para não “spoilar” qualquer dos filmes, resta-me referir a magnífica interpretação dos respectivos actores, a qualidade da realização, da imagem e da música, outros tantos motivos para ver urgentemente estes magníficos resultados da 7ª Arte, aqui mais do que nunca, a arte dos sonhos, embora estando aqui bem presentes os pesadelos criados pelos ditadores e candidatos a ditadores deste pouco promissor século XXI.
            Mas Guillermo del Toro reserva todas as suas esperanças, porventura muito realisticamente, para o campo da fantasia. Será que não merecemos mais do que isso?