OPINIÃO// Carlos
Rodarte Veloso
Santa Maria de
Cárquere e Afonso Henriques menino
No concelho de
Resende, cerca de seis quilómetros a sul da vila e do rio Douro, desenrola-se
uma paisagem deslumbrante de montes e verde nos contrafortes da serra de
Montemuro, parte do antigo domínio do aio de D. Afonso Henriques, Egas Moniz,
aquele que levou a família ao rei de Castela, com a corda ao pescoço, para
expiar a quebra de juramento do seu rei.
Menos conhecida é a
lenda que o liga directamente a estas terras e à construção do mosteiro de
Santa Maria de Cárquere. Com algumas variantes, é contada mais ou menos assim:
Afonso Henriques nasceu com as pernas de tal modo tolhidas, que não havia
qualquer esperança de algum dia poder andar. Egas Moniz, companheiro de armas
de seu pai, o conde D. Henrique, educou-o e cuidou dele, como se de um filho se
tratasse. Tinha ele cinco anos, foi Egas Moniz surpreendido por uma visão da
Virgem que o aconselhava a procurar uma imagem sua no local de Cárquere. A
imagem foi encontrada numa cripta, sobre a qual existia um altar. De imediato e
de acordo com as instruções divinas, nele depositou o corpo enfermo do futuro
rei. A cura foi total e imediata, e motivou o voto da construção, nesse local,
de mosteiro consagrado à Virgem. A tradição local perpetua esse milagre com
versos e orações, e aponta uma minúscula imagem em marfim guardada na igreja,
pretensamente visigótica, como a original da lenda. É claro que pelo seu
tamanho e valor está bem guardada num cofre e apenas pode ser vista em
fotografia. Se é visigótica ou românica, não há modo de ter a certeza, mas como
há a possibilidade de ter aqui existido templo ou ermida pré-românica, essa
hipótese é minimamente credível.
Não menos venerada é a
imagem da Senhora-a-Branca, escultura gótica em pedra de Ançã, característica
das oficinas de Coimbra. Esta escultura está muito deteriorada pois a sua base
é raspada pelas mães da região, que acreditam que ao beber com água o pó assim
obtido, garantirão um bom aleitamento… Esta crença, cuja idade se desconhece —
anos? séculos? — e continua nos nossos dias, obrigou a preencher com gesso as
falhas na superfície da imagem.
Do primitivo mosteiro
nada resta, além de algumas construções a que chamam “o conventinho” e da
capela funerária contendo quatro grandes túmulos dos condes de Resende,
descendentes de Egas Moniz, cuja tosca janela românica atesta a antiguidade. Os
edifícios sobreviventes, mesmo alterados por construções posteriores, são belos
e integram-se harmoniosamente na paisagem envolvente. Um grande arco, uma
sólida torre ameada, o conventinho e a igreja, belíssima na sua simplicidade
mas de pórtico já manuelino e ornada no interior com bons altares barrocos em
talha, constituem monumento digno dos pergaminhos históricos e lendários que ostenta.
Eça de Queiroz
conheceu-o decerto, pois sua mulher, D. Emília de Castro Pamplona, era
descendente dos condes de Resende e a casa onde viveram, em Santa Cruz do
Douro, a Tormes de A Cidade e as Serras, situa-se a poucos quilómetros, na
outra margem do Douro. O próprio Eça presta directa homenagem ao velho mosteiro
que, em A Ilustre Casa de Ramires , transfigura para Santa Maria de Craquede.
Neste romance, no final do capítulo VII, descreve a capela, mas convertendo-a
em imponente construção e multiplicando o número de túmulos, cujas
características altera também: “E contra o muro, onde rijas nervuras desenham
outros arcos, avultam os sete imensos túmulos dos antiquíssimos Ramires,
denegridos, lisos, sem um lavor, como toscas arcas de granito, alguns pesadamente
encravados no lajedo, outros pousando sobre bolas que os séculos lascaram”.
Junto ao mosteiro, no
morro das procissões, onde existiu um castro romanizado, pastam rebanhos de
ovelhas e cabras. Contudo, em Maio, velhíssimas cerimónias juntam aqui o povo
dos lugares vizinhos para implorar protecção contra as trovoadas. Tudo em redor
contribui para fazer sentir ao visitante o peso de séculos e a continuidade no
presente de práticas obscuras de que já não há memória. Terras onde o
maravilhoso e o real se dissolvem nas brumas da imaginação…
Foto:Igreja Matriz de
Cárquere,Resende/Viseu//Créditos de Acscosta, com a devida vénia //Wikipédia
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